Aliados do senador buscam atrair lideranças formadas por Michelle, enquanto núcleo da ex-primeira-dama tenta preservar sua influência 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Michelle Bolsonaro em evento do PL Mulher — Foto: Divulgação/PL Mulher RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/07/2026 - 22:33 Ala Feminina Bolsonarista Enfrenta Dilema entre Michelle e Flávio A ala feminina do bolsonarismo enfrenta um dilema ao tentar manter laços com Michelle Bolsonaro sem se afastar da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. A saída de Michelle da presidência do PL Mulher gerou um reposicionamento político, com lideranças femininas dividindo-se em apoio à ex-primeira-dama e ao senador. Embora algumas críticas tenham surgido, o esforço é para equilibrar relações sem rupturas, preservando a influência de ambos os lados no cenário político conservador. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher levou parte das principais lideranças femininas do campo bolsonarista a um delicado exercício de equilíbrio político. Enquanto buscam preservar a proximidade construída com a ex-primeira-dama ao longo dos últimos anos, muitas também evitam se afastar da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato escolhido pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), para disputar o Palácio do Planalto. Segundo relatos de participantes da reunião promovida por Flávio com parlamentares e lideranças conservadoras nesta quarta-feira, a crise entre madrasta e enteado acabou acelerando esse movimento. Mulheres que antes evitavam fazer críticas públicas a Michelle passaram a manifestar divergências sobre sua condução do PL Mulher, mas sem romper com a ex-primeira-dama. Ao mesmo tempo, intensificaram a participação nas agendas da campanha do senador, tentando preservar espaço nos dois polos do bolsonarismo. Embora a divisão entre os grupos já existisse de forma mais discreta, interlocutores do PL afirmam que ela foi aprofundada pela crise entre Michelle e Flávio nas últimas semanas. O embate, iniciado em torno da disputa pela vaga ao Senado no Ceará e ampliado após o vídeo divulgado pela ex-primeira-dama com críticas ao enteado, acabou antecipando um processo de reposicionamento das lideranças femininas da legenda. Segundo integrantes do partido, a saída de Michelle também mudou o comportamento de parte das parlamentares. Enquanto ela comandava o PL Mulher, críticas públicas eram evitadas por receio de desgastar a principal liderança feminina do segmento. Com sua saída, esse constrangimento diminuiu e abriu espaço para manifestações mais explícitas de apoio à estratégia conduzida por Flávio. Ao mesmo tempo, aliados da ex-primeira-dama passaram a defendê-la de forma mais aberta, tornando mais evidente o esforço de parte das lideranças para transitar entre os dois grupos. Pessoas próximas a Michelle, porém, rejeitam a interpretação de que a ex-primeira-dama tentava impedir a aproximação de parlamentares com Flávio. Segundo um integrante da legenda, ela sempre estimulou integrantes do PL Mulher a prestigiar agendas do senador e nunca tratou o apoio à candidatura presidencial como incompatível com a relação construída por ela dentro do movimento feminino. Na avaliação desse grupo, transformar o cenário em uma disputa entre "um lado ou outro" representa mais um erro de leitura política do que uma orientação da própria Michelle. A reorganização já começa a ficar evidente entre os principais nomes não apenas do partido, mas de todo o campo bolsonarista. Permanecem mais próximas de Michelle a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP-DF), ambas fortes aliadas do ex-presidente Jair Bolsonaro. Também figuram nesse grupo a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), presidente do PL Mulher em Santa Catarina, e presidentes estaduais do movimento, como Gislayne Yamashita, do Mato Grosso, e Carlise Cwiatkowski, do Paraná. Na quarta-feira, logo depois da reunião entre Michelle e o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, Damares e Celina estiveram com a ex-primeira-dama antes da divulgação da nota em que ela oficializou sua saída da presidência do PL Mulher. No partido, o encontro foi interpretado como um