Reenergizada pela turnê ‘Celebration’, a estrela busca em seu passado as armas para seguir lutando no cenário pop 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Detalhe da capa de 'Confessions II', novo álbum da cantora Madonna — Foto: Divulgação/Rafael Pavarotti Enfim, é hora de cair o véu: à 0h desta sexta-feira, acontece a aguardada revelação do conteúdo de “Confessions II”, disco com o qual a cantora Madonna se propõe a dar prosseguimento a “Confessions on a dance floor”, álbum com o qual deu, em 2005, uma sacudida em sua carreira que já contava com mais de década de êxitos (e nem-tão-êxitos-assim). Aos 67 anos de idade, sobrevivente de uma geração de estrelas pop como nunca se havia visto antes (dos finados Michael Jackson e Prince, que, assim como ela, nasceram em 1958 para reinar sobre o mundo da música), a americana partiu para o desafio nada pequeno de criar um novo marco em sua carreira e, com isso, manter-se relevante num cenário em que as sensações do pop — cada vez em maior número — têm mais poder de fogo e juventude. A arma de Madonna é a reconexão com a pista. Em muitos sentidos, a mesma que fez com o “Confessions” de 21 anos atrás, inclusive guiada pelo mesmo produtor, o inglês Stuart Price. Afinal, se há algo que se mantém verdadeiro até hoje no funcionamento do pop é que a dança se constitui no mecanismo mais eficiente de libertação — das neuras, de preconceitos, fanatismos, ortodoxias e de tudo que envenena o espírito. Sendo assim, “Confessions II” abre com a força de um manifesto, com a faixa “I feel so free” (uma das três lançadas antecipadamente, como singles), de eletrônica soturna mas recheada de sensualidade, com referência inegável a “I feel love” (faixa de 1977, da cantora Donna Summer e do produtor Giorgio Moroder, que inaugurou o pop dos robôs movidos por energia erótica). Em meio aos beats da faixa, Madonna diz: “Às vezes eu gosto de me esconder nas sombras, criar uma nova persona, uma identidade diferente.” E abre o coração: “Sinceramente, eu gostaria de ser como as outras pessoas e simplesmente não me importar, mas aqui fora, na pista de dança, me sinto tão livre.” É um movimento que conduz para uma das faixas centrais do disco, “Danceteria”, na qual a cantora lembra de suas origens numa cena hedonista de clubes de Nova York, na virada dos anos 1970 para 1980. Lugares em que negros e brancos dançavam juntos e num tempo em que a Aids ainda não havia freado a expansão de uma vibrante cultura gay — essa mesma cultura que vem sendo novamente ameaçada, em dias de neoconservadorismo. Há, nesse “Confessions II”, um bom foco nos desejos que emergem nos cantos escuros das boates (como na Madonna do álbum “Erotica”, de 1992), mas também um lado solar, pelo menos em duas faixas anteriormente divulgadas, que, não coincidentemente, têm o amor no título: “Love sensation” e “Bring your love” — esta última, num dueto com a voz achocolatada de Sabrina Carpenter, a estrela na qual a cantora parece se ver refletida, como jovem. Depois de algumas tentativas de se adequar às novidades do pop, especialmente aquelas de origem latina, Madonna se revela desavergonhadamente saudosista no novo álbum. A house music de Detroit, que veio sendo revivida nos últimos anos por Beyoncé e um sem-número de artistas, ela usa como motor em faixas como “I feel so free” e “Bring your love”. Já alguns críticos que tiveram acesso ao disco ouviram um tanto de UK Garage em “Fragile” (canção mais sentimental, dedicada ao irmão caçula Christopher, que morreu em 2024) e “Good for the soul”. Participações especiais eram esperadas, além de Sabrina Carpenter. O curta-metragem que Madonna fez para o pré-lançamento do disco entregou uma: a do rapper colombiano Feid em “Read my lips”, um reggaeton com elementos de funk carioca. Não foi desta vez que aconteceu a esperada colaboração com Kylie Minogue, mas estão lá uma com o astro belga Stromae (“My sins are my saviour”, na qual ele vai próximo do estilo do esfumaçado francês Serge Gainsbourg), outra com a filha Lola Leon (na hipnótica “The test”, na qual a mãe faz um curioso mea culpa: “Você não pediu por todas essas luzes piscantes... eu gostaria de saber a dor que causei”) e uma com o DJ holandês Martin Garrix (“Bizarre”). Algumas das críticas divulgadas a poucas horas do lançamento de “Confessions II” dão conta do óbvio: que ele não dá conta de superar o impacto cultural do antecessor, de duas décadas atrás. Um raio, como se sabe, não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas, embora as faixas não tenham a força suficiente para enfrentar a jovem guarda da dance music — mesmo nos bons remixes de Honey Dijon, Peggy Gou e do próprio Stuart Price —, o que não dá para negar é que, após lembrar o mundo (e uma Praia de Copacabana inteira) da sua existência com a turnê “Celebration” (2024), Madonna está de volta. E está de volta com um disco consistente, no qual expõe fragilidades, repassa sua própria história de glórias (e pioneirismo), recusa-se a ficar para trás e aponta verdades de um mundo sempre a um passo de encaretar de novo.