Autor defendia que bons folhetins eram resultados de personagens marcantes, conflitos universais e capítulos encerrados com ganchos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Benedito Ruy Barbosa — Foto: TV Globo Responsável por fenômenos de audiência na TV brasileira, Benedito Ruy Barbosa costumava dizer que "não ligava" para a "pressão" por arrebanhar uma quantidade elevada de espectadores de suas novelas. Ele escrevia tramas rurais porque gostava desse universo — e também porque tinha certeza de que "mesmo o povo de São Paulo traz na sola do pé a poeira da estrada", como afirmou, numa entrevista ao GLOBO em 2009. A melhor maneira de manter a atenção do público, segundo ele, residia numa estratégia simples: "O segredo da novela é o gancho, é o 'e agora, o que vai acontecer?'", disse. Mestre das "viradas" nas histórias — e dos mistérios explorados durante um folhetim (quem aí não lembra dos segredos de Luana, interpretada por Patrícia Pillar, em "O Rei do Gado", de 1996, ou da identidade enigmática de Ana do Véu, papel de Patrícia Pillar, em 1986, e de Isis Valverde, em 2006, em ambas as versões de "Sinhá moça"?) —, Benedito preferia ver a audiência como uma figura a rés-do-chão, com rosto e corpo bem definidos, e não como um número abstrato a ser perseguido. Era isso o que ele costumava sugerir ao se discorrer acerca do assunto. Morre Benedito Ruy Barbosa. Relembre as novelas escritas por ele 1 de 11 A novela "Velho Chico", de 2016 — Foto: Divulgação/TV Globo 2 de 11 'Meu pedacinho de chão', de 2014 — Foto: Divulgação/TV Globo X de 11 Publicidade 11 fotos 3 de 11 'Paraíso', de 2009 — Foto: Divulgação/TV Globo 4 de 11 A novela 'Sinhá Moça', de 2006 — Foto: Divulgação/TV Globo X de 11 Publicidade 5 de 11 'Cabocla', de 2004 — Foto: Divulgação/TV Globo 6 de 11 A novela 'Esperança', de 2002 — Foto: Divulgação/TV Globo X de 11 Publicidade 7 de 11 "Terra Nostra", de 1999 — Foto: Divulgação 8 de 11 Patricia Pillar e Antonio Fagundes em cena de 'O Rei do Gado', de 1996 — Foto: Divulgação X de 11 Publicidade 9 de 11 A versão de 1993 de 'Renascer' — Foto: TV Globo 10 de 11 Cristiana Oliveira como Juma Marruá em 'Pantanal', exibida pela Manchete em 1990 — Foto: Reprodução X de 11 Publicidade 11 de 11 A versão de 1986 de 'Sinhá Moça' — Foto: Reprodução/TV Globo . — Eu já participei de pesquisas (junto ao público) antigamente. Certa vez, uma senhora disse: "A gente quando é mocinha sonha com príncipe encantado. O meu é bêbado. Trabalho feito louca e quando chega a hora da novela, ligo a TV e choro. Ele entra e grita: 'O que é isso? Eu me mato de trabalhar, luto para manter essa casa e você fica aí na frente dessa TV chorando?' Eu me realizava como mulher vendo a novela". Está vendo? Ela não pensava em audiência. Nas casas onde existem os aparelhos que medem a audiência em SP, têm TV na sala no quarto e na cozinha e apenas um aparelho por domicílio. Na sala você vê uma coisa e, na cozinha, outra. Então é fajuta essa audiência — ressaltou, em outra entrevista ao GLOBO, em 2014. Benedito Ruy Barbosa insistia que nunca escrevia pensando em índices do Ibope. Para ele, o sucesso era consequência de histórias capazes de despertar "identificação emocional", especialmente por retratar conflitos familiares, disputas por terra, romances e personagens ligados ao universo rural brasileiro. Na visão do autor, a novela precisava, acima de tudo, fazer o espectador "querer voltar no dia seguinte" para descobrir o desfecho de cada trama. A fórmula se mostrou eficiente ao longo de décadas. Obras como "Pantanal" (1990), "Renascer" (1993), "O Rei do Gado" (1996), "Terra Nostra" (1999) e "Cabocla" (1979 e 2004) atravessaram gerações, ganharam reprises e, em alguns casos, novas versões para a TV. Mesmo diante das mudanças nos hábitos de consumo audiovisual, Benedito defendia que uma boa novela continuava baseada nos mesmos princípios: personagens marcantes, conflitos humanos universais e capítulos encerrados com perguntas capazes de manter viva a curiosidade do público.