Com investimentos milionários, aquisições e foco em serviços gerenciados, operadoras disputam mercado bilionário com integradores e expandem portfólio B2B Karina Baccaro, diretora de marketing e operações da Vivo — Foto: Divulgação O mercado brasileiro de cibersegurança tem impulsionado os negócios das operadoras de telecomunicações. Trata-se de um segmento competitivo e diversificado, no qual as teles disputam espaço com integradores, provedores de serviços gerenciados, consultorias especializadas e provedores regionais. Para consolidar sua participação e atender à crescente demanda por segurança gerenciada, essas operadoras apostam em investimentos, aquisições e alianças estratégicas com players globais. Um estudo da Fortinet mostra que as operadoras detêm entre 10% e 15% desse mercado no Brasil e, embora 70% delas tenham soluções de cibersegurança, só 9% têm no portfólio serviços avançados. Essa expansão para o modelo gerenciado — onde as operadoras assumem o monitoramento e a resposta a incidentes — atende à demanda do mercado e, ao mesmo tempo, cumpre uma meta vital para o setor, de diversificar as receitas além da conectividade tradicional. “O mercado está migrando de soluções isoladas para arquiteturas integradas de rede e segurança. E o setor de teles possui grande potencial de crescimento devido à capilaridade e à base de clientes”, diz Alexandre Mendes, diretor sênior de Telcos e provedores de serviços gerenciados da Fortinet Brasil. Na visão de Marcelo Ehalt, diretor de canais da Cisco Brasil, a tendência é que a segurança deixe de ser uma solução isolada e passe a ser consumida como um serviço integrado à conectividade, no modelo XaaS (tudo como serviço), especialmente em ambientes distribuídos, multi-cloud e híbridos. Tradicionalmente, as teles estruturaram suas ofertas de segurança na camada de conectividade. Essa proteção básica envolvia ferramentas para blindar as fronteiras da rede — como firewalls (que funcionam como porteiros digitais) e VPNs (túneis criptografados que garantem conexões seguras à distância). O objetivo principal era criar uma barreira nos limites da empresa contra ameaças externas e acessos não autorizados. “Atualmente, observamos uma evolução significativa para serviços mais sofisticados, como proteção contra ransomware, segurança para ambientes multi-cloud, SASE (Secure Access Service Edge), zero trust, detecção e resposta gerenciada (MDR), inteligência de ameaças e operações de SOC (centros de operações de segurança). Essa transformação é impulsionada por investimentos em aquisições, equipes dedicadas e centros de operações de segurança”, comenta Ehalt. A inteligência artificial também acelera essa evolução. Segundo o 2025 Cisco Cybersecurity Readiness Index — que entrevistou 8.000 líderes de segurança e negócios em 30 mercados globais —, 86% das organizações relataram incidentes de segurança relacionados à IA nos últimos 12 meses. Esse cenário exige das operadoras capacidades ainda mais avançadas de proteção