Cresce possibilidade de que os trilhões de dólares que empresas financiadas por detentores de títulos pretendem investir na expansão da infraestrutura de inteligência artificial nos próximos anos gerem retornos inferiores aos esperados Explosão da IA mascara riscos no mercado de crédito dos EUA — Foto: Steve Johnson/Unsplash No papel, o mercado de títulos corporativos dos EUA está ficando mais seguro, já que mais empresas de tecnologia com classificações de crédito elevadas emitem dívida. Muitos investidores temem que essa segurança se revele ilusória. Alguns dos maiores emissores de títulos corporativos neste ano, entre eles Amazon, Meta e Alphabet, têm classificação de crédito na faixa AA. À medida que ampliaram suas emissões, elevaram a nota média do índice Bloomberg de títulos corporativos de grau de investimento dos EUA: papéis classificados como AA e A representam hoje 52% do índice, ante cerca de 46% em 2021, segundo análise do Barclays até o fim de junho. Ao mesmo tempo, a participação dos títulos com classificação BBB caiu para 41% do índice, ante 46% em 2021. Essa é uma das razões pelas quais os prêmios de risco dos títulos corporativos de alta qualidade permaneceram relativamente baixos neste ano, em 0,74 ponto percentual em 1º de julho, perto das mínimas de várias décadas. Ainda assim, cresce o risco de que os trilhões de dólares que empresas financiadas por detentores de títulos pretendem investir na expansão da infraestrutura de IA nos próximos anos gerem retornos inferiores aos esperados — ou até se transformem em um fracasso para companhias que hoje parecem sólidas. Nesse cenário, os spreads aumentariam à medida que os títulos corporativos apresentassem desempenho inferior ao de outras modalidades de dívida, provocando perdas contábeis em relação aos Treasuries para os atuais detentores dos papéis e potencialmente elevando os custos de captação das empresas. “Um estouro repentino da bolha do crédito ligado à IA teria efeitos sobre todo o mercado de títulos de grau de investimento, ampliando os spreads e expondo os investidores aos riscos de concentração”, afirmou Ben Emons, diretor-geral de renda fixa da Highline Asset Management LLC e fundador da FedWatch Advisors. “Os preços atuais sugerem que os mercados ainda não incorporam plenamente o risco extremo de um 'boom' concentrado em IA, financiado por dívida, evoluir para um evento sistêmico de crédito.” As empresas emitiram cerca de US$ 220 bilhões em títulos vinculados à inteligência artificial neste ano, considerando todas as moedas, alta de 62% em relação a todo o volume de 2025, disse o Bank of America (BofA) em relatório divulgado na semana passada. Cerca de US$ 107 bilhões desse total foram emitidos em dólares por apenas quatro hiperescaladoras — Amazon, Meta, Alphabet e Oracle. Em junho, a fabricante de chips Nvidia e a SpaceX, de Elon Musk, emitiram US$ 25 bilhões em títulos cada uma, levando as emissões mensais de grau de investimento a um novo recorde. Embora nem todos os grandes emissores deste ano pertençam à faixa AA — Oracle e SpaceX estão na categoria BBB — uma classificação média mais elevada para o mercado costuma ser vista como um fator positivo. Durante boa parte da última década, empresas classificadas como BBB dominaram o mercado americano de títulos de alta qualidade, já que os emissores consideravam esse nível de alavancagem o ideal para elevar o retorno aos acionistas sem aumentar excessivamente os custos de financiamento. A maior participação de emissores com classificações mais elevadas reflete o fato de que as empresas que mais estão tomando empréstimos também geram elevados fluxos de caixa. A expectativa é que o fluxo de caixa operacional da Alphabet supere US$ 250 bilhões em 2027, enquanto o fluxo de caixa livre da Nvidia poderá se aproximar de US$ 1,5 trilhão ao longo de cinco anos. Os empréstimos devem continuar. Apenas as seis maiores hiperescaladoras dos EUA se preparam para investir quase US$ 820 bilhões em inteligência artificial em 2026 — cerca de 80% mais do que se projetava nesta época do ano passado — com base na expectativa de que os retornos se materializem em larga escala. O risco é que essas empresas não consigam cumprir essas ambiciosas expectativas. Embora um relatório recente indique que as receitas provenientes da IA tenham alcançado um ponto de inflexão, uma pesquisa da Bain & Co. com grandes empresas concluiu que, de modo geral, as economias de custos proporcionadas pela IA ficaram abaixo das metas. No ano passado, uma iniciativa do MIT divulgou um relatório segundo o qual 95% das organizações não obtêm nenhum retorno de projetos de IA generativa. Em seu relatório financeiro anual, a Oracle alertou que os investimentos em data centers podem não compensar, citando riscos como estouros de custos de construção, atrasos nas obras e inadimplência ou não renovação de contratos por grandes clientes. Economistas também demonstram preocupação com riscos geopolíticos que podem afetar o setor. Entre eles estão um eventual conflito envolvendo Taiwan, responsável por mais de 60% da produção mundial de chips lógicos avançados, a oposição local à construção de data centers e restrições impostas pelos EUA, como no caso da Anthropic. Ao mesmo tempo, algumas grandes empresas de tecnologia vêm reduzindo seus quadros de funcionários, em parte para compensar os pesados investimentos em IA. O número de empregados no setor de tecnologia da informação caiu em junho e vem recuando há meses. Uma redução mais ampla do emprego representaria um potencial risco macroeconômico no futuro. Qualquer desaceleração dos investimentos pode comprometer os lucros de uma ampla gama de empresas. No primeiro trimestre, companhias americanas com grau de investimento registraram o maior crescimento de lucros em anos, ao mesmo tempo em que consumiram o maior volume de caixa, segundo relatório da gestora DoubleLine Capital LP elaborado pela gestora de portfólio Mariya Entina. Em condições normais, empresas reforçam o caixa quando os lucros são elevados. Naquele trimestre, porém, gastaram esses recursos, afirmou ela. Os níveis de alavancagem aumentaram. Os números refletem o fato de que os investimentos em IA deram uma contribuição desproporcional ao crescimento econômico no primeiro trimestre. Os gastos não beneficiaram apenas as hiperescaladoras, mas também se espalharam para outros setores, segundo o relatório de Entina. O risco de que a tecnologia se torne obsoleta antes do vencimento de títulos de longo prazo é outra preocupação. A Alphabet emitiu neste ano títulos de 100 anos denominados em libras esterlinas, enquanto SpaceX e Nvidia incluíram papéis com vencimentos de 20 e 30 anos em suas emissões. A situação pode se deteriorar rapidamente, como ocorreu na semana passada, quando os primeiros títulos emitidos pela SpaceX perderam valor tão rapidamente no mercado secundário que operadores disseram não se lembrar de outra emissão recente cujos spreads tivessem aumentado de forma tão acentuada. Uma forte queda das ações de fabricantes de chips para IA na mesma semana reforçou esse alerta no mercado acionário. E, mesmo que não haja um evento catastrófico envolvendo a IA, as hiperescaladoras planejam continuar emitindo grandes volumes de dívida durante anos. “O mercado pode parecer de melhor qualidade no papel, mas não está imune ao aumento dos spreads se a oferta continuar crescendo mais rapidamente do que a demanda consegue absorver”, afirmou Steven Kohlenstein, gestor de portfólio de renda fixa da T. Rowe Price Group Inc.