Presidente interina tem sido alvo de críticas generalizadas de civis e organizações humanitárias de que a ajuda oficial demorou a chegar logo depois do desastre e continua sendo ineficaz Esforços de resgate após os terremotos em La Guaira, Venezuela, em 4 de julho de 2026 — Foto: AP Photo/Ariana Cubillos No cemitério La Esperanza, no oeste da Venezuela, voluntários da comunidade vêm cavando covas para as vítimas dos dois terremotos devastadores que atingiram o país no mês passado, descarregando caixões e ajudando famílias na busca por seus parentes. Nas colinas acima da cidade de Catia La Mar, uma das mais afetadas, voluntários locais, trabalhando ao lado de alguns funcionários do cemitério, já enterraram 314 pessoas no cemitério La Esperanza, afirmou nesta terça-feira Elis Zabala, de 33 anos, presidente do conselho comunitário. Cerca de 100 dessas pessoas foram identificadas apenas por um número vinculado aos registros do necrotério. "Estamos colocando nosso coração e nossa alma nisso, mas me sinto cansada", disse Zabala, acrescentando que os voluntários estão exaustos. Muitos moradores da comunidade também precisam de ajuda, como combustível, medicamentos, água e alimentos. Os voluntários estão desempenhando funções que, em outros países, costumam ser executadas por equipes governamentais. Venezuelanos criticaram a resposta do governo aos terremotos de 24 de junho por considerá-la lenta e afirmam que ela continua ineficaz quase duas semanas depois do desastre. O principal diplomata americano em Caracas saiu em defesa do governo interino de Delcy Rodríguez nesta terça-feira ao afirmar que a Venezuela atendeu aos pedidos para avançar na resposta humanitária, sem responder diretamente às críticas à gestão instalada após a destituição do ex-presidente Nicolás Maduro por Washington. Delcy, que havia sido vice-presidente de Maduro, defendeu com veemência a atuação do governo diante dos terremotos. Rodriguez afirmou existir uma conspiração da imprensa para desacreditar a resposta oficial, embora não tenha apresentado provas para sustentar a acusação. "O governo interino, como já disse, foi plenamente cooperativo em relação aos pedidos para avançar nessa enorme resposta humanitária", afirmou o encarregado de negócios da embaixada americana em Caracas, John Barrett, durante conversa com jornalistas, ao ser questionado sobre as críticas à resposta do governo ao desastre e seus elogios anteriores a Rodriguez. Barrett, que na semana passada afirmou à imprensa ter "grande confiança" nas autoridades locais, disse que a assistência humanitária total dos Estados Unidos à Venezuela em resposta aos terremotos já supera US$ 310 milhões. Analistas políticos afirmam que a capacidade de resposta do país foi enfraquecida por décadas de turbulência econômica e política. O número de mortos nos terremotos subiu para 3.535, informaram as autoridades na segunda-feira, enquanto quase 18 mil pessoas continuam desabrigadas após os dois abalos, de magnitudes 7,2 e 7,5, ocorridos com poucos segundos de intervalo. Os civis lideraram grande parte das operações de resgate e recuperação, com o apoio de equipes profissionais de salvamento de diversos países, bombeiros e voluntários do Exército. Também foram os civis que forneceram boa parte da ajuda material, como alimentos e roupas, nos primeiros dias após os terremotos, especialmente no Estado de La Guaira, o mais atingido. Organizações humanitárias internacionais, entre elas o Comitê Internacional de Resgate (IRC), afirmam que a resposta não corresponde à dimensão das necessidades humanitárias. Equipes de resgate e voluntários vasculham os escombros de um prédio que desabou durante os terremotos em La Guaira, Venezuela, na segunda-feira, 6 de julho de 2026 — Foto: AP/Ariana Cubillos Polícia barra jornalistas no cemitério No cemitério, nesta terça-feira, cerca de 20 policiais impediram a entrada de jornalistas. Zabala disse que voluntários da região começaram a cavar valas para sepultamentos já no dia seguinte aos terremotos. Embora a área não tenha sido diretamente atingida pelos tremores, ela é isolada e não conta com transporte público. Apenas motocicletas circulam pela íngreme estrada da encosta, de onde se avista o mar azul do Caribe. Para as famílias das vítimas, todos os serviços, do caixão à colocação de uma cruz sobre o túmulo, são gratuitos, afirmou Zabala. Familiares que vão ao necrotério provisório instalado no porto de La Guaira em busca de parentes observam fotografias na esperança de identificar as vítimas. Marcas características, impressões digitais e registros odontológicos também são utilizados, disse um perito da área forense, que pediu para não ser identificado por não estar autorizado a falar com a imprensa. Se a análise visual e dos registros odontológicos não permitir a identificação completa, são realizados testes de DNA, acrescentou.