Na maior parte do tempo, Alexander Delgado dá aulas de educação física em uma escola no Estado de Aragua, na região central da Venezuela. Mas, na última semana, ele passou a coordenar uma equipe de resgate formada por vizinhos e voluntários de outros Estados, que se revezam escavando os escombros de um conjunto habitacional em busca de sobreviventes e vítimas dos dois terremotos que devastaram um Estado costeiro e partes da capital venezuelana. Moradores como Delgado, muitas vezes munidos apenas de pás, cordas e das próprias mãos, tentam suprir o que descrevem como uma resposta lenta e insuficiente do Estado ao mais forte tremor registrado no país em um século. Segundo eles, um dos obstáculos é impedir que integrantes das Forças Armadas e da polícia venezuelana bloqueiem a chegada de ajuda, se apropriem de doações e até saqueiem edifícios desabados. O Ministério da Comunicação da Venezuela, responsável por responder a questionamentos da imprensa em nome das Forças Armadas e da polícia, não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário. Altos integrantes do governo atribuíram a crescente insatisfação da população e as denúncias de envolvimento de militares em saques e na lentidão da ajuda humanitária à desinformação. Eles pediram que a população ignore "estratégias de manipulação nas redes sociais" e confie apenas nas informações oficiais. Delgado não tem treinamento formal em resgates, mas aprendeu técnicas de primeiros socorros no trabalho. Um dia após os terremotos, viajou para La Guaira, o Estado mais afetado, para ajudar. Segundo ele, os resgates vêm sendo conduzidos principalmente por cidadãos venezuelanos e equipes internacionais. "Você vê os bombeiros, vê os Topos (equipe mexicana de resgate), mas não vê propriamente o Estado", afirmou. Sua equipe passou cinco dias removendo escombros e ouvindo atentamente qualquer sinal de vida sob o forte sol do Caribe. Eles contam com o apoio de outros voluntários da comunidade, que levam água, máscaras, gelo e conhecimento sobre o conjunto habitacional Hugo Chávez, formado por oito torres — das quais seis hoje estão reduzidas a escombros. Até terça-feira, sexto dia das buscas, havia duas equipes internacionais de resgate, alguns bombeiros locais e um caminhão do serviço de medicina legal da Venezuela, mas ainda faltavam equipamentos pesados indispensáveis às operações, disse Delgado. Naquela tarde, a equipe encontrou o corpo de uma mulher deitada de lado, presa entre uma laje e outros destroços. Os trabalhos foram interrompidos para aguardar a remoção do corpo pelo serviço de perícia. Equipes de resgate trabalham sobre os escombros de um prédio que desabou durante os terremotos que atingiram La Guaira, Venezuela, na terça-feira, 30 de junho de 2026. Casas do bairro Caribe podem ser vistas ao fundo. — Foto: AP/Matias Delacroix "Fazemos o que podemos" As críticas à resposta do governo venezuelano ocorrem enquanto a presidente interina Delcy Rodríguez tenta consolidar seu poder após a destituição de seu antecessor, Nicolás Maduro, em janeiro. "Delcy e seu grupo estão no poder há 26 anos e só conhecem um roteiro", disse Jimmy Story, embaixador dos Estados Unidos na Venezuela até 2023. "Assumem o crédito por qualquer coisa positiva, culpam outros por tudo que é negativo e tentam controlar a narrativa." O presidente Donald Trump elogiou a relação dos Estados Unidos com Rodríguez, e empresas americanas demonstraram interesse em investimentos que vão do petróleo ao ouro. O encarregado de negócios da Embaixada dos EUA, John Barrett, também manifestou confiança na atuação de Rodríguez diante da tragédia. Em entrevista à Univision na segunda-feira, afirmou ter "grande confiança" nas autoridades locais. Voluntários que atuam nas áreas atingidas discordam. "Gostaria de ver uma presença maior dos órgãos públicos, que são os verdadeiros responsáveis por isso. Mas, no fim das contas, estamos acostumados a fazer o que podemos com quase nada", disse Mijaed Diaz, veterinário que se juntou a voluntários de uma universidade. Ele caminhava sobre os escombros de duas torres em busca de sacos para transportar os corpos de quatro pessoas que acabavam de ser retiradas dos destroços. Depois de inicialmente agradecer aos voluntários civis, o governo restringiu na sexta-feira o acesso da população a La Guaira, provocando indignação entre pessoas que tentavam ajudar nas buscas. Um funcionário do governo que trabalhava em um posto de controle em La Guaira contou à Reuters que viu policiais e militares confiscarem donativos transportados por três caminhões e se vangloriarem do que haviam conseguido "arranjar". Frustração nas redes sociais Esse funcionário, que pediu anonimato por medo de represálias, também afirmou ter visto agentes gravarem vídeos em que apareciam com pás, supostamente ajudando nas buscas, antes de deixarem rapidamente o local. Parte da população expressou sua indignação nas redes sociais, compartilhando vídeos que mostrariam agentes de segurança recolhendo roupas, eletrodomésticos e dinheiro entre os escombros. A Reuters não conseguiu verificar a autenticidade das imagens. Ainda assim, o Ministério do Interior informou na noite de terça-feira que quatro policiais da perícia criminal foram detidos, afastados de suas funções e serão investigados por "apropriação de bens encontrados entre os escombros". A pasta acrescentou que, de modo geral, a atuação da polícia tem sido transparente. Outros vídeos mostram militares venezuelanos observando, armados, enquanto voluntários locais e equipes internacionais de resgate procuram sobreviventes. Apesar das denúncias, moradores afirmam que parte dos militares e policiais participa ativamente das operações de socorro. Uma moradora disse à Reuters ter visto soldados retirando pertences de edifícios a pedido dos proprietários. Policiais e bombeiros no bairro de Chacao, área de classe alta de Caracas, também trabalham sem interrupção para atender pedidos de ajuda humanitária, segundo testemunhas da Reuters. Aproveitando o protagonismo da sociedade civil nas buscas, algumas organizações não governamentais venezuelanas, cuja atuação havia sido fortemente restringida por medidas adotadas pelo governo em 2024 contra a sociedade civil, voltaram a atuar publicamente para prestar assistência às vítimas. Equipes de resgate vasculham os escombros de um prédio que desabou após terremotos atingirem La Guaira, Venezuela, no domingo, 28 de junho de 2026 — Foto: AP/Matias Delacroix Falta de transparência "Estamos trabalhando e tentando mostrar, mais uma vez, que nossa missão é apoiar as comunidades e que isso não deveria ser motivo de perseguição", afirmou Roberto Patiño, fundador da ONG Alimenta La Solidaridad, que mantém cozinhas comunitárias. Desde a tragédia, a organização concentra seus esforços na distribuição de alimentos, medicamentos, equipamentos e antenas de internet Starlink para as comunidades mais afetadas. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), os terremotos causaram cerca de US$ 6,7 bilhões em prejuízos. Os Estados Unidos prometeram US$ 350 milhões em ajuda, enviaram equipes de resgate e mobilizaram militares para reparar o aeroporto, mas alguns analistas questionam o destino de bilhões de dólares provenientes de vendas de petróleo que permanecem depositados em uma conta controlada pelos EUA. "Embora a resposta tenha sido robusta, ela também levanta dúvidas sobre a transparência em relação ao fundo do petróleo", disse Story. "Esses recursos serão liberados para a resposta ao desastre?" Miguel Poleo, integrante da equipe de resgate coordenada por Delgado, foi ao conjunto habitacional Los Cocos logo após os terremotos para procurar sua enteada, o marido dela e o filho do casal. "Dissemos a eles, dois dias atrás, que ainda havia sobreviventes, que eles estavam batendo nos escombros, e nada", afirmou, referindo-se ao governo. "Eles não ajudam ninguém."