Especialistas apontam que a criatividade e a resiliência técnica dos brasileiros são altamente valorizadas por empresas estrangeiras Eduardo Gonçalves, country manager no Brasil da empresa global de cibersegurança Check Point Software — Foto: divulgação Trabalhar com proteção digital pode ajudar a carimbar o passaporte de profissionais em busca de uma carreira internacional. Segundo especialistas ouvidos pelo Valor, o Brasil é conhecido por despachar bons técnicos de cibersegurança para empresas globais, mas é preciso vencer barreiras, como a capacidade de se comunicar em inglês e de atuar em ambientes de trabalho multiculturais. “Nos Estados Unidos, dependendo da função e experiência do candidato, os profissionais do ramo podem ganhar mais de US$ 100 mil, ao ano”, diz Murtaz Navsariwala, fundador do Murtaz Law, escritório especializado em imigração para os EUA. “Em cargos de liderança, a remuneração pode ultrapassar US$ 200 mil anuais.” Navsariwala, baseado nos EUA, observa que a procura por oportunidades em TI no país permanece forte, mesmo com as novas políticas de imigração do governo de Donald Trump. Os brasileiros costumam ser vistos no mercado americano como qualificados, adaptáveis e capazes de resolver problemas com rapidez, justifica. “São características valiosas na área de cibersegurança, em que praticamente nenhuma situação de ataque é igual à outra.” A opinião é compartilhada por Maria Sartori, diretora de mercado da consultoria Robert Half, de recrutamento de executivos. “São talentos que contam com um nível técnico comparável ao dos principais mercados globais”, assegura. “Para as corporações estrangeiras, trata-se de uma oportunidade para acessar talentos com um custo de contratação mais competitivo do que o praticado na Europa ou Estados Unidos.” No entanto, continua Sartori, o diferencial dos brasileiros ultrapassa a questão financeira na hora da contratação. “Eles se destacam por características valorizadas pelas organizações, como a orientação a resultados e visão de negócio”, elenca. “Assumem os desafios de forma proativa e mantêm o foco no problema até que a solução seja encontrada.” Na visão de Everson Denis, professor do Instituto Mauá de Tecnologia e especialista em cibersegurança, apesar da “boa fama” dos talentos do Brasil, o obstáculo que mais costuma separar os candidatos das chances de emprego no exterior é a baixa fluência no inglês. “Além do domínio da língua, é preciso ter habilidade para atuar em ambientes de produção globais”, explica. O que chama a atenção dos empregadores é a combinação de criatividade, resiliência e exposição a cenários de ataques agressivos, anota. “Isso faz com que os recrutadores enxerguem os brasileiros como capazes de produzir resultados, mesmo em ambientes sob pressão.” É o caso de Cristiana Kittner, gerente sênior para crime cibernético e pesquisa de ameaças da firma global de cibersegurança Proofpoint. “Nunca atuei em uma companhia brasileira, mas sempre usei no trabalho minha cultura e o ponto de vista de uma pessoa que veio de um país em desenvolvimento”, diz a executiva nascida no Rio de Janeiro e residente em Washington (EUA). Kittner, que também fala inglês, francês e espanhol, conta que direcionou sua formação para estudos em história, relações internacionais e estratégia militar. Especializou-se em estudos de segurança e combate ao terrorismo na Universidade de Georgetown (EUA) e atuou por quase uma década junto ao Pentágono, sede do departamento de defesa americano, onde analisava sistemas de armas, aeronaves e satélites. “Foi essa experiência com tecnologias armamentistas que serviu de ponto de partida para ingressar na segurança cibernética”, afirma. Para Marlon de Paula, líder de cibersegurança na Conversys, provedora de serviços em TI presente no Brasil, Chile, México, Estados Unidos e Portugal, pode-se começar uma trajetória internacional sem sair do país. Na empresa desde o ano passado, ele trabalha em Vitória (ES), onde nasceu, mas ocupa um cargo global – fala português, inglês e espanhol com os colegas, durante o expediente. “Minha maior contribuição é unir rigor técnico a uma forma ‘brasileira’ de resolver problemas, com a disposição de entregar além do que está no contrato”, revela. “Na área de cibersegurança, a capacidade de improvisar com responsabilidade, sem perder o controle do processo, faz a diferença.” Eduardo Gonçalves, country manager no Brasil da multinacional de cibersegurança Check Point Software, com 7 mil funcionários no mundo, chama a atenção para os obstáculos de quem vai seguir a carreira. “As cargas de trabalho são intensas e as equipes enfrentam excesso de alertas de segurança”, destaca. “No entanto, a demanda por profissionais segue impulsionada por fatores como a expansão da inteligência artificial e dos expedientes híbridos.”
Demanda global por profissionais de cibersegurança abre portas no exterior
Especialistas apontam que a criatividade e a resiliência técnica dos brasileiros são altamente valorizadas por empresas estrangeiras








