Em 2018, o então deputado Canella propôs a concessão da Medalha Tiradentes, principal honraria da Assembleia, ao delegado Amim. Em nota, a Polícia Civil disse que "não compactua com eventuais desvios de conduta" e que mantém "mecanismos de controle interno voltados à apuração de irregularidade". À esquerda, o ex-deputado Márcio Canella (União) coloca a Medalha Tiradentes no delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do RJ, em 2018 — Foto: Reprodução/TV Alerj O g1 procurou a defesa de Amim e tentou contato com o próprio ex-secretário. No entanto, não houve respostas até a publicação desta reportagem. Nota da Polícia Civil na íntegra: "A Corregedoria-Geral da Polícia Civil instaurou uma investigação disciplinar para apurar os fatos. A Polícia Civil acompanha o caso de perto e reafirma que não compactua com eventuais desvios de conduta. A instituição mantém mecanismos de controle interno voltados à apuração de irregularidades e colabora com os demais órgãos sempre que necessário. O compromisso da corporação é com a legalidade, a transparência e a correta prestação do serviço público à sociedade." O delegado Marcus Amim — Foto: Reprodução/TV Globo PF investiga uso de postos de gasolina para lavar dinheiro Um dos alvos da operação nesta terça-feira (7) é uma rede de postos de combustíveis no Grande Rio que movimentou R$ 7,6 bilhões em um suposto esquema de lavagem de dinheiro, com anuência de políticos. Entre os alvos de buscas estão Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil — outros agentes da ativa da instituição também são investigados. O g1 tenta contato com as defesas. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo investigado. Márcio Canella e Marcus Amim — Foto: Reprodução Alerta do Coaf As investigações começaram com um relatório de inteligência enviado à PF pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O documento apontou que o grupo movimentou R$ 7,6 bilhões nos últimos 6 anos. “Além do crime de organização criminosa, os investigados poderão responder por contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações”, disse a PF. A ação se insere no contexto da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito do julgamento da ADPF 635/RJ, a ADPF das Favelas, que, dentre outras providências, determinou que a Polícia Federal conduzisse investigações sobre relações de agentes públicos com facções criminosas. Dono de postos foi alvo da 5ª fase O g1 apurou que as buscas tinham como objetivo esclarecer as ligações de Trabach com Castro e com o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar. Após a posse de Castro, empresas ligadas a Trabach passaram a firmar contratos com o governo do estado. O empresário também já foi investigado pelo Ministério Público do Rio por suspeita de integrar uma organização criminosa. Na ocasião, sua defesa era feita pelo então advogado Rodrigo Bacellar. Márcio Canella é alvo Márcio Canella foi eleito vereador de Belford Roxo em 2012. Em 2015, se elegeu deputado estadual em 2015 e por 3 mandados ficou na Alerj. Nesse período, Canella se licenciou para ser vice do prefeito Waguinho, de Belford Roxo, de 2017 a 2019. Os antigos aliados se afastaram depois das eleições presidenciais de 2022. À época, Canella apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e Waguinho optou por Lula. Em 2024, Canella foi eleito prefeito de Belford Roxo. O principal adversário dele era o ex-secretário municipal Matheus do Waguinho (Republicanos), sobrinho de Waguinho. No início de abril de 2026, Canella renunciou ao cargo de prefeito para concorrer ao Senado. Ele é apoiado pelo senador Flávio Bolsonaro e pelo deputado estadual Douglas Ruas. Em seu lugar, assumiu a então vice-prefeita Mariana Malta. As outras 5 fases A Operação Unha e Carne teve 5 fases desde dezembro de 2025 e apurava, no início, um suposto vazamento de informações sigilosas de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV). Segundo a PF, os dados sensíveis compartilhados teriam comprometido operações e beneficiado investigados ligados à facção criminosa. Ainda segundo a investigação, o vazamento teria permitido a destruição ou ocultação de provas, frustrando a ação policial. Ainda em dezembro de 2025, a 2ª fase aprofundou as apurações sobre a origem dos vazamentos. Nessa etapa, a PF prendeu preventivamente o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). Segundo os investigadores, o vazamento teria partido do Judiciário federal. A suspeita é que o magistrado repassou informações a Bacellar, que, por sua vez, as transmitiu a TH Joias. A defesa de Macário disse que a 5ª fase da operação não tem qualquer relação com o magistrado. A Polícia Federal informou ter encontrado mensagens, registros de ligações e indícios de relação próxima entre o desembargador e o deputado, o que, segundo a investigação, indicaria troca de favores. TH Joias e Rodrigo Bacellar, presidente da Alerj — Foto: Divulgação Na 3ª fase, a Polícia Federal também passou a relacionar diretamente o caso à ADPF 635, apontando que as condutas investigadas poderiam comprometer ações do Estado no combate ao crime organizado no Rio. A denúncia da PGR inclui, além de Bacellar, TH Joias, o desembargador Macário Júdice Neto e outros investigados. Segundo o órgão, há indícios de uma cadeia de proteção institucional ao crime organizado. Na 4ª fase, de 5 de maio de 2026, o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) foi preso, suspeito de comandar um esquema de fraudes em procedimentos de compra de materiais e de aquisição de serviços, como obras para reformas, no âmbito da Secretaria Estadual de Educação do RJ (Seeduc). As irregularidades foram mostradas em uma série de reportagens no RJ2. As apurações que levaram à 4ª etapa revelaram direcionamentos das contratações realizadas por escolas estaduais vinculadas à Diretoria Regional Noroeste da Seeduc — segundo a PF, uma zona de influência política de Rangel — para empresas previamente selecionadas e vinculadas ao esquema. Também foram cumpridos mandados de prisão contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e contra Rodrigo Bacellar — ambos já estavam encarcerados. A PF não revelou nenhum nome, mas disse que esses agentes políticos são investigados por suspeita de receber doações de Adilsinho para a campanha de 2022. Segundo a PF, as planilhas indicam “a existência de registros relacionados a supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e contabilidade vinculada à lavagem de capitais”. “As listas chamaram a atenção dos investigadores por apontarem possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do Estado do Rio de Janeiro”, afirmou a Polícia Federal. ➡️ Como o g1 mostrou em 2024, a Máfia do Cigarro controlava, na época, ao menos 45 dos 92 municípios do Rio de Janeiro. Nesses lugares, só os maços produzidos pela quadrilha podiam ser vendidos.