Sônia, uma adolescente de 15 anos assassinada às vésperas do seu primeiro baile, tenta remontar o quebra-cabeça de suas memórias. Essa é a sinopse mais comum para descrever "Valsa nº 6", o único monólogo de Nelson Rodrigues. Mas, para a atriz Carol Costa, falta uma palavra nesse resumo. "A maioria esquece que é a história de um corpo abusado, de um feminicídio. As pessoas não querem admitir."
Agora, a depender da intérprete, não restará dúvidas da veia feminista e dos protestos contra abuso infantil deste que é o sétimo texto teatral do "anjo pornográfico", escrito em 1951.
Não à toa, ela e o diretor Jorge Farjalla, bem versado em Nelson, preferem classificar a nova montagem, no Teatro Sérgio Cardoso, centro de São Paulo, como um manifesto contra a violência de gênero que persiste 75 anos depois. "Hoje as coisas estão mais óbvias e mais claras, mas nada mudou", diz o diretor.
O que se verá é diferente das orientações do dramaturgo, que pedia um fundo com cortinas vermelhas, um banquinho e um piano branco para que Sônia tocasse trechos da "Valsa nº 6", de Chopin, que ela praticava na hora de sua morte.
Em vez da habitual separação entre palco e plateia, o tom de denúncia é ressaltado por uma proposta intimista —em cima do palco, apenas 40 assentos por sessão cercam o espaço cênico em formato de quadrado, aproximando o público da ação.









