Mojtaba Khamenei não é visto em público desde os ataques que o feriram gravemente e mataram seu pai no início da guerra Multidão acompanha cortejo fúnebre do aiatolá Ali Khamenei e familiares em Teerã — Foto: Escritório do Líder Supremo do Irã via REUTERS Milhares de pessoas foram às ruas de Teerã para as cerimônias oficiais do funeral de Ali Khamenei, o líder supremo iraniano morto no primeiro dia da guerra lançada por Israel e Estados Unidos em fevereiro. Mas a ausência do homem escolhido para sucedê-lo - seu filho, Mojtaba Khamenei - alimentou especulações sobre seu estado de saúde e sua capacidade de exercer autoridade no regime. Enquanto três dos irmãos de Mojtaba apareceram em público para prestar homenagens ao pai, o novo líder supremo permaneceu fora de cena. As autoridades afirmam que preocupações com a segurança explicam sua ausência nas cerimônias realizadas ao longo da última semana. Ao contrário do pai, que dominou a vida pública iraniana por quase quatro décadas, Mojtaba, de 56 anos, manteve um perfil discreto durante os anos que antecederam sua escolha como líder supremo por uma poderosa assembleia clerical, em março. Gravemente ferido no ataque que matou seu pai, Mojtaba ainda não apareceu em público, não fez discursos e nem concedeu entrevistas. As comunicações do novo líder supremo com a população se limitaram a algumas mensagens escritas. Ainda assim, duas autoridades iranianas disseram que Mojtaba continua participando ativamente das decisões de governo e que seus ferimentos “estão cicatrizando rapidamente”. O presidente do país, Masoud Pezeshkian, afirmou em maio que havia se reunido com o novo líder supremo. Em uma das raras intervenções públicas desde que assumiu o cargo, Mojtaba declarou apoio, com ressalvas, ao memorando de entendimento assinado no mês passado pelas autoridades iranianas e pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o objetivo de encerrar a guerra. Mojtaba acumulou poder durante o governo de seu pai como uma figura influente estreitamente ligada às forças de segurança iranianas e ao vasto império empresarial que elas controlam. Os laços estreitos de Mojtaba com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) lhe deram influência em todo o aparato político e de segurança do Irã, além de consolidar sua reputação como poderoso agente nos bastidores do governo de seu pai, segundo fontes familiarizadas com o assunto. Fontes graduadas iranianas disseram à Reuters, em março, que a IRGC foi decisiva para a ascensão de Mojtaba ao posto de líder supremo, por vê-lo como uma versão mais maleável do pai e disposta a apoiar as políticas de linha-dura. Segundo essas fontes, a IRGC superou a resistência de importantes figuras políticas e religiosas. Alguns consideravam que Mojtaba não possuía as credenciais religiosas tradicionalmente associadas ao mais alto cargo do país. Outros viam com preocupação o fato de um filho suceder o pai como líder supremo em uma república nascida da derrubada de uma monarquia hereditária. Mulher segura cartazes do aiatolá Mojtaba Khamenei, à direita, sucessor do falecido pai, o aiatolá Ali Khamenei, à esquerda, como líder supremo, em manifestação em apoio a ele em Teerã, Irã — Foto: Vahid Salemi/AP Quando foi nomeado terceiro líder supremo do Irã, Mojtaba também foi promovido simultaneamente do posto clerical de aiatolá, sem qualquer explicação oficial para a promoção. Uma alta autoridade iraniana descreveu Mojtaba como “muito próximo” do presidente do Parlamento, Mohammad Qalibaf, que também é o principal negociador do Irã nas conversas com os Estados Unidos. “Ele conta com uma sólida base de apoio dentro da Guarda Revolucionária, especialmente entre as gerações mais jovens e radicais”, afirmou Kasra Aarabi, diretor de pesquisas sobre a IRGC na organização americana United Against Nuclear Iran. Como líder supremo, Mojtaba tem a palavra final sobre todas as principais questões de Estado, incluindo política externa, segurança nacional e o programa nuclear iraniano. Ainda assim, poderá enfrentar resistência de parte da população que, reiteradamente nos últimos anos, foi às ruas exigir mais liberdades sociais e políticas, apesar da repressão frequentemente violenta das autoridades. Nascido em 1969 na cidade sagrada xiita de Mashhad, Mojtaba cresceu enquanto seu pai ajudava a liderar a oposição ao xá apoiado pelos EUA. Na juventude, serviu durante a guerra Irã-Iraque. Mais tarde, estudou com clérigos conservadores nos seminários de Qom, centro do ensino religioso xiita no Irã, alcançando o posto clerical de "hojatoleslam". Apesar da influência exercida durante o governo do pai, Mojtaba nunca ocupou um cargo formal no governo. Embora tenha aparecido ocasionalmente em eventos favoráveis ao regime, raramente falou em público. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções a Mojtaba em 2019, afirmando que ele representava o líder supremo “em caráter oficial, apesar de nunca ter sido eleito nem nomeado para um cargo governamental”, além de seu trabalho no gabinete do pai. Segundo o Tesouro americano, Ali Khamenei delegou parte de suas responsabilidades a Mojtaba, que trabalhou em estreita colaboração com comandantes da Força Quds da Guarda Revolucionária e da milícia Basij “para promover as ambições regionais desestabilizadoras de seu pai e seus objetivos repressivos no plano interno”. Mojtaba tornou-se um alvo especial da indignação popular durante os protestos nacionais desencadeados pela morte, em 2022, de uma jovem sob custódia policial após ser presa por supostamente violar o rígido código de vestimenta do Irã. Em 2024, um vídeo amplamente divulgado mostrou Mojtaba anunciando a suspensão das aulas de jurisprudência islâmica que ministrava em Qom, alimentando especulações sobre os motivos da decisão. Mojtaba tem uma notável semelhança física com o pai e usa o turbante preto, que indica uma linhagem familiar atribuída ao profeta Maomé. Um telegrama diplomático americano de 2007, divulgado pelo WikiLeaks, citou três fontes iranianas que descreviam Mojtaba como um canal fundamental de acesso ao pai. Sua esposa, morta no ataque de 28 de fevereiro, era filha do influente político de linha-dura e ex-presidente do Parlamento Gholamali Haddadadel, reforçando ainda mais seus vínculos com a elite política da República Islâmica.
Ausência do novo líder supremo do Irã no funeral de Khamenei alimenta especulações
Mojtaba Khamenei não é visto em público desde os ataques que o feriram gravemente e mataram seu pai no início da guerra











