À medida que os EUA demonstram menos entusiasmo pela aliança, seus membros veem as Forças Armadas e o dinâmico setor de defesa turcos como ativos valiosos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidentes da Turquia, Recep Tayyip Erdogan (E), e dos EUA, Donald Trump, em reunião na Casa Branca — Foto: Haiyun Jiang/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 06/07/2026 - 16:28 Turquia se torna ativo estratégico crucial para a Otan em nova era global A Turquia, antes vista como problemática na Otan, agora é considerada um ativo crucial para a aliança diante da nova conjuntura global. Com a guerra na Ucrânia e as tensões no Irã, o país se destaca por suas Forças Armadas e indústria de defesa, além de sua capacidade diplomática, sendo um elo entre potências do Oriente e Ocidente. Apesar de críticas ao estilo autocrático de Erdogan, a Turquia ganha relevância estratégica, especialmente com as ameaças de Trump de reduzir o papel dos EUA na Otan. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Há apenas alguns anos, a Turquia era vista como o valentão da Otan, a principal aliança militar do Ocidente, liderada pelos EUA. Ela irritou aliados ao atrasar os processos de adesão de novos membros. Se recusou a aplicar sanções à Rússia sobre a guerra na Ucrânia, e seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, se referia ao líder russo, Vladimir Putin, como “querido amigo”. As tendências autoritárias de Erdogan também causavam desconforto nos altos círculos. Agora, novos acontecimentos, incluindo as guerras na Ucrânia e Irã, além do retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca, mudaram a imagem da Turquia aos olhos da Otan, aumentando seu valor na aliança militar, apontam analistas e membros dos governos da organização. Quando Erdogan der as boas-vindas aos membros da Otan na capital turca, Ancara, para a reunião de cúpula desta semana, será como o chefe de um país cuja indústria militar e as Forças Armadas de grande porte são vistas como cruciais para o futuro da aliança, e como um líder capaz de agradar a Trump. Existe um “reconhecimento” da importância da Turquia, afirmou o chanceler turco, Hakan Fidan, em entrevista ao New York Times uma semana antes da reunião. — Existe um despertar à luz do novo ambiente de segurança e de ameaças na Europa — acrescentou. A cúpula ocorre em meio à ampla repressão ordenada por Erdogan contra seus adversários políticos. Mas a principal potência da aliança, os EUA, não menciona mais o assunto. Questões levantadas por alguns membros da Otan sobre o estilo autocrático de Erdogan tampouco devem ser tratadas publicamente. Ao invés disso, os países priorizam agora o fortalecimento de suas capacidades para evitar e possivelmente se defender de ataques russos. — Para os europeus, o lobo que está do lado de fora não é o estado da democracia turca — disse John Bass, ex-embaixador americano na Turquia. Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, participa de revista da guarda de honra em Belgrado, na Sérvia — Foto: Oliver Bunic/Bloomberg A cúpula da Otan será a primeira no país desde 2004, quando George W. Bush era presidente dos EUA e Erdogan estava no primeiro mandato como primeiro-ministro. Ali, a Turquia queria usar o evento para se apresentar como uma potência em ascensão. Na reunião desta semana, as delegações vão pousar em uma pista recém-recapeada, e entrarão em um terminal VIP novo em folha. As discussões, previstas para terça e quarta-feira, ocorrerão no amplo complexo presidencial de Erdogan. O primeiro dia terá um fórum de defesa, permitindo que as empresas turcas apresentem seus drones e outras armas de fabricação nacional. No segundo dia, os líderes discutirão orçamentos de defesa e as capacidades militares industriais do bloco. Um F-35 sobrevoa a Polônia — Foto: Divulgação/Lockheed Martin Os possíveis ganhos concretos da Turquia com a reunião ainda não estão nítidos. O governo Trump disse que gostaria de vender seus caças de quinta geração F-35 aos turcos, mas o país foi impedido de comprá-los em 2019, depois de adquirir o sistema de defesa aérea russo S-400. O negócio ainda conta com a oposição explícita de Israel, um aliado de primeira hora dos EUA e cujas relações com Ancara passam longe de serem pacíficas. Nesta segunda-feira, o premier Benjamin Netanyahu disse que o fornecimento dos caças — Israel tem cerca de 50 dessas aeronaves — a Ancara “mudaria o equilíbrio de forças no Oriente Médio”. Ele não disfarçou o desconforto com declarações recentes de Hakan Fidan, quando disse que Israel era "o problema do mundo", e que "eles se tornaram um fardo que a humanidade não pode mais suportar". — Ele disse que o Estado judeu não tem lugar na humanidade, basicamente, que ele deve ser eliminado — disse Netanyahu à Fox News, sem revelar se os apelos foram ouvidos por Washington. Mesmo assim, Erdogan já pode ostentar uma vitória mesmo antes do início da cúpula: sem ele, Trump provavelmente não teria concordado em comparecer. — Se não fosse pelo fato de que [a reunião] será realizada na Turquia pelo presidente Erdogan, creio que não iria — disse o presidente americano a jornalistas recentemente. A Turquia se juntou à Otan em 1952, mas as relações com os demais parceiros nem sempre foram tranquilas. Quando Ancara comprou o sistema de defesa aérea russo, alguns acusaram o país de manter relações muito próximas com um adversário. Essas queixas ganharam força após a invasão russa da Ucrânia, em 2022, quando o país continuou a comprar petróleo e gás da Rússia, e Erdogan não parou de se encontrar de forma amistosa com Putin. A Turquia há muito tempo acusa os aliados da organização de ignorarem suas questões internas de segurança, de hesitarem em ampliar a cooperação de defesa e de ignorarem as pressões advindas de sua posição geográfica entre a Europa, Ásia e Oriente Médio. Mural com promoção da cúpula da Otan em Ancara, na Turquia — Foto: Adem ALTAN / AFP Mas os últimos anos foram marcados por uma nova forma de encarar o que a Turquia pode trazer para a aliança. Sua rede de relações diplomáticas inclui não apenas as grandes forças de Oriente e Ocidente, mas também dos Bálcãs, África e Oriente Médio. Laços usados para mediar diversas crises no passado recente. — Conforme o conflito na Ucrânia se arrasta, alguns europeus acham útil ter alguém capaz de manter contato com os russos — disse Bass. A guerra na Ucrânia e o desdém de Trump pela aliança foram cruciais para a virada de chave sobre a percepção do papel da Turquia na Otan. Elas ressaltaram as preocupações sobre a produção das armas necessárias para apoiar a Ucrânia, conter a Rússia e permanecer forte mesmo se os EUA reduzirem seu grau de envolvimento. Ancara tem a segunda maior Marinha da Otan, atrás apenas dos EUA, controla o acesso ao Mar Negro e é responsável por boa parte do flanco sul da aliança. Mas a confiança entre os turcos e demais membros segue baixa devido a disputas políticas ou à preocupação sobre o compromisso de Erdogan com a democracia. A Turquia reclama por ter sido excluída dos planos para reforçar a segurança da Europa através da União Europeia, da qual não faz parte. Por enquanto, o desejo de trabalhar com a Turquia enquanto a Otan enfrenta seus desafios deu a Erdogan um benefício importante: o silêncio dos aliados enquanto expande seus poderes internos.