Gerando resumoFoto: Divulgação/World Economic ForuRaghuram RajanEx-presidente do BC da Índia e professor de Finanças da Universidade de Chicago BoothO uso crescente de dívida para financiar infraestrutura e empresas de inteligência artificial pode estar criando os problemas do futuro, alerta Raghuram Rajan, ex-presidente do banco central da Índia e professor de Finanças da Universidade de Chicago Booth, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.Rajan também afirma que alguns ativos ligados à IA parecem excessivamente valorizados.Para o economista, esse é um dos riscos que os mercados podem estar subestimando atualmente, ao lado do elevado endividamento público e da expansão das instituições financeiras não bancárias.PublicidadeNa avaliação de Rajan, a combinação entre populismo e elevados níveis de dívida pública também representa um risco importante para a economia global, ao aumentar a possibilidade de crises fiscais e seus efeitos sobre o sistema financeiro. Ele afirma que, se a dívida pública entrar em crise, os bancos também serão afetados por carregarem grandes volumes de títulos soberanos.O economista também defendeu que os bancos centrais sejam claros quanto aos objetivos da política monetária, ainda que optem por reduzir o grau de forward guidance (ferramenta para guiar a economia e influenciar a expectativa do mercado), e contou que seguiu um conselho do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga de concentrar a comunicação na inflação durante seu mandato à frente do Banco da Reserva da Índia (RBI, pela sigla em inglês).Rajan foi presidente do RBI de 2013 a 2016, período em que ajudou a estabilizar a economia do país após uma forte desvalorização da rúpia e inflação de dois dígitos. Rajan resistiu a uma intensa pressão do governo do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para cortar juros, e segue como defensor da independência dos bancos centrais.PublicidadeLeia tambémThe Economist: A resistência à inteligência artificial está apenas começandoCenário internacional de juros mais altos aumenta pressão para ajuste fiscal no próximo governoAntes do RBI, Rajan ganhou projeção internacional ao alertar, antes da crise financeira global de 2008, para os riscos crescentes do sistema do mercado de hipotecas subprime.Confira os principais trechos da entrevista, feita na quarta-feira, 24, pouco antes do jogo entre Brasil e Escócia. Rajan disse que ia assistir e torcer para o Brasil.Os bancos centrais ao redor do mundo enfrentam pressões políticas crescentes em meio ao avanço do populismo, aos grandes déficits fiscais e às demandas cada vez maiores para apoiar o crescimento econômico. O sr. vê riscos para o próprio regime de metas de inflação? Depende. Há um populismo crescente porque as pessoas se sentem frustradas. Há ansiedade sobre empregos e as antigas respostas não parecem estar funcionando tão bem. Muito disso vem do comportamento dos países industrializados. Muitos estão se tornando mais protecionistas, muitos estão se tornando anti-imigração. O que temos, na verdade, é uma crise de confiança. Tanto nos modelos econômicos defendidos pelo establishment quanto, de forma mais ampla, na capacidade das elites de oferecer uma resposta. Essas respostas quase sempre envolvem algum grau de dor no curto prazo, na tentativa de chegar a uma situação melhor no médio prazo. E isso é muito difícil de aceitar quando há um líder populista dizendo: ‘sem dor, só ganhos, apenas siga-me’. Tudo isso é uma forma indireta de dizer que há pressão sobre os bancos centrais. O que vimos no Fed (Federal Reserve, o banco central americano), por exemplo, foi o novo presidente reiterar sua ênfase no controle da inflação. Portanto, apesar de todo o ruído em torno da independência da instituição, achei que ele foi bastante firme ao afirmar que o objetivo do banco central continua sendo manter a inflação baixa.PublicidadeA postura de Warsh reforça a importância da independência do banco central? Acredito que o Fed tem proteção suficiente. Pela própria forma como o Fed é estruturado, pelo apoio que a Suprema Corte pode dar a ele. E também pelo fato de que qualquer indicado precisa passar pelo Congresso e ser sabatinado pelos congressistas. Algumas das opções mais radicais para o cargo dificilmente conseguiriam essa aprovação. E eu sempre tive a impressão de que Kevin Warsh fará no Fed o que precisa ser feito, que é trabalhar para trazer a inflação de volta ao controle. Não achei que ele seria um banqueiro central complacente ou facilmente influenciável.O sr. mencionou as instituições fortes nos EUA, mas como você vê a regulação dos bancos no país?Acho que existe uma dinâmica antiga e recorrente: depois de uma crise, há uma tendência de endurecer bastante a regulação. Com o passar do tempo, à medida que a crise vai ficando distante na memória, começa um movimento gradual de flexibilização dessas regras. E normalmente é nesse momento que se deve ter mais cuidado, porque é quando os riscos começam a se acumular novamente. Não estou tão preocupado com os grandes bancos. Eles já foram bastante regulados. Por isso, não considero particularmente problemático algum recuo em relação à Basileia IV. Me preocupa o fato de não termos avançado o suficiente na regulação das instituições não bancárias.Quando falamos sobre os riscos para os grandes bancos centrais, a dominância fiscal é parte dos desafios de hoje?Sim, é um risco global. Tivemos dois choques muito graves nos últimos 20 anos: a crise financeira global e a pandemia. Ambos provocaram aumentos enormes da dívida pública, que se tornou um fardo. E, em um ambiente marcado pelo avanço de movimentos populistas, é muito difícil defender a austeridade fiscal. Na verdade, ninguém quer defender austeridade, porque essa é uma forma quase garantida de perder uma eleição. Todo mundo quer aumentar a dívida; ninguém quer reduzi-la. Acho que todos os países precisam estar atentos a esse risco.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO sr. enfrentou um grande desafio quando se tornou presidente do RBI. A Índia era vista como uma das cinco economias mais frágeis, “As Cinco Frágeis”, junto com o Brasil. Mas, quando deixou o RBI, a confiança dos investidores havia melhorado significativamente. Qual foi o papel do banco central nessa transformação?Acho que nós ajudamos. As autoridades fiscais também fizeram sua parte e tivemos um pouco de sorte. Iniciamos uma série de reformas num momento em que o país se preparava para uma transição de governo. Alguns amigos meus em bancos centrais - Armínio Fraga era um deles - me disseram: “não se preocupe com o câmbio; preocupe-se com a inflação. Se você falar apenas sobre inflação, o câmbio acabará se ajustando”. Foi exatamente o que fizemos. Estabelecemos um cronograma para migrar ao regime de metas de inflação, cumprimos esse objetivo cerca de um ano depois e os mercados acreditaram no nosso compromisso com a estabilidade de preços. Também implementamos reformas para fortalecer o sistema financeiro, criar novos bancos, desenvolver o mercado de capitais e ampliar a inclusão financeira com o UPI, equivalente indiano do Pix. Além disso, saneamos o sistema bancário e contamos com o esforço das autoridades fiscais para reduzir o déficit. Não foi uma única medida, mas um conjunto de iniciativas que ajudou a restabelecer a confiança dos investidores.Raghuram Rajan diz que alguns ativos estão supervalorizados Foto: Adobe StockO sr. se manteve firme na defesa da autonomia do banco central mesmo diante da pressão do governo Modi. É importante que os bancos centrais tenham essa resiliência?CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEÉ preciso saber com clareza onde está a linha que você não está disposto a cruzar. Se não tiver essa clareza, acaba se tornando excessivamente influenciável. Mas também não pode ser totalmente inflexível, porque sempre haverá pressão política. É preciso saber em que é possível fazer concessões e em que não é.Recentemente o Banco Central do Brasil cortou os juros, apesar de reconhecer a piora das expectativas de inflação e a resiliência da atividade econômica. A decisão era esperada, mas o comunicado e a ata deixaram sinais mistos para o mercado. Quão perigoso é quando os mercados ficam incertos, não em relação ao cenário econômico, mas à forma como o próprio banco central interpreta os dados?É uma situação delicada. Não quero comentar o caso brasileiro porque não o conheço em profundidade. Mas, embora um banco central não conheça o futuro nem consiga detalhar toda a sua função de reação, há uma coisa que pode fazer repetidamente: reafirmar sua determinação absoluta de atingir o objetivo. Não sou contrário a reduzir o forward guidance, nem acho necessário descrever em detalhes como reagirá a cada cenário. Mas considero essencial afirmar de forma inequívoca qual é o objetivo da política monetária. E, se houver dúvidas, explicar por que as ações adotadas são consistentes com esse objetivo.Se a comunicação do BC serve para ancorar as expectativas de inflação e o mercado está confuso, isso tende a piorar essas expectativas...Exatamente. Nesses momentos, talvez seja importante comunicar um pouco mais, explicando por que aquilo que você está fazendo é a coisa certa.PublicidadeSe o sr. tivesse de apontar um grande risco que os mercados globais estão subestimando hoje - assim como subestimaram os riscos antes da crise de 2008 - qual seria?Há três ou quatro riscos importantes. O primeiro é a dívida pública. Ela costuma se transformar em problema quando há instabilidade política. A combinação entre populismo e elevados níveis de endividamento é bastante perigosa. Se a dívida pública entra em crise, os bancos também entram, porque carregam grandes volumes de títulos públicos. Por isso, existe a possibilidade de um país industrializado enfrentar problemas com sua dívida nos próximos três a cinco anos. O segundo risco é a inteligência artificial. Alguns ativos ligados ao setor parecem excessivamente valorizados e o uso crescente de dívida para financiar infraestrutura e empresas de IA pode estar criando os problemas do futuro. O terceiro é o setor financeiro não bancário (non-banks), que cresceu muito desde a crise de 2008 e ocupa espaços deixados pelos bancos tradicionais. Por fim, há uma categoria mais ampla de riscos que preferimos deixar de lado na esperança de que não se concretizem: desastres relacionados ao clima, guerras, uma nova pandemia e até mesmo algum desastre provocado pela inteligência artificial, dado o enorme poder dessa tecnologia.O risco da IA pode ser semelhante ao da bolha da dot.com ou até pior?É difícil dizer neste momento. Porque o nível de endividamento não era o mesmo que vemos hoje em torno da inteligência artificial. Acho que o endividamento das famílias e dos bancos era muito maior, e foi isso que acabou gerando problema. Hoje, a dívida corporativa não é tão elevada, mas talvez esteja concentrada nos lugares errados. Não conheço esse aspecto suficientemente bem. Algumas instituições financeiras não bancárias podem estar mais alavancadas do que imaginamos, e isso representa uma preocupação. Em termos de tamanho, os números são muito maiores. Basta pensar na SpaceX, avaliada em mais de cem vezes sua receita. É um valor de mercado gigantesco. Baseado em quê? Na esperança de que a empresa construa uma enorme infraestrutura de data centers e capacidade computacional no espaço? Não sei. Parece haver muitos sonhos depositados na expectativa de que Elon Musk entregue tudo isso. Talvez entregue. Mas ainda assim é um valuation muito elevado. Por isso, eu me preocupo.
Entrevista | Dívida para financiar IA pode estar criando os problemas do futuro, diz ex-presidente do BC da Índia
O executivo, que também é professor de Finanças da Universidade de Chicago Booth, alerta ainda que a combinação de populismo com altos níveis de endividamento público pode aumentar a chance de crises fiscais globais