gesto político de solidariedade no momento de maior desgaste da crise. No dia seguinte, Damares voltou a marcar posição. Sem mencionar diretamente o conflito entre madrasta e enteado, fez uma defesa pública de Michelle e criticou os ataques sofridos pela ex-primeira-dama nas redes sociais. — Eu vou fazer referência a uma mulher de direita de quem eu sou amiga, irmã, uma espécie de mãe conselheira, que é a Michelle Bolsonaro. Vocês não têm ideia do que fizeram com a Michelle Bolsonaro nesses últimos dias. As imagens, inteligência artificial, a manipulação de imagens. Atacaram a filha dela também. Duvidam, inclusive, que a menina seja filha do ex-presidente da República. Do outro lado, Flávio passou a reunir parlamentares que vêm assumindo protagonismo na construção da agenda feminina de sua pré-campanha, entre elas Júlia Zanatta (PL-SC), Chris Tonietto (PL-RJ) e Soraya Santos (PL-RJ), além da ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, responsável por coordenar a elaboração das propostas voltadas à economia e ao eleitorado feminino. A equipe voltará a se reunir na próxima semana, no QG da pré-campanha, em São Paulo, para consolidar a versão final do programa "Brasil por Elas". A expectativa é incorporar sugestões apresentadas pelas deputadas durante o encontro realizado em Brasília e ampliar a participação feminina na elaboração da plataforma de governo. Entre Michelle e Flávio Se nas cúpulas do partido a crise tornou mais evidentes os grupos alinhados a Michelle e a Flávio, entre a maior parte das parlamentares o movimento tem sido outro. Em vez de escolher entre a ex-primeira-dama e o presidenciável, muitas lideranças buscam preservar a proximidade construída com Michelle sem abrir mão de participar da campanha presidencial do senador. A avaliação é que a ex-primeira-dama continuará sendo uma das principais referências entre as mulheres conservadoras, enquanto Flávio concentra hoje o principal projeto eleitoral do partido. Essa também é a avaliação da deputada federal Roberta Roma (PL-BA), mulher do ex-ministro João Roma (PL), pré-candidato ao Senado pela Bahia e um dos coordenadores da pré-campanha no Nordeste. — Eu acho que as mulheres gostam e respeitam a Michelle, mas enxergam em Flávio uma viabilidade política. É o caso da deputada Bia Kicis (PL-DF), amiga da ex-primeira-dama e citada nos bastidores como um dos nomes cogitados para compor a chapa presidencial do senador. Questionada se isso significa que o respeito à ex-primeira-dama será mantido ao mesmo tempo em que essas lideranças entrarão na campanha presidencial do senador, Roberta respondeu: — Acredito que sim. Apesar da proximidade com Michelle, Bia participou da reunião organizada por Flávio nesta semana e também deverá integrar o encontro da próxima semana em São Paulo. Durante o café da manhã, defendeu a unidade do campo conservador e afirmou que a prioridade do grupo deve ser a vitória da direita em outubro. — Nós temos um objetivo maior, que é tirar o PT do poder. As diferenças precisam ser superadas e nós temos que caminhar juntas para fortalecer o projeto da direita. O momento agora é de união. Nós podemos ter opiniões diferentes, mas o nosso compromisso é com um projeto maior para o Brasil e com a eleição do Flávio. A deputada Carla Dickson (PL-RN) também publicou mensagem de apoio a Michelle após sua saída do PL Mulher, mas participou da reunião promovida por Flávio e afirmou nas redes seu apoio ao projeto presdiencial do senador. Já Carol de Toni (PL-SC), apoiada pela ex-primeira-dama para disputar uma vaga ao Senado em Santa Catarina, também segue alinhada ao projeto presidencial do senador. Integrantes da campanha descrevem sua situação como uma "sinuca de bico", já que a deputada mantém proximidade política com Michelle, mas também integra o núcleo que trabalha pela candidatura presidencial de Flávio. Pivô da crise Outro exemplo é a vereadora Priscila Costa (PL-CE), personagem central da crise entre Michelle e Flávio. Indicada pela própria Michelle para ocupar a vice-presidência nacional do PL Mulher, Priscila foi o pivô do rompimento ao ter sua candidatura ao Senado defendida pela ex-primeira-dama e preterida durante as negociações conduzidas por Flávio com o grupo do