Como Governador Valadares se tornou o epicentro da emigração de brasileiros para os EUA?Surgimento da cultura emigratória passa por uma estrada de ferro, a exportação de minérios para armamentos e a 2º Guerra Mundial. Gerando resumoNo pedestal da Estátua da Liberdade, o soneto Novo Colosso de Emma Lazarus descreve como a “Mãe dos Exilados” acolhe os “cansados, pobres e massas amontoadas ansiando por respirar livremente” através da “porta dourada”. As massas amontoadas são interpretadas como os imigrantes que chegavam pelo porto de Nova York e a porta dourada é a fronteira americana. PUBLICIDADEForjados sob o conceito de uma “nação de imigrantes”, 250 anos depois, os Estados Unidos vivem o oposto. Menos estrangeiros estão imigrando para o país e, ao mesmo tempo, os americanos estão emigrando em números recordes. Estudos projetam que os impactos na economia americana podem ser amplos, já que é a mão de obra imigrante é uma das razões do crescimento do PIB.Em janeiro de 2025, os Estados Unidos bateram o recorde de 53,3 milhões de imigrantes vivendo no país, segundo dados do Departamento de Censo analisados pelo Pew Research Center. O número corresponde a 15,8% da população americana. Mas, em junho daquele ano, uma nova análise do Pew Research Center identificou que o número havia caído para 51,9 milhões, o primeiro declínio desde a década de 1960.PublicidadeUm pedaço dos EUA no interior de Minas GeraisComo os mais de 60 anos de emigração transformaram a economia, a cultura e a demografia na região de Governador Valadares. Vários fatores explicam a queda. Em 2024, o governo de Joe Biden impulsionou restrições em pedidos de asilo após uma onda migratória atravessar a fronteira sul do país. Em menos de 100 dias no cargo, Donald Trump baixou mais de 180 decretos para conter a entrada de imigrantes e deportar pessoas em situação irregular. Seu primeiro ano foi pautado na política das deportações em massa. O governo Trump se vangloriou no fim de 2025 de ter deportado cerca de 2,5 milhões de imigrantes desde que retornou à Casa Branca, sem fornecer mais detalhes. A imprensa americana diz que os números estão inflados e o dado real pode ser entre 400 mil e 600 mil deportados. Além desses, mais de 2 milhões praticaram “autodeportação”, a saída voluntária de irregulares do país. Por fim, o número de travessias ilegais pela fronteira com o México está em seu menor nível desde 1970.PublicidadeMais saídas que entradasMas não só os imigrantes estão deixando o país. Cidadãos americanos emigraram em números recordes no último ano, buscando trabalho, estudos e construir família na Europa ou no México, segundo levantamento do The Wall Street Journal. Não há dados oficiais de emigrantes americanos.Ativistas da causa imigratória realizam um protesto contra a decisão da Suprema Corte dos EUA sobre o status de proteção temporária, em frente à sede da Corte, em 25 de junho de 2026, em Washington, DC Foto: Kevin Dietsch/Getty Images via AFPCom isso, mais pessoas saíram dos Estados Unidos do que entraram no último ano, segundo cálculo do Brookings Institute, um think tank americano de políticas públicas. O saldo de migração líquida – entradas menos saídas de migrantes – em 2025 pode girar em torno de -295 mil e -10 mil, estima o think tank. Seria a primeira vez que estes dados ficam em valores negativos desde a Grande Depressão. Para 2026, as estimativas mais pessimistas apontam para uma migração líquida de -925 mil. A instituição ressalta que sua projeção é mais negativa que os dados do governo. O Banco Mundial aponta uma queda na migração líquida do país, mas ainda em patamares positivos em mais de 1 milhão. Já o Escritório de Orçamento do Congresso projeta ao menos 400 mil imigrantes a mais que emigrantes. A diferença, aponta o instituto, se dá por inconsistência nos dados de deportados e imigrantes irregulares.Publicidade“Há americanos emigrando, e considero isso significativo porque, quando falamos de um país em termos de migração, raramente levamos em conta que ele também é um país que expulsa seus próprios nacionais”, afirma Soledad Álvarez Velasco, antropóloga e professora na University of Illinois Chicago.Há os aposentados que deixam os EUA porque o custo de vida aqui é muito alto; durante o governo Trump, milhares de americanos partiram para Europa ou México; por fim, cidadãos americanos filhos de imigrantes foram detidos e deportados. Portanto, há três facetas nesse êxodo que representa uma mudança incrível em 250 anos.Soledad Álvarez Velasco, antropóloga e professora na University of Illinois ChicagoUma economia menorA queda na população imigrante representa um futuro sombrio para os EUA, já que o crescimento da população do país é puxado tanto pela chegada de estrangeiros quanto pelo nascimento de filhos destes estrangeiros em solo americano. De acordo com o censo, a taxa de crescimento populacional de cidadãos nascidos no país está em seu patamar mais baixo na história, impulsionada pela queda da natalidade e envelhecimento. Isso é compensado pela chegada de imigrantes jovens e em idade ativa. Sem um alto índice de imigração, a população dos EUA entrará em declínio, projeta o censo.PublicidadeA migração ilegal como negócio em Governador ValadaresQuem são os mineiros que emigram para os EUA e como as redes de tráfico de pessoas lucram com o recrudescimento das políticas migratórias. Para manter uma taxa de crescimento saudável, os EUA precisariam que a chegada de imigrantes permanecesse semelhante aos números de 2022, quando houve o recorde de entradas após a pandemia. Caso contrário, a taxa de crescimento ficará negativa a partir de 2030.“Isso significa menos inovação, menos crescimento econômico, menos competitividade e menos investimento nos EUA, pois os capitalistas não vão investir em lugares onde não há trabalhadores e consumidores. Trata-se realmente de uma mudança drástica em relação ao passado, e acredito que os americanos sentirão as consequências disso”, avalia David Bier, diretor de estudos migratórios do Cato Institute, um think tank americano de orientação liberal.Bier conduziu um estudo sobre o impacto da imigração no orçamento federal do país e concluiu que sem os imigrantes os EUA teriam uma dívida pública muito maior e o crescimento econômico encolheria. PublicidadeNos últimos 30 anos, os imigrantes reduziram o déficit – direta ou indiretamente – em US$ 14,5 trilhões. Portanto, se somássemos esse valor à nossa dívida pública total, a dívida chegaria a quase 200% do PIB. Estaríamos à beira de uma crise fiscal.David Bier, diretor de estudos migratórios do Cato InstituteIsso porque os imigrantes tendem a pagar mais impostos e utilizar menos serviços e benefícios do governo em retorno. “Se partirmos do princípio básico de que, quando as pessoas vêm e trabalham, isso gera receita tributária para o governo – e os imigrantes trabalham em taxas muito mais elevadas do que a população nascida nos EUA –, então isso significa que eles geram mais receita tributária por pessoa do que a média dos nascidos no país.”Grande parte dos gastos sociais do governo americano vão para aposentadoria, serviço social, educação, saúde, entre outros benefícios, que são subutilizados por imigrantes, especialmente os sem documentos. Com isso, os imigrantes geraram quase US$ 10,6 trilhões a mais em impostos do que o valor total que contribuíram para os gastos do governo, estima o estudo.“Analisando de forma restrita o cenário atual, especificamente o impacto dos imigrantes nos orçamentos públicos, eles geram mais receita tributária do que a média e geram menos custos do que a média, o que contribui para reduzir o déficit dos EUA”, conclui Bier.PublicidadeUm grupo de imigrantes participa de uma coletiva de imprensa realizada pela Mississippi Immigrants Rights Alliance sobre propostas legislativas que afetam imigrantes e migrantes no Mississippi Foto: Rogelio V. Solis/APEm linha com os estudos de Bier, o Brookings Institute acrescenta que a queda da força de trabalho e do consumo sem a imigração pode afetar em -0,3 pontos percentuais o crescimento do PIB americano.A imigração como pilar da sociedade americanaO slogan da “nação de imigrantes” - título de um livro de John F. Kennedy - tem raízes históricas e foi um dos pilares do chamado sonho americano. Desde o princípio, a colônia e depois o país passou por diversas grandes ondas migratórias, de europeus, asiáticos e latino-americanos. Além dos milhares de africanos que foram levados à jovem nação a força para serem escravos.Como colônia do Reino Unido, o Novo Mundo recebeu pessoas do Velho Continente. Primeiro os britânicos, alemães e holandeses foram para a “América Britânica” em 1775 para cultivar fazendas em meio a temporadas de péssima colheitas na Europa. Peregrinos britânicos também se mudaram em busca de liberdade religiosa.PublicidadeIrlandeses fugindo da grande fome, prisioneiros enviados para construir a colônia e alemães contribuíram para a expansão para o oeste no século 19. Depois, italianos, poloneses e judeus do leste europeu contribuíram para o avanço industrial do país. É o fim do sonho americano?Donald Trump volta aos EUA com uma promessa: deportar milhões de imigrantes dos EUA. No século 20, houve a migração mexicana impulsionada pelo projeto “Braceros” (Braçal, em tradução livre) que incentivou a ida de produtores rurais mexicanos em um contexto de falta de trabalhadores no período de guerras. Este é considerado o pontapé inicial para a migração latino-americana ao país, até hoje a maior.“O país tem sido moldado pela migração. Em um sentido muito real, seria impossível compreendê-lo sem a chegada de pessoas de todas as partes do mundo. Não se trata apenas de uma idealização, mas de uma realidade histórica”, afirma Soledad Álvarez Velasco.PublicidadeOs EUA promoveram com sucesso a ideia de si mesmos como um país de imigrantes. Esse conceito serviu como um elemento político, cultural e econômico na ascensão da nação à hegemonia global. O fato de haver tantas pessoas desesperadas para vir para cá reforça essa construção hegemônica; posicionar-se dessa maneira é altamente benéfico para o país, pois proporciona uma oferta inesgotável de mão de obra explorável para sustentar sua economia. Soledad Álvarez Velasco, antropóloga e professora na University of Illinois ChicagoA imigração atravessa a história dos EUA na mesma medida que as restrições a ela. Já na fundação do país, George Washington assinou a Naturalization Act de 1790, que determinou que apenas “pessoas brancas livres” e de “bom caráter” poderiam ser cidadãs. Oito anos depois, a Alien and Sedition Acts permitiu deportar pessoas consideradas perigosas, um decreto que é evocado por Trump hoje.Em 1882, o Congresso aprovou a Lei de Exclusão Chinesa, considerada a primeira legislação que restringia a migração por critério racial. Milhares de chineses haviam migrado para os EUA no início da corrida do ouro na Califórnia. Em meio a uma crise econômica dos anos 1870, americanos e imigrantes passaram a competir pelos empregos destinados aos chineses. Neste contexto que nasceu a legislação que praticamente acabaria com a imigração chinesa por quase um século. Depois, a lei foi expandida para toda a Ásia.PublicidadeDepois dos atentados do 11 de setembro, a imigração se tornou uma questão de segurança nacional. “É um sistema de migração que, ciclicamente, abre as portas para a chegada da mão de obra necessária e, depois, as fecha. Abre e fecha, abre e fecha”, afirma Soledad Álvarez Velasco.“Não se pode compreender a construção deste Estado sem entender que sua própria natureza é excludente. Ele precisa sempre excluir para existir; embora a população-alvo dessa exclusão possa mudar dependendo do momento histórico, a exclusão em si persiste”, completa.