Uma coleção de faixas enxutas, quase todas dançantes, intercaladas como numa boa discotecagem: essa é a impressão geral sobre “Confessions II”, novo álbum da cantora Madonna, que chegou ao streaming no primeiro minuto desta sexta-feira. Disco com o qual a estrela se propõe a dar prosseguimento a “Confessions on a dance floor”, álbum de 2005 que provocou uma sacudida em sua carreira de mais de década de êxitos (e nem-tâo-êxitos-assim), ele põe Madonna de volta à pista de dança. Com 16 faixas, a seleção abre bastante espaço para manifestos sobre a necessidade de libertação e confissões sobre seu erros e acertos em 67 anos de vida. “I feel so free”. Uma Madonna androide canaliza a dobradinha Donna Summer-Giorgio Moroder de “I feel love” (1977) em faixa com gosto de house 1990 e sentimento 2020. As décadas se embaralham na pista de dança nessa introdução ao universo “Conessions II”. “Good for the soul”. Sensações de frio e calor em mais uma faixa produzida por Stuart Price, mas que remete à Madonna sob a orientação de William Orbit no álbum “Ray of light” (1998). Toques sutis de eurodance, ao fim, dão uma certa graça ao negócio. “One step away”. Numa sequência nonstop, a cantora chega a essa faixa que mergulha ainda mais na eurodance, com direito a manifesto: “As pessoas pensam que a música eletrônica é superficial, mas elas estão completamente enganadas.” Uma leveza Pet Shop Boys se faz notar no decurso da canção de toques levemente psicodélicos. “Bring your love”. Mixado como um set de DJ, o disco chega à sua primeira virada de mood: na voz achocolatada de Sabrina Carpenter, Madonna revê a si mesma nos anos 1980, alegre, amorosa, com um bom refrão, na faixa mais house até este ponto do disco (embora com uma atmosfera sombria pairando). “Danceteria”. Ainda no embalo house (com alguma boa infiltração de filter disco), a cantora encena suas memórias da Danceteria, boate onde começou a carreira em Nova York no início dos nos 1980. Num rap que lembra o que ela própria fez em “Vogue” (1990), Madonna faz desfilar os nomes dos que passaram por sua vida na casa (e ainda cita “Walk on the wild side”, de Lou Reed). “Read my lips”. O beat segue o mesmo, mas um violão meio flamenco (pense em “Don’t let me be misunderstood” do Santa Esmeralda) entra na jogada, indicando que é a vez da faixa latina do disco. O rapper colombiano Feid intervém na faixa, puxando instrumental para o reggaeton/funk carioca — e obrigando Madonna se soltar no espanhol. “Everything”. Faixa de transição para o bate-cabelo, momento para se jogar na pista e deixar tudo para trás. “Quando fecho os olhos / tudo se cristaliza / ninguém quer sair”, canta a diva. “Love sensation”. Filter disco de sabor Daft Punk circa 2001, ideal para Madonna soltar um daqueles seus refrões clássicos. “Love without words”. Com uma espécie de revival dos entorpecentes efeitos sonorous do Acid House inglês, a faixa faz a apologia da libetação por meio da dança: “Chame isso de amor sem palavras”. “Bizarre”. Parceria com o superstar DJ holandês Martin Garrix, de 30 anos, a faixa sem maiores atrativos sonoros, no entanto, traz uma menção a um dos episódios menos comentados da vida da cantora: o seu casamento com o ator Sean Penn, que durou de 1985 a 1989. “Estrela de cinema, olhos azuis profundos / em Hollywood, somos um prêmio perfeito / ele dirigia rápido demais / Shelby Cobra, não era para durar”, canta ela. E prossegue: “Estenda o tapete para nós, mas você não vai compartilhá-lo / acho que você se sente ameaçado por mim, você não vai admitir / as pequenas coisas que você fez que me fizeram te querer / o fogo era tão intenso”. “School”. Faixa com cara que interlúdio que, no entanto, em som e letra, a verdade nada acrescenta ao disco. A capa do novo disco de Madonna — Foto: Reprodução “Fragile”. Um pouco de UK Garage dá cor a essa canção mais sensível, espiritual, com refrão que poderia estar em um velho hit do Abba. “My sins are my saviour”. “Eu não estava perdida / eu estava apenas quebrada / tentaram me derrubar / eu enlouqueci / meus pecados são minha salvação”, canta Madonna em francês nessa faixa em dueto com o cantor belga Stromae, cuja base musical (inclusive nos sussurros) remete diretamente à sua própria “Erotica” (1992). “Betrayal”. Piano e trompete emprestam clima jazzy à única canção de fato melancólica do disco, na qual Madonna de traição, sobrevivência e fé. Momento em que se percebe uma certa perda de gás na seleção do disco. “The test”. Também no embalo retrô da UK Garage, a faixa apresenta uma delicada tapeçaria musical que embala o mea culpa de Madonna para a filha mais velha, Lola Leon, de 29 anos: “Você não pediu por todas essas luzes piscantes... eu gostaria de saber a dor que causei.” “L.E.S. Girl”. Claramente a faixa de encerramento, com beats suaves e dedilhados de guitarra, quase uma canção de ninar. Madonna volta a olhar para si mesma jovem, voltando na noitada, dia claro, com o rímel borrado, na terna canção, meio “Sunday morning”, do Velvet Undergound: “Garota do Lower East Side / perdida em um mundo frágil /a noite é gentil / o dia é azul / tudo desaparece / exceto você, você, você.”
‘Confessions II’: Confira o faixa-a-faixa do novo álbum de Madonna
Intercalada como numa boa discotecagem, seleção abre espaço para manifestos sobre a necessidade de libertação e confissões da estrela sobre erros e acertos em 67 anos de vida