deputado André Fernandes (PL-CE). Apesar disso, participou da reunião organizada pelo senador, ocupou lugar de destaque entre as convidadas e fez um dos principais discursos do encontro. — O governo do presidente Jair Bolsonaro deixou um legado de defesa das mulheres, e tenho certeza de que você vai levar este legado adiante. Na sequência, ao abordar o aumento dos casos de feminicídio no Ceará, afirmou que, em um eventual governo Flávio, "as mulheres vão estar unidas e participando". Depois, publicou nas redes sociais uma mensagem reafirmando seu apoio ao presidenciável. Nos bastidores, sua presença foi interpretada de formas diferentes pelos dois grupos. Aliados de Flávio avaliaram que o gesto demonstrou que a crise não contaminou toda a rede política construída por Michelle e enxergam na vereadora uma possível ponte para reduzir a temperatura do conflito. Já interlocutores da ex-primeira-dama rejeitam essa leitura. Argumentam que Priscila continuará representando Michelle em parte das agendas do PL Mulher, assumindo inclusive viagens e compromissos que antes seriam cumpridos pela própria ex-primeira-dama. Pessoas próximas a Michelle afirmam ainda que a ex-primeira-dama nunca encarou como ‘traição’ a participação de aliadas em agendas da pré-campanha de Flávio. Segundo esse grupo, ela sempre deixou claro que apoiar o candidato escolhido pelo partido não exclui a relação construída com o PL Mulher. Projetos conflitantes A disputa, porém, vai além da definição de quem permanece ao lado de Michelle ou de Flávio. Na avaliação de integrantes da legenda, os dois passaram a disputar também a forma como a direita pretende dialogar com o eleitorado feminino. Enquanto Michelle consolidou sua liderança no PL Mulher com um discurso fortemente ligado à família, à religiosidade, à feminilidade e aos valores cristãos, Flávio tenta construir uma estratégia diferente. Coordenado por Daniella Marques, o programa apresentado nesta quarta-feira foi estruturado em torno de três eixos — proteção, oportunidades e cuidados — e reúne propostas de combate à violência contra a mulher, empreendedorismo feminino, autonomia financeira, regularização fundiária em nome de mulheres, capacitação para beneficiárias do Bolsa Família e políticas voltadas às mães atípicas e às pessoas com doenças raras. Nos bastidores, integrantes do partido avaliam que essa diferença também reflete duas formas distintas de dialogar com o eleitorado feminino conservador. Enquanto Michelle mantém forte identificação com mulheres ligadas às igrejas e ao discurso de defesa da família, Flávio busca ampliar esse alcance apostando em temas como segurança pública, independência financeira, empreendedorismo e políticas públicas voltadas às mulheres. A estratégia ficou evidente no encontro realizado pelo senador com deputadas e lideranças conservadoras. Além de apresentar as linhas gerais do programa, Flávio aproveitou a reunião para repudiar publicamente as declarações do influenciador Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres "votam muito mal", e se desvincular do blogueiro. Enquanto aliados de Flávio avaliam que Michelle saiu politicamente enfraquecida ao deixar formalmente o comando do PL Mulher e tende a perder influência sobre parte das lideranças femininas, pessoas próximas à ex-primeira-dama fazem uma leitura oposta. Segundo esses interlocutores, o senador subestima o capital político construído por Michelle ao longo dos últimos anos e, principalmente, a relação de confiança estabelecida com mulheres que ela ajudou a incentivar e projetar na política. Aliados afirmam que parte das críticas dirigidas à ex-primeira-dama decorre de divergências antigas sobre sua forma de conduzir o PL Mulher, mas rejeitam a ideia de que ela tenha exercido uma liderança autoritária. Desde que anunciou sua saída, Michelle passou a compartilhar em suas redes sociais diversas manifestações de apoio enviadas por presidentes estaduais do movimento, parlamentares e dirigentes partidárias. Entre aliados, a estratégia é interpretada como uma forma de demonstrar que sua influência ultrapassa a estrutura formal do PL Mulher e de sinalizar que continua sendo uma das principais referências das mulheres conservadoras dentro do partido.