Quando tinha 17 anos, Kaley Glenn-Mills concordou em enfrentar algumas das maiores e mais poderosas empresas do mundo, acusando-as na Justiça de tornar crianças e adolescentes viciados em redes sociais. Havia apenas uma coisa que realmente a assustava. Seu medo não era que advogados vasculhassem todo o seu histórico digital, nem que fotos íntimas fossem usadas como prova, que declarações feitas em sessões de terapia fossem exploradas contra ela, que sua mãe fosse transformada em alvo de ataques públicos, que as empresas a colocassem sob vigilância ou mesmo que tivesse de depor no tribunal. O que a fazia perder o sono era outra possibilidade: que as plataformas que ela estava processando — Instagram, YouTube, TikTok e Snapchat — resolvessem bani-la. — Será que essas empresas vão ficar com raiva de mim e apagar minhas contas? — lembra de ter pensado. — Se elas apagarem minhas contas, o que vai ser da minha vida? Kaley Glenn-Mills é a K.G.M. do caso histórico ''K.G.M. versus Meta et al.'', julgado no início deste ano e encerrado com o veredicto mais prejudicial para a indústria das redes sociais em um quarto de século. Sua ação foi escolhida, entre milhares de processos, para servir como caso-teste em uma ampla frente de litígios movidos em diferentes partes dos Estados Unidos, todos sustentando que os produtos das redes sociais foram deliberadamente projetados para causar dependência. Durante todo o julgamento, Kaley optou por não revelar seu sobrenome, e a imprensa que permaneceu do lado de fora do Tribunal Superior do Condado de Los Angeles foi proibida de fotografar seu rosto. Agora, passados alguns meses, ela decidiu tornar pública sua identidade. Apoiadores de Kaley na porta do tribunal — Foto: Getty Images via AFP Em sua primeira entrevista, Kaley afirmou que um dos motivos é agradecer às pessoas que compareceram ao tribunal para apoiá-la: os pais de crianças que morreram após serem tragadas pelo universo das redes sociais e os jovens ativistas que seguravam cartazes com a frase: "Nós somos K.G.M.". — Foi a melhor coisa que aconteceu durante o julgamento — diz Kaley. — Às vezes eu me sentia muito isolada. Na maior parte do tempo, eu estava cercada por advogados, todos muito ocupados e concentrados no trabalho. Eu os admirava muito, mas me sentia sozinha. Ver aqueles cartazes me fez lembrar que eu não estava sozinha, que estava ali representando milhões de outros adolescentes. Aquilo realmente me deu forças para seguir em frente. Após ouvir depoimentos de executivos das empresas, especialistas em dependência e da própria Kaley, o júri concluiu que o Instagram, da Meta , e o YouTube, do Google, agiram com negligência ao direcionar intencionalmente crianças e adolescentes a recursos considerados viciantes, como a reprodução automática de vídeos (autoplay) e a rolagem infinita (endless scroll). Os jurados também entenderam que as empresas agiram com dolo e determinaram o pagamento de uma indenização conjunta de US$ 6 milhões a Kaley, hoje com 20 anos. Snapchat e TikTok fizeram um acordo antes do início do julgamento. Google e Meta afirmaram que recorrerão da decisão. As empresas devem sustentar que a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos e a Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações deveriam ter impedido que o processo chegasse aos tribunais. Independentemente do desfecho, a ação movida por Kaley já provocou mudanças no debate sobre o ambiente digital e se tornou um dos principais símbolos da campanha global para proteger crianças e adolescentes na internet. Infância comum, até certo ponto Ao relembrar a história, Karen Glenn diz que não sabe exatamente quando começou a perder as filhas para o mundo digital. Apenas que, quando percebeu o que estava acontecendo, já era tarde demais. Karen criou as duas filhas em uma casa de três quartos, localizada em uma rua sem saída na cidade de Chico, na Califórnia. Quando bebê, Kaley chorava tão pouco que a mãe chegou a levá-la ao médico para verificar se havia algum problema. O médico a tranquilizou e disse que Kaley era simplesmente "uma criança satisfeita". Na infância, ela gostava de acompanhar a irmã mais velha, Keanna, deixando que ela escolhesse as brincadeiras, fizesse as amizades e, muitas vezes, falasse por ela. — Essa era a Kaley — lembra Karen Glenn. — Ela nunca fazia confusão nem criava caso. Os pais de Kaley se divorciaram quando ela tinha 3 anos. Para Karen Glenn, que criava as filhas sozinha e trabalhava em meio período, o dinheiro era curto. A família raramente saía para comer fora ou tirava férias. Os instrumentos musicais das meninas eram de segunda mão. Ainda assim, elas adoravam os tesouros que a mãe encontrava em caixas empoeiradas durante vendas de espólios, e, todos os anos, Karen economizava o suficiente para organizar festas de aniversário temáticas, alugando haras e conseguindo até recortes em tamanho real de princesas da Disney. Vaidosa desde pequena, apaixonada por brilho labial e vestidos florais, Kaley começou a usar o YouTube aos 6 anos. Gostava de assistir a vídeos e, em pouco tempo, aprendeu sozinha a filmar, editar e publicar seu próprio conteúdo. Nos primeiros anos da escola, Kaley enfrentou dificuldades. Sentia falta do pai, era tímida, ansiosa e convivia com um transtorno de aprendizagem que ainda não havia sido diagnosticado. Tinha dificuldade para acompanhar as aulas e frequentemente sentia que não se encaixava entre os colegas. Em alguns dias, como escreveu aos 9 anos, sua mãe era "a melhor e mais legal mãe do universo" — como quando apareceu na escola levando batatas fritas do McDonald's para ajudá-la a fazer amigos. Em outros momentos, porém, Kaley relataria mais tarde aos advogados que a mãe era irritadiça e impaciente, especialmente quando ela tinha dificuldade para fazer a lição de matemática. "Ela podia ser muito gentil em um momento e, no seguinte, extremamente cruel", testemunhou Kaley. 15 contas diferentes para curtir suas próprias publicações Quando Kaley completou 10 anos, já havia publicado cerca de 200 vídeos no YouTube, muitos deles com a irmã Keanna como protagonista. Ela também usava o Instagram diariamente. No ensino fundamental, acordava e começava a deslizar pela tela. Durante as aulas, escondia o celular no colo para continuar navegando. No horário do almoço, sentava-se em uma cabine do banheiro e seguia rolando o feed. Ao chegar em casa, passava mais horas fazendo o mesmo. Karen Glenn afirma que tentou acompanhar a vida digital das filhas. Instalou programas de controle parental para monitorar a atividade delas e impedir o compartilhamento de informações pessoais. — O único perigo que eu imaginava que pudesse vir do celular era o contato com estranhos — diz. A dependência das redes sociais se manifestou de formas diferentes nas duas meninas. No caso de Keanna, os algoritmos passaram a recomendar conteúdos sobre automutilação e transtornos alimentares, além de conectá-la a homens com comportamento predatório. Ela deixou de se alimentar adequadamente e começou a se automutilar. Quando foi internada, aos 15 anos, sua frequência cardíaca em repouso havia caído para apenas 27 batimentos por minuto. Kaley, por sua vez, tornou-se cada vez mais dependente da descarga de dopamina provocada por cada nova notificação. Publicou milhares de selfies utilizando os filtros de beleza das plataformas para afinar o nariz, aumentar os olhos e suavizar a pele. Criou 15 contas diferentes no Instagram para curtir e comentar as próprias publicações. Também deixou de cumprir tarefas domésticas, incluindo dar os remédios do cachorro. Já não tinha amigos. Quando Karen confiscava seu celular, Kaley gritava e revirava o quarto da mãe em busca do aparelho. Karen tentou impor limites, como estabelecer um horário para desligar o celular à noite. Kaley deixava o telefone sobre a bancada da cozinha às 21h, conforme combinado, mas esperava a mãe dormir, saía na ponta dos pés, ainda de pijama, recuperava o aparelho e permanecia conectada durante toda a madrugada. Em 2022, quando tinha 16 anos, Kaley chegava a passar até 16 horas por dia no Instagram — deslizar, tocar, vibrar; deslizar, tocar, vibrar. Ela se recusava a atravessar pontes em parques por medo de que o celular escapasse de suas mãos e caísse na água. Também passou a odiar a própria aparência e começou a se automutilar. Naquele verão, Karen Glenn assistiu a uma reportagem do programa 60 Minutes sobre o impacto das redes sociais no aumento dos casos de transtornos alimentares entre adolescentes. A matéria trazia o depoimento de um advogado do Social Media Victims Law Center. Anos antes, Karen havia visto Keanna definhar. A filha estava melhor naquele momento, mas houve noites em que ela permanecia acordada, perguntando-se se Keanna ainda estaria viva na manhã seguinte. Foi então que Karen entrou em contato com o escritório de advocacia. Enquanto preenchia a ficha inicial do processo de Keanna, percebeu que a banca também buscava clientes com transtorno dismórfico corporal — condição em que a pessoa desenvolve uma preocupação obsessiva com supostos defeitos na própria aparência. Karen informou aos advogados que precisava preencher uma segunda ficha, desta vez para Kaley. As ações judiciais das duas irmãs foram protocoladas em julho de 2023 e incorporadas a um grande litígio coletivo que se expandia pelo sistema de Justiça dos Estados Unidos. Após o ajuizamento de uma ação desse tipo, inicia-se um amplo processo de troca de informações entre as partes, expondo tanto aspectos íntimos da vida dos autores quanto o funcionamento interno das empresas envolvidas. Tese jurídica inovadora Nos dois anos seguintes, a equipe jurídica de Kaley e Keanna reuniu milhares de páginas de prontuários médicos, registros de sessões de terapia e aconselhamento psicológico, além de extrair dados de todos os dispositivos eletrônicos utilizados pelas duas para reconstruir seu histórico nas redes sociais — cada publicação, comentário, curtida, mensagem e fotografia. Somente no caso de Kaley, os advogados analisaram 16 dispositivos e 64 contas diferentes, reunindo 74 gigabytes de dados. Todo esse material foi entregue à defesa das empresas processadas. Em 2024, a juíza Carolyn Kuhl já supervisionava havia dois anos os processos sobre dependência de redes sociais reunidos em sua corte. O litígio havia crescido para mais de 2.000 ações de indenização por danos pessoais contra o Instagram e o Facebook, da Meta; o YouTube, do Google; o Snapchat, da Snap; e o TikTok, da ByteDance. Paralelamente, centenas de distritos escolares e dezenas de procuradores-gerais estaduais também haviam processado as plataformas na Justiça Federal. A ofensiva judicial passou a ser descrita como o "momento Big Tobacco" das redes sociais, em referência às ações históricas contra a indústria do tabaco, com um potencial de centenas de bilhões de dólares em indenizações. O que tornava esses processos especialmente ameaçadores era o fato de contornarem a proteção conferida pela Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações, dispositivo que normalmente isenta as plataformas de responsabilidade pelo conteúdo publicado por seus usuários. As ações sustentavam que crianças e adolescentes não se tornavam dependentes das redes sociais por causa do conteúdo em si, mas porque as empresas projetavam deliberadamente seus produtos para mantê-los conectados pelo maior tempo possível. Essa tese jurídica inovadora abriu, pela primeira vez, a possibilidade de responsabilizar as plataformas pelo próprio desenho de seus serviços. Os processos foram reunidos em um litígio coletivo do tipo mass tort . Diferentemente de uma ação coletiva (class action), na qual todos os autores integram um único processo, este tipo de litígio preserva cada ação de forma individual e utiliza os chamados bellwether trials — julgamentos de casos representativos — para orientar negociações de acordo nos demais processos. Kuhl selecionou aleatoriamente 24 ações para servirem como casos-piloto. Entre elas estava K.G.M. versus Meta et al. Interrogatório revirou sua privacidade desde os 12 anos Quando o advogado de Kaley telefonou para informar que seu processo havia sido escolhido como um dos casos-piloto, ela não soube como reagir. Nunca tinha ouvido falar do termo bellwether. Um mês depois, o mesmo advogado ligou novamente para avisar que ela precisaria prestar depoimento formal antes do julgamento. Naquele momento, Kaley estava sentada em seu velho Volvo, estacionado na entrada da casa da mãe, navegando nas redes sociais. Havia chegado uma hora antes, mas estava tão absorvida rolando o feed que ainda nem tinha entrado em casa. Ao receber a notícia, caiu em lágrimas. Percebeu que haveria um julgamento — e que ela seria provavelmente a figura central do caso. Lembra de ter pensado: "Eu não quero fazer isso". Pela primeira vez, passou a temer tudo aquilo que antes não a preocupava: a invasão de sua privacidade, o impacto que o processo teria sobre sua mãe e a necessidade de testemunhar diante do tribunal. Ela prestou depoimento em fevereiro de 2025, no hotel DoubleTree by Hilton Chico. Sete advogados estavam na sala. Outras dezessete pessoas acompanhavam pelo Zoom. Seu depoimento começou às 9h e durou mais de 10 horas. 'O que fizeram ela passar foi devastador' Os advogados lhe perguntaram: "Você tem problemas relacionados ao abandono?" "Você disse à sua mãe que sua professora da terceira série a xingava?" "Você já dependeu da Keanna para fazer coisas por vocês duas, como conversar com pessoas ou fazer amigos?" "Você já enviou fotos explícitas em alguma rede social?" "Você fez simulações com seu terapeuta sobre como iniciar conversas com amigos no ensino médio?" "Você já acessou conteúdo pornográfico online?" Eles mencionaram coisas constrangedoras que ela havia escrito no aplicativo de Notas do iPhone quando tinha 12 anos; anotações do terapeuta que ela nunca tinha visto antes; e postagens em redes sociais que ela havia esquecido de fazer, como "minha mãe é totalmente louca". Para Kaley, o interrogatório pareceu cruel. Durante o intervalo para o almoço, ela se trancou em uma cabine do banheiro e, em vez de ficar navegando no celular, chorou. Após o depoimento, ela disse à mãe que queria desistir do processo. — O que fizeram ela passar foi devastador — disse Karen. Ela conta que disse à filha: "Você tem a chance de ser a pessoa que defende milhões de crianças. É um fardo pesado, mas que honra. Se você puder ser corajosa só por mais um pouco..." Então, disse a Kaley: "Não me importo com o que dizem sobre mim. Vão escrever sobre você em livros de direito. Você ficará para sempre associada a uma mudança importante". Nove meses depois, Kaley recebeu outra ligação de seu advogado. Dos 24 processos-piloto (bellwether cases), restava apenas um: o dela. Na época, Kaley cursava Comunicação no Butte College e trabalhava como personal shopper no Walmart. Ela tinha sentimentos contraditórios em relação ao julgamento. Ainda temia perder o acesso às suas contas nas redes sociais. Mas também havia desenvolvido algo novo: um sentimento de desafiar algo e resistir. No fim de janeiro, dirigiu até Los Angeles e se instalou em um AirBnb a cerca de 1,5 quilômetro do fórum, acompanhada de seu chihuahua, Mickey. Durante a seleção dos jurados, seus advogados a levaram para comprar roupas na Zara. Segundo Kaley, eram roupas com “cara de advogada” — um estilo que ela não estava acostumada a usar e do qual nem gostava. No dia das alegações de abertura, ela quase desmaiou ao passar pelas equipes de televisão reunidas do lado de fora do tribunal. Até então, só conhecia tribunais pelas séries da Netflix e se surpreendeu ao descobrir que a sala de audiência era pequena e intimista, dando a impressão de que quase era possível tocar o juiz. De cabeça baixa, Kaley ocupou o assento reservado a ela. Sua defesa era conduzida por Mark Lanier, um renomado advogado do Texas, contratado pelos diversos escritórios que representavam os autores das ações contra as plataformas. Diante dos jurados, Lanier a apresentou: — Senhora Kaley, poderia, por favor, ficar de pé para que todos possam vê-la? Ela sentiu o rosto arder de vergonha. "Não estrague tudo. Faça parecer que você não está tremendo", repetia para si mesma. — Vocês terão a oportunidade de ouvi-la quando ela prestar depoimento — disse Lanier aos jurados. — Mas, por enquanto, peço que ela permaneça fora da sala enquanto conversamos sobre sua vida e sobre tudo o que aconteceu. Depois disso, Kaley voltou para o AirBnb e pediu uma pizza de queijo. Em sua exposição inicial, Lanier resumiu o caso dizendo que ele era "tão simples quanto o ABC: o vício imposto ao cérebro das crianças". Citou documentos internos segundo os quais o objetivo do YouTube "não é audiência, mas criar dependência dos espectadores" e, no caso da Meta, uma apresentação afirmando: "Se quisermos conquistar os adolescentes, precisamos atraí-los ainda na pré-adolescência." A defesa, por sua vez, destacou os "conflitos familiares" de Kaley e questionou se as redes sociais haviam realmente desempenhado um "papel substancial" em seus problemas de saúde mental. — Se YouTube e Instagram nunca tivessem existido, mas o restante da vida dela fosse exatamente igual, ela ainda teria enfrentado os mesmos problemas psicológicos? — argumentaram os advogados. Durante o julgamento, Kaley passou a maioria dos dias passeando por Los Angeles e navegando nas redes sociais. Tentava evitar notícias sobre o processo, embora nem sempre conseguisse. Não gostava de ler reportagens que resumiam toda a sua vida em uma única frase nem dos comentários de leitores que atribuíam seus problemas de saúde mental à mãe. A única testemunha que ela fez questão de voltar ao tribunal para acompanhar foi o diretor-presidente da Meta, Mark Zuckerberg. Naquele dia, uma fila se formou do lado de fora do fórum para disputar os poucos lugares disponíveis na plateia. Kaley lembra que estava passando pela segurança, quando viu uma multidão abrir caminho para Zuckerberg, cercado por seguranças e câmeras. Mark Zuckerberg deixa o tribunal após depor no caso de Kaley — Foto: Getty Images via AFP No banco das testemunhas, ele lhe pareceu desinteressado. — Parecia quase incomodado por ter de estar ali — recorda. — Também achei que ele era bastante desajeitado, o que me surpreendeu, considerando o poder que ele tem. Uma semana depois, chegou a vez de Kaley depor. Tantas pessoas lhe disseram para não ficar nervosa que ela acabou ficando ainda mais ansiosa. Acordou às 3h50 da manhã para se arrumar. Queria uma maquiagem discreta, sem exageros; um penteado organizado, mas sem aparência de produção sofisticada. Passou o ferro em cada dobra do vestido floral, de corte conservador, aprovado por sua equipe jurídica. Antes de sair, enviou uma mensagem para a mãe: "Tem algum jeito de eu não ir hoje? Não vou conseguir. Estou literalmente exausta. Vou chorar e responder tudo errado." Enquanto caminhava até o banco das testemunhas, prestava atenção em cada detalhe: o jeito de andar, a postura, a expressão do rosto, a posição das mãos. Quando finalmente se sentou, seu corpo inteiro tremia. Lanier começou perguntando se ela estava nervosa. — Sim. Muito nervosa. Em seguida, conduziu os jurados por sua infância, exibindo fotografias de festas de aniversário e cartões que ela havia escrito para a mãe no Dia das Mães. Perguntou se era justo dizer que a relação entre as duas nem sempre havia sido boa. — Sim. Hoje, olhando para trás, sua mãe fez o melhor que podia? — Sim, fez. Você também dava trabalho? — Com certeza. A maioria das discussões entre vocês era por causa do celular? — Sim. Lanier então perguntou por que ela criava perfis falsos no Instagram para curtir as próprias publicações. — Porque isso fazia parecer que eu era popular. Por que usava filtros de beleza? — Porque me fazia sentir mais bonita. Quando ficava sem o celular, sentia falta dele? — Sim. Por que queria recuperá-lo? — Porque, sem ele, parecia que uma parte enorme de mim estava faltando. Você ainda sofre de distorção da imagem corporal? — perguntou o advogado. — Acho que não mais. Mesmo? Quanto tempo você levou para se arrumar hoje de manhã? — Quatro horas. No contra-interrogatório, os advogados da defesa perguntaram o quanto ela ficava triste quando o pai cancelava visitas ou o quanto se magoava quando a mãe passava dias sem falar com ela. Também exibiram vídeos gravados secretamente por Kaley, nos quais a mãe aparecia gritando com ela, além de publicações em que acusava a mãe de negligência. Kaley afirmou que aquelas postagens eram exageradas para chamar atenção. — Eu sabia que, se publicasse algo assim, receberia mais curtidas e comentários. Em diversas ocasiões, a defesa apontou que suas respostas divergiam das dadas durante o depoimento anterior. Em determinado momento, perguntaram se ela já havia dito a uma terapeuta que movera a ação judicial por dinheiro. — Não me lembro de ter dito isso — respondeu. Seu depoimento durou dois dias. Já perto do fim, Lanier perguntou quem havia sido seu melhor amigo na escola primária. — Meu celular. O advogado pareceu surpreso. — Certo... Antes de você ter um celular, quem era seu melhor amigo? — Minha irmã. O júri levou nove dias para chegar a um veredicto. Quando a decisão foi lida, Kaley teve a sensação de que todos na sala do tribunal estavam olhando para ela, julgando-a. Os jurados precisaram responder a 14 questões centrais sobre a responsabilidade das empresas. Em todas elas, decidiram a favor da autora da ação. Também fixaram uma indenização de US$ 6 milhões, atribuindo 70% da responsabilidade pelos danos sofridos por Kaley à Meta e os outros 30% ao YouTube, do Google. O Google se recusou a comentar esta reportagem. A Meta informou que não faria declarações além da nota divulgada após o julgamento: "Respeitosamente, discordamos do veredicto e vamos recorrer. A saúde mental dos adolescentes é extremamente complexa e não pode ser atribuída a um único aplicativo. Continuaremos a nos defender de forma vigorosa, pois cada caso é diferente, e seguimos confiantes em nosso histórico de proteção aos adolescentes no ambiente on-line." Para Kaley, o veredicto significou que "o júri me ouviu e acreditou em mim". Poucas horas depois do fim do julgamento, ela colocou Mickey no carro e dirigiu durante sete horas até voltar para casa, em Chico. O processo de Kaley foi o primeiro a ir a julgamento, mas milhares de outros autores ainda aguardam sua vez nos tribunais, entre eles sua irmã, Keanna. O próximo julgamento relacionado ao suposto vício em redes sociais está previsto para começar ainda este mês. Kaley diz que não pretende acompanhar. Ela afirma que enfrentar o julgamento foi a experiência mais difícil de sua vida — e acredita que continuará sendo. — Quando olho para a minha vida, esta será uma das coisas das quais mais vou me orgulhar — diz. — Eu não mudaria absolutamente nada. Segundo ela, sua esperança era que houvesse justiça e que "as plataformas se tornassem menos viciantes, para que outras pessoas não desperdicem suas vidas presas ao celular". O caso de Kaley teve repercussões muito além da sala de audiência. As provas reveladas durante o julgamento já foram discutidas em audiências no Congresso dos Estados Unidos, citadas em debates legislativos estaduais e chegaram até a influenciar a decisão do governo britânico de proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. Até hoje, Kaley não consegue parar de deslizar a tela do celular Três semanas antes do anúncio da nova legislação, um dos advogados de Kaley entregou pessoalmente, na residência oficial do primeiro-ministro britânico, em Downing Street nº 10, um dossiê com os documentos internos mais comprometedores apresentados no julgamento. Dois meses após o fim do processo, Kaley se mudou para uma casa alugada de dois quartos, a apenas cinco minutos de carro da residência da mãe. O pequeno bangalô azul-escuro lhe proporciona a independência que tanto desejava, mas continua perto o suficiente para ligar para a mãe à meia-noite e pedir que vá até lá matar uma aranha — algo que, segundo ela, já aconteceu. Na maioria das noites, Kaley se senta no sofá da nova casa e passa horas navegando pelas redes sociais no escuro, iluminada apenas pela luz da tela do celular. A ironia não lhe escapa: ela foi a primeira autora do processo que inaugurou a onda de ações judiciais sobre dependência de redes sociais e, ainda assim, não consegue parar de deslizar a tela. Ela tentou mudar esse hábito. Depois do julgamento, comprou uma televisão de tela grande e um livro, "All We Lost Was Everything". O livro continua fechado, no fundo do armário. A televisão jamais foi ligada. — Mesmo agora, mesmo depois do processo, eu continuo viciada. Continuo desperdiçando a minha vida rolando a tela do celular — afirma.
Ela enfrentou as redes sociais, e venceu. Kaley Glenn-Mills conta sua história
Justiça determinou que Instagram e YouTube agiram deliberadamente para viciar a jovem, em ação que criou precedente nos EUA e motivou restrições em todo o mundo. Ela tinha 17 anos e só agora revelou sua identidade










