Apurações apontam que o grupo utilizava um sistema estruturado para movimentar recursos por meio de transferências ilícitas de criptoativos e transporte de valores 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 PF faz operação que mira sancionada pelos EUA — Foto: Divulgação/PF RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 22:38 PF Desmonta Esquema de Lavagem do PCC Após Sanções dos EUA A Polícia Federal (PF) realizou uma operação contra um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC após sanções dos EUA a brasileiros envolvidos. Victor Shimada, apontado como líder e foragido, movimentava mais de R$ 10 bilhões em criptoativos e dinheiro. As sanções americanas teriam precipitado a operação, dificultando a captura de Shimada. Stella Oliveira, associada ao esquema, foi presa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Dois dias após os Estados Unidos anunciarem a aplicação de sanções contra dois brasileiros acusados de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a Polícia Federal (PF) realizou, ontem, uma operação que tinha a mesma dupla entre os alvos principais. Segundo a corporação, o grupo já era investigado, mas a ação precisou ser antecipada em virtude da medida aplicada pelos EUA. Apontado como o cabeça de um vasto ecossistema de lavagem de dinheiro, Victor Henrique de Oliveira Shimada não foi encontrado pelos agentes e é considerado foragido. Como mostrou o blog da colunista do GLOBO Miriam Leitão, a PF passou a realizar diligências para tentar localizar Shimada a partir de junho, quando a Justiça emitiu o mandado de prisão. A divulgação da punição por autoridades norte-americanas, no entanto, teria atrapalhado o planejamento dos investigadores, que precisaram adiantar a Operação Exchange para ontem. Nos bastidores, há o entendimento de que a sanção pode, inclusive, ter levado a uma fuga do suspeito, que não tem paradeiro conhecido desde então. Já a segunda sancionada pelo Departamento do Tesouro dos EUA, Stella Stefania Nunes Henrique de Oliveira, está entre os sete presos na ação de ontem. Apontada como uma espécie de secretária de Shimada, ela atuava, de acordo com as investigações, prestando apoio logístico às atividades do chefe, cumprindo ainda um papel de interlocutora do doleiro com outros integrantes da organização criminosa e ficando responsável pela gestão de operações financeiras. Victor Shimada, sancionado pelos EUA por suposto elo com o PCC — Foto: Reprodução As investigações apontam que o grupo utilizava um sistema estruturado para movimentar recursos por meio de transferências ilícitas de criptoativos, transporte de valores — inclusive em espécie —, operações bancárias de alto valor, repasses entre pessoas físicas e jurídicas e outras transações. De acordo com a PF, uma análise preliminar identificou movimentações superiores a R$ 10 bilhões. Os envolvidos poderão responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros crimes. Horas depois de os agentes irem às ruas, o diretor da PF, Andrei Rodrigues, falou abertamente sobre os impactos da sanção aplicada pelos EUA na investigação: — De fato, se não houvesse essa designação, talvez o desfecho fosse outro, talvez tivéssemos localizado essa pessoa (Shimada) e, infelizmente, não localizamos. Então, houve um prejuízo. A PF também sustenta que não houve troca de informações entre os dois países. Diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção do órgão, Dennis Cali reforçou que Shimada, descrito no inquérito como um “doleiro moderno”, já era alvo da PF desde antes da medida americana. Segundo Cali, a representação contra os alvos e as medidas cautelares autorizadas pela Justiça são anteriores até mesmo ao decreto da gestão Trump que equiparou o PCC e o Comando Vermelho (CV) a grupos terroristas. — Há uma investigação em curso nos Estados Unidos e outra no Brasil. Em razão dessa publicação, tivemos que adiantar e deflagrar a operação hoje — resumiu. Sequestro de R$ 10 bilhões Os 11 mandados de prisão e 13 de busca e apreensão foram expedidos pela 7ª Vara Federal Criminal de São Paulo, que determinou ainda o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o montante total de R$ 10,4 bilhões. Os 50 agentes atuaram nos municípios paulistas de São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. Segundo a decisão judicial, a quadrilha prestaria serviço a quem precisasse ocultar a origem de valores ilícitos, não somente ao PCC. O grupo atuou do comércio de haxixe a um desvio bancário de R$ 206 milhões, passando pelo contrabando de alho argentino e por um suposto repasse de propina a um ex-delegado da cúpula da segurança pública paulista. Além de Stella, foram presos o empresário João Gilberto Codognotto, o Giba, do setor cafeeiro de Minas Gerais, que seria incumbido de intermediar remessas de alto valor ao exterior diretamente com Shimada, e Paulo Roberto Macedo, o Urso, que usava uma empresa na Zona Leste de São Paulo para movimentar grandes quantias de dinheiro e teria a função de transportar e guardar recursos em espécie. Já Leandro de Proença teria função similar mediante o uso de criptoativos, enquanto o contador Jefferson Costa de Britis é acusado de prestar serviços a empresas ligadas ao esquema. Por fim, estão detidos Carlos Henrique Costa Almeida, responsável por receber dinheiro do esquema na Europa, e Gabriel Innocente, suposto traficante de drogas especializado em haxixe. Ygor Fokin Saviolli, já preso nos EUA desde janeiro, era outro dos alvos da ação da PF. Também investigados, Diego Lameiro Dize, suspeito de importar alho ilegalmente da Argentina, e Romany Cutolo Bonente, advogado que seria um “intermediário de alto nível” de Shimada, são considerados foragidos, assim como o próprio chefe do esquema. A defesa de Shimada sustenta que “ainda não dispõe de acesso às decisões judiciais nem aos elementos que fundamentaram as medidas adotadas” e que, por isso, “qualquer manifestação sobre os fatos ou sobre o objeto da investigação seria precipitada”. Os demais advogados não foram localizados ou não se posicionaram até o fechamento desta edição. Celular apreendido Shimada apareceu no radar dos EUA após um esquema de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas vir à tona. O grupo, que envolvia brasileiros residentes na Flórida, lavou cerca de US$ 30 milhões, o equivalente a R$ 155 milhões, segundo o Departamento de Justiça dos EUA. Até o momento, seis envolvidos, sendo cinco de nacionalidade brasileira, confessaram os crimes e admitiram fazer parte das atividades ilegais, que teriam Shimada como liderança. O caso chegou ao conhecimento das autoridades americanas após a apreensão do celular de Ygor Fokin Saviolli no Aeroporto de Fort Lauderdale, em 2023. No aparelho, foram encontrados fotos e vídeos de grandes quantidades de dinheiro e mensagens que sugeriam a prática dos crimes. Em janeiro, ele e outros três brasileiros foram presos na Flórida após a investigação do FBI detectar o esquema. Apesar de o Departamento do Tesouro afirmar, na última quarta-feira, que Shimada e Stella funcionariam como um “elo” com o PCC, os documentos do processo que corre na Justiça da Flórida não fazem menções a organizações criminosas brasileiras. De acordo com os autos, o esquema beneficiava o mexicano Manuel Garcia-Urrea, o Manny, um fornecedor de drogas. Na confissão, Saviolli admitiu ter supervisionado “o recebimento e a lavagem de dinheiro em espécie proveniente da venda de substâncias controladas”.