Memorando dos Serviços de Imigração e Alfândega americanos estabeleceram que ajustes no status migratório poderão ter de ser feitos a partir do país de origem, medida que afeta diferentes perfis de migrantes Passageiros no Aeroporto Nacional Ronald Reagan de Washington em 7 de maio de 2026. — Foto: Graeme Sloan/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 31/05/2026 - 17:34 Nova Regra dos EUA Impõe Solicitação de Green Card Fora do País e Gera Incertezas para Brasileiros Nova regra migratória dos EUA exige que estrangeiros solicitem o green card a partir de seus países de origem, gerando incerteza para brasileiros. O memorando do USCIS, parte da política anti-imigração do governo Trump, aumenta o rigor e pode prolongar prazos de espera, afetando quem busca residência permanente. Advogados alertam para impactos em famílias e possíveis brechas legais para contestação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Empresário experiente no ramo da construção civil, José* (nome fictício) viu o sonho de viver nos EUA frustrado ao ter rejeitado o pedido de Green Card — como é popularmente chamado o documento de residência permanente no país. Com quase 50 anos de idade e duas décadas de atuação profissional no setor, o brasileiro decidiu insistir no plano, avaliando que a mudança de país seria a melhor forma de conciliar os objetivos de encontrar maior segurança, estabilidade e qualidade de vida para os filhos. A fim de ampliar a chance de sucesso, ele entrou com o processo para obter um visto EB-5 — uma das categorias mais difíceis de se conseguir, que tem como exigência um investimento superior a US$ 800 mil (mais de R$ 4 milhões no câmbio atual) em território americano. O empresário pretendia se mudar para os EUA agora em junho, com um visto temporário, e solicitar o ajuste do status legal já no país. No entanto, a obrigatoriedade — anunciada pelo governo em memorando há pouco mais de uma semana — de que a espera pela tramitação do processo seja feita fora do território americano tornou a prática costumeira para famílias migrantes de todo o mundo um risco, forçando uma mudança de planos em cima da hora. Na sexta-feira, as autoridades explicaram melhor o alcance da iniciativa, recuando da formulação inicial de que todos os postulantes a um Green Card deveriam aguardar fora dos EUA a emissão do documento e indicaram que a regra será aplicada caso a caso. De acordo com um comunicado emitido pelo Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), grupos que podem ser afetados pela medida incluem pessoas que permaneceram nos EUA após o vencimento do visto e cidadãos de países cujos nacionais recorrem com frequência a programas de assistência pública. — Fomos surpreendidos pelas novas sinalizações do USCIS [sigla em inglês para Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA] e pelo aumento do rigor percebido em diferentes processos migratórios — afirmou José, que aceitou compartilhar seu depoimento com O GLOBO sob a condição de ter a identidade preservada. — Diante do novo cenário, o escritório responsável pelo nosso caso passou a alertar sobre possíveis riscos, inseguranças e impactos relacionados à mudança de status. Tomamos a difícil decisão de cancelar temporariamente nossos planos de mudança até entendermos melhor como essas alterações serão aplicadas na prática. O USCIS é um órgão subordinado ao Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS). Mesmo com o recuo na obrigatoriedade generalizada de trâmite fora do país e sua substituição por uma a avaliação caso a caso, o estabelecimento de “circunstâncias extraordinárias” para pedir o documento em território americano deixa muito espaço à discricionariedade de agentes individuais, aumentando a insegurança dos solicitantes. Especialistas em direito imigratório ouvidos pelo GLOBO afirmam que o memorando aumenta o rigor no procedimento, o que pode dilatar prazos de espera já longos e fechar o cerco a práticas que ajudavam migrantes em situação regular a superar dificuldades impostas pela burocracia — e migrantes em situação irregular a normalizarem seus status. — Costumeiramente, pessoas que tinham os requisitos para o Green Card vinham e pediam a mudança de status daqui. Pessoas com família americana, pais e filhos ou cônjuges, por exemplo, costumavam vir com vistos para turismo ou negócios e solicitar a mudança — explicou o advogado André Linhares, que atua há 13 anos na área e preside o LIDE Orlando. — O que o memorando coloca é que, a partir de agora, não será negativo apenas ficar sem status no país (caso de quem entrou de forma irregular), mas o desrespeito ao "status presente". Entrar como turista e pedir o Green Card, teoricamente, pode implicar que a pessoa já entrou no país com uma pré-intenção de ficar. Incerteza e demora Ainda não há como mensurar o impacto da regra recém-publicada. O aumento do escrutínio e o fato do USCIS não ter estabelecido uma lista detalhada de casos que serão aprovados e rejeitados, bem como a extensão da medida — se afeta ou não processamentos já submetidos — preocupam juristas que acompanham solicitações de clientes. Segundo o New York Times, vários profissionais relataram que alguns de seus clientes já foram questionados por agentes do USCIS durante entrevistas realizadas nesta semana sobre os motivos de terem solicitado o Green Card dentro dos EUA e se havia algum impedimento para que o pedido fosse feito em seus países de origem. — Eu estou atuando há quase 15 anos com direito de imigração como advogado licenciado nos EUA e nunca vi nada tão rigoroso quanto esse governo Donald Trump. Existe uma política de combate à imigração irregular e combate à fraude, mas também há uma política voltada à imigração como um todo — avaliou Linhares. O advogado citou o caso de um casal brasileiro que está acompanhando, em que o marido já possui a residência permanente por trabalhar nos EUA. Eles entraram com um processo para que o vínculo seja reconhecido pelas autoridades americanas e a permissão seja estendida à esposa, mas a média de espera para esse procedimento específico, segundo o próprio site do USCIS, é de 139 meses (mais de 11 anos). A alternativa de viverem em situação regular a partir de um status temporário, porém, se tornou um risco. — Essas são as injustiças que vão ser geradas. Com essa nova regra, ela não vai poder mais entrar aqui com visto de turista, por exemplo, e pedir o ajuste de status — disse o advogado. — Ou seja, é uma medida que vai fazer com que esta família continue separada porque o governo não consegue resolver um processo imigratório. Captura de tela realizada na sexta-feira, 29, mostra tempo de espera médio de 139 meses para processamento de petição para concessão de 'green card' a esposa de residente permanente não-americano — Foto: Reprodução/USCIS Ainda mais vulneráveis Se a situação cria estabilidade para quem tem acesso a meios legais e econômicos para enfrentar a burocracia e se apoia em pedidos vinculados a trabalho e investimentos, aqueles que buscam direito de residência permanente a partir de posições mais frágeis temem ficar ainda mais expostos a represálias. É o caso de migrantes que entraram no país de forma irregular, permanecem vivendo sem status legal definido, mas buscam o reconhecimento de residência permanente por meio de filhos nascidos em território americano ou pelo casamento com cidadãos americanos. A exigência do governo Trump de que os pedidos sejam feitos a partir dos países de origem pode forçar o retorno dessas pessoas para locais com os quais não possuem vínculo há décadas, separar famílias e sujeitá-las a possíveis proibições de regressar ao país. Fontes americanas citaram a norma do USCIS como uma medida dentro da agenda anti-imigração do governo. Um ex-funcionário de imigração do Departamento de Justiça no governo Barack Obama ouvido pela Bloomberg classificou como uma alternativa de Trump para manter a repressão caso a tentativa de por fim à nacionalidade por nascimento ser brecada na Justiça. Para o advogado especializado em direito internacional e imigração empresarial nos EUA, Daniel Toledo, o memorando abre brechas para questionamentos em tribunais constitucionais americanos. — Já estão ocorrendo esses questionamentos constitucionais ao memorando. A própria associação de advogados de imigração (AILA, na sigla em inglês) está entrando com dois recursos, e escritórios estão entrando por conta própria, demonstrando que nunca houve intenção do Poder Legislativo de regulamentar esse tipo de situação em relação com o ajuste de status — afirmou Toledo. Para quem construiu a vida em território americano sem o status de residência permanente, como o empresário Antônio* (nome fictício), de 51 anos, a instabilidade provocada afeta decisivamente os planos para o futuro. — Estou nos EUA há quase quatro anos e construí parte dos meus negócios no mercado imobiliário da Flórida acreditando que conseguiria regularizar minha situação de forma definitiva — disse o empresário. — O mais difícil é perceber que, depois de investir tempo, dinheiro e planejar o futuro da família nos EUA, uma decisão que depende da interpretação de um agente pode mudar completamente os rumos da minha vida.
Nova regra migratória amplia incerteza para brasileiros que buscam 'green card' nos EUA
Memorando dos Serviços de Imigração e Alfândega americanos estabeleceram que ajustes no status migratório poderão ter de ser feitos a partir do país de origem, medida que afeta diferentes perfis de migrantes















