Com o início de um novo El Niño, potencialmente recordista, pesquisadores debatem intensamente se as mudanças climáticas estão impulsionando a intensidade do fenômeno 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Em 2023, El Niño aumentou as temperaturas de todo o Brasil e causou grandes queimadas no cerrado — Foto: Cristiano Mariz/ gência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 18:39 Mudanças Climáticas Intensificam El Niño? Debate Científico Persiste Cientistas debatem se as mudanças climáticas intensificam o fenômeno El Niño, que está em curso e pode bater recordes. Enquanto alguns pesquisadores veem evidências de intensificação devido às mudanças climáticas, outros discordam, citando dados inconclusivos. Com consequências globais devastadoras, a compreensão do impacto climático no El Niño permanece um tema controverso e não resolvido. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Atualmente, cientistas do mundo todo estão travando um intenso debate, com implicações de longo alcance para eventos climáticos extremos e desastres dispendiosos: as mudanças climáticas estão tornando o El Niño mais intenso? O El Niño, fenômeno natural que ocorre a cada poucos anos e eleva as temperaturas globais, acaba de começar e deve continuar até 2027. Cientistas afirmam que esta última versão provavelmente será especialmente potente e poderá quebrar recordes. Com o aquecimento global causado pelos gases de efeito estufa, os eventos El Niño nas últimas décadas têm sido comparativamente mais intensos. A sequência de El Niños poderosos desde a década de 1980 se destaca quando comparada aos últimos 600 anos. Isso levou alguns cientistas a sugerirem que as mudanças climáticas estão intensificando o El Niño. Outros afirmam que não há evidências claras para sustentar essa teoria. — É um tema muito controverso, porque é uma questão muito importante que precisa ser respondida corretamente — disse Kim Cobb, cientista climática e diretora do Instituto de Meio Ambiente e Sociedade da Universidade Brown. É um mistério que talvez só se esclareça daqui a alguns anos, à medida que mais dados forem coletados. A questão é crucial, porque o El Niño perturba os padrões climáticos globais, muitas vezes de forma devastadora — elevando as temperaturas, aumentando a probabilidade de seca em alguns lugares e de inundações em outros. Esses eventos são essencialmente anomalias oceânicas e, se as mudanças climáticas aumentarem a magnitude dessas anomalias, isso significa mais caos e danos. Mas o debate mostra que existem limites para a capacidade dos cientistas de compreenderem plenamente algumas das consequências mais complexas do aumento das emissões de gases de efeito estufa, que resultam principalmente da queima de combustíveis fósseis. Os fenômenos El Niño são notoriamente complexos. Eles não são impulsionados por uma única causa, mas por uma série de ciclos de retroalimentação no oceano e na atmosfera. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) certa vez descreveu o El Niño, e seu equivalente no Pacífico, conhecido como La Niña, como um ciclo “controlado por centenas de interruptores de intensidade”. As mudanças climáticas podem interferir nesses interruptores, aumentando a intensidade de alguns e diminuindo a de outros. Mas isso resulta em um sinal mais forte ou mais fraco? — O El Niño é a parte mais ruidosa do sistema climático — disse Axel Timmermann, diretor do Centro de Física Climática do IBS em Busan, Coreia do Sul. — Estamos tentando encontrar uma mudança nesse ruído. Dos 16 cientistas que falaram com NYT, oito disseram ver evidências convincentes de que as mudanças climáticas provavelmente estão aumentando a intensidade dos eventos El Niño. Entre eles está Michael McPhaden, cientista sênior da NOAA, que alertou que a ciência é “muito incerta”, mas afirmou que o desenvolvimento de outro El Niño forte este ano seria “bastante notável”. Se o atual El Niño atingir as proporções previstas por muitos, isso significaria que três dos seis eventos mais fortes desde 1950 ocorreram nos últimos 11 anos. Os fenômenos El Niño são medidos pela observação das mudanças na temperatura da superfície do mar em uma vasta zona retangular no Pacífico central, onde as temperaturas estão atualmente em alta. Muitas previsões indicam que as temperaturas nessa região este ano podem subir mais de 3 graus Celsius acima da média de longo prazo, dando origem a um El Niño de amplitude sem precedentes. Talvez o argumento mais contundente seja o de Wenju Cai, cientista da Universidade Oceânica da China, que passou mais de 20 anos executando modelos climáticos e tentando desvendar uma possível ligação entre o aumento das emissões e a ocorrência de El Niños mais intensos. Em um estudo de 2023 publicado na revista Nature, Cai e outros cientistas simularam centenas de anos de eventos El Niño e La Niña em um mundo imaginário onde as concentrações de gases de efeito estufa permanecessem nos baixos níveis de antes da Revolução Industrial. A probabilidade de tal mundo produzir um período de 60 anos de eventos intensos comparáveis aos da atualidade é de 2,5%. — É praticamente impossível ter isso sem as mudanças climáticas — disse Cai. Muitos modelos prospectivos também projetam um aumento na intensidade do El Niño. Ainda assim, outros cientistas alertam que os modelos podem ter falhas. Eles observam que existem limitações no registro histórico. Leituras oceânicas precisas datam da década de 1950. Um relato razoável das temperaturas oceânicas, a partir de diários de bordo de marinheiros, se estende até o século XIX. Além disso, os cientistas tentaram entender as flutuações do El Niño procurando por vestígios de mudanças climáticas e de temperatura deixados em corais e anéis de árvores. Isso fornece uma estimativa significativa sobre a amplitude e a frequência de eventos passados, mas não certeza. Clara Deser, cientista sênior do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, afirmou que os eventos El Niño das últimas décadas podem ser "apenas um sinal aleatório". — Eu sou a cientista cética — disse. — Quanto disso se deve simplesmente ao caos no sistema climático, que pode gerar uma série de resultados diferentes sem nenhuma razão aparente? Como não há consenso, os grupos científicos têm tendido a agir com cautela. Em 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o principal órgão científico mundial sobre o clima, afirmou que havia “baixa confiança” de que as mudanças climáticas causadas pelo homem tivessem influenciado as alterações nos fenômenos El Niño e La Niña. No início deste mês, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), em um comunicado sobre o El Niño em desenvolvimento, declarou que “não há evidências de que as mudanças climáticas aumentem a frequência ou a intensidade dos eventos El Niño”. Em resposta a uma pergunta do NYT, a OMM afirmou que sua posição reflete "o estado atual da ciência". “No entanto, é importante também reconhecer o debate científico em curso”, afirmou a organização. “Esta não é uma questão científica resolvida.” Cobb, uma das principais autoras do IPCC, afirmou que, em sua opinião, as mudanças climáticas estão intensificando esse padrão. Em 2019, ela foi coautora de um artigo de pesquisa , baseado em análises de corais, que concluiu que os extremos do El Niño na atualidade são “significativamente mais fortes do que os da era pré-industrial no Pacífico tropical central”. Existe um consenso generalizado de que qualquer El Niño que ocorra agora, em comparação com os tempos pré-industriais, produzirá mais eventos extremos em todo o mundo, com uma atmosfera mais úmida intensificando as inundações e temperaturas mais altas amplificando as secas. — As condições do El Niño vão alimentar ainda mais o aquecimento global — disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, este mês. — Os impactos serão ainda mais severos.
Será que as mudanças climáticas estão intensificando o El Niño? Cientistas discordam
Com o início de um novo El Niño, potencialmente recordista, pesquisadores debatem intensamente se as mudanças climáticas estão impulsionando a intensidade do fenômeno









