Um fato estilizado vem passando relativamente despercebido no debate macroeconômico brasileiro: os eventos El Niño, que historicamente ocorriam uma ou duas vezes por década —e, em geral, com intensidade fraca ou moderada—, tornaram-se muito mais frequentes e severos.
Em um espaço de pouco mais de dez anos, houve quatro episódios: 2015-16 (muito forte), 2018-19 e 2019-20 (fracos), 2023-24 (forte, quase muito forte) e o ciclo de 2026-27, que começamos (provavelmente muito forte). Não se trata de mero acaso: a literatura climatológica vem apontando, há tempos, que o aquecimento global tende a dobrar a frequência de eventos extremos de El Niño ao longo deste século.
Para o Brasil, isso importa —e muito. O El Niño configura, para nossa economia, um típico choque de oferta desfavorável: seca na amazônia e no Nordeste, excesso de chuvas no Sul (vide a tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul em 2024), quebras de safra, pressão sobre os preços de alimentos e da eletricidade (com acionamento de termelétricas e bandeiras tarifárias).
Ou seja: inflação mais alta e PIB mais baixo, simultaneamente —a pior combinação possível do ponto de vista da política monetária, que se vê obrigada a escolher entre acomodar o choque e combatê-lo ao custo de aprofundar a desaceleração da atividade.










