Empresas apostam em formação interna, recrutamento de juniores e programas de inclusão O mercado brasileiro de cibersegurança deve movimentar cerca de R$ 104,6 bilhões entre 2025 e 2028, mas a escassez de mão de obra qualificada surge como um entrave para as empresas, dificultando a proteção dos sistemas corporativos. Somente entre 2019 e 2024, a necessidade do segmento de TI foi de 665,4 mil profissionais, diante de 464,5 mil formados no setor. Ou seja, a demanda é 30,2% superior à oferta de candidatos para as vagas. A análise é da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), com 104 associados. “A demanda por mão de obra tem aumentado por conta de três fatores”, explica Affonso Nina, presidente-executivo da Brasscom. “A ‘industrialização’ do crime digital, com ataques mais escaláveis; o avanço da inteligência artificial, que reduz o custo dos delitos, ampliando o volume de fraudes; e a expansão da economia digital, que aumenta a superfície de invasão e torna a segurança um componente crítico para as empresas”, enumera. Diante deste quadro, Nina aconselha que as companhias invistam na capacitação e na requalificação de equipes. “É possível apostar em profissionais juniores, incentivando o desenvolvimento interno, na formação prática, com cursos sobre habilidades técnicas, além de parcerias com iniciativas de aprendizagem”, afirma. É o que está fazendo o Grupo Stefanini, multinacional brasileira de TI com 35 mil funcionários, sendo 18 mil no país. “Investimos na mobilidade interna”, aponta Bruno Szarf, vice-presidente global de pessoas e performance da empresa. “Identificamos profissionais com potencial na organização e oferecemos oportunidades de desenvolvimento e transição para a área de cibersegurança.” Szarf diz que encontrar profissionais do ramo virou um desafio global. “Há escassez de especialistas, mas o principal impasse está além da formação técnica. As empresas procuram funcionários capazes de combinar conhecimento em segurança com visão de negócios, capacidade analítica e habilidades de relacionamento. Esse perfil é mais raro de encontrar do que o mercado imagina”, frisa. O executivo afirma que a Stefanini, que contratou cerca de 40 profissionais de cibersegurança em 2025, tem demorado, em média, 30 dias para localizar e admitir um currículo para cargos de gestão. Há 17 vagas abertas no Brasil. “Hoje, um profissional local pode ser abordado por companhias da Europa ou dos Estados Unidos sem precisar mudar de país. Isso mudou a dinâmica do mercado de trabalho”, diz. Na opinião de Rafael Bertoni, sócio e diretor associado de dados e tecnologia da Fesa Group, de soluções de RH, os empregadores também precisam oferecer uma remuneração competitiva, bônus e incentivos de longo prazo, além de flexibilidade, com expedientes remotos ou híbridos, para atrair e reter os talentos da área. Em 2025, a Fesa Group trabalhou na movimentação de três profissionais em posições de gerência, com remunerações mensais entre R$ 14 mil e R$ 29 mil, conforme o porte da empresa e senioridade da função. “O perfil mais disputado combina profundidade técnica com capacidade executiva”, diz Bertoni. Em posições seniores, não basta conhecer as ferramentas de segurança. “As empresas querem pessoas que consigam conversar com áreas diversas, como TI, jurídico, risco, compliance, negócios e conselhos”, afirma. Para Michele Nogueira Lima, professora associada do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a carência de mão de obra pode ser combatida com programas de incentivo à aprendizagem. Ela coordena o Mulheres de Exatas em Cibersegurança, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que incentiva meninas e mulheres a atuarem na área por meio de capacitação, mentorias e desenvolvimento de carreira. Desde 2024, o programa já impactou 116 meninas e mulheres, entre alunas do ensino fundamental e médio, professoras e bolsistas de iniciação científica.