Ex-primeira-dama pretende gravar vídeos com estrutura e recursos do partido enquanto mantém suspense sobre disputa pelo Senado no DF 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro durante evento do PL — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo Apesar da guerra deflagrada no PL e no núcleo clã Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro já avisou a interlocutores que vai se engajar nas campanhas de aliadas. A ideia de Michelle é gravar vídeos para impulsionar a candidatura de mulheres da sigla comandada por Valdemar Costa Neto, mesmo tendo deixado o comando do PL Mulher após a crise instalada com a divulgação de um vídeo em que acusa o pré-candidato do partido à presidência e seu enteado, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), de tê-la maltratado e apunhalado nas costas. Enquanto mantém sob suspense o futuro de sua pré-campanha ao Senado pelo Distrito Federal, a mulher de Jair Bolsonaro fez chegar ao dirigente do partido que pretende usar recursos e estruturas da legenda para atuar como cabo eleitoral das candidatas apoiadas por ela. Procurado pelo blog sobre os planos da ex-primeira-dama, Valdemar respondeu: “Garanto a ela o que ela quiser. Os recursos do PL Mulher são para isso.” Michelle deixou o comando do PL Mulher há uma semana após uma reunião tensa com o dirigente que quase culminou na sua desfiliação, após a crise com o presidenciável da legenda, Flávio Bolsonaro. Por consequência, perdeu o salário de R$ 46 mil e o direito a uma equipe própria de assessores, e a presidência da setorial foi extinta. O eleitorado feminino é um dos principais desafios da campanha presidencial de Flávio. Na última pesquisa Datafolha, divulgada em junho, o presidente Lula liderou com folga a intenção de voto entre mulheres (52% contra 37% de Flávio), distância bem maior em comparação com eleitores homens (50% do filho de Bolsonaro ante 41% do petista). A briga pública com Michelle ampliou a preocupação da campanha de Flávio com o desgaste junto ao eleitorado feminino. O presidenciável tentou contornar a crise em um evento com mulheres do PL na semana passada, mas a agenda acabou esvaziada com a ausência da ex-primeira-dama e da senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Recuo No comunicado que sacramentou sua renúncia, Michelle definiu a divisão do partido voltada para a causa das mulheres como um “grande exército de mulheres de bem” e agradeceu às presidentes estaduais e municipais – a ampliação da capilaridade do PL Mulher foi uma das maiores apostas da ex-primeira-dama em sua gestão. Mas, na mesma nota, Michelle atribuiu sua saída do cargo para se dedicar “integralmente” aos cuidados de Bolsonaro, que segue em prisão domiciliar em Brasília, e da filha do casal, Laura, e indicou tacitamente que a continuidade dos projetos do PL Mulher caberia às aliadas, e não mais a ela. A sinalização de que atuará como cabo eleitoral sinaliza um recuo da ex-primeira-dama sobre seu afastamento da militância partidária. Aliados próximos dela garantem que ela também não desistirá da campanha ao Senado no DF dentro da chapa da governadora Celina Leão (PP), que concorrerá à reeleição. No cargo desde 2023, a mulher de Jair Bolsonaro atuou para fortalecer o PL Mulher e estabelecer novos quadros políticos em todos os estados do país com carta branca de Valdemar. O investimento atendia diretamente aos interesses do presidente da sigla, já que a ampliação de candidaturas femininas ajuda o partido a atingir a cota de 30% de candidatas mulheres prevista em lei. Entre as aliadas que devem contar com o empenho de Michelle é a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL), pivô da crise com Flávio pelo apoio dele e dos outros enteados à campanha de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará. Vice-presidente do PL Mulher, Priscila era pré-candidata ao Senado, mas teve que se contentar com uma candidatura a deputada federal. A atuação de Michelle na máquina do PL representou um contraste com a corrida presidencial de 2022, quando a então primeira-dama hesitou por meses a mergulhar de cabeça na campanha do marido no momento em que ele amargava uma alta rejeição no eleitorado feminino. Ela acabou gravando inserções para a cadeia nacional de TV e rádio e fez um discurso surpresa na convenção que oficializou a candidatura à reeleição de Bolsonaro no Maracanãzinho, no Rio. A fala emocionada e de tom religioso impressionou os participantes e levou Valdemar a defender no ano seguinte que Michelle alçasse voos mais altos, incluindo a Presidência da República. Seja quais forem os planos eleitorais da ex-primeira-dama, a eventual eleição de uma “bancada da Michelle” após o empenho a favor de candidatas do PL Mulher fortaleceria seu capital político no momento em que setores do bolsonarismo questionam seu papel enquanto liderança do movimento. Aliados do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, têm se referido a ela como “Michelle Firmo”, seu nome de solteira, em busca de dissociá-la do marido. Em que pese a estratégia de se colocar como cabo eleitoral de várias aliadas mulheres, Michelle tem deixado claro a aliados que não se empenhará na campanha mais importante do PL: a do enteado Flávio Bolsonaro.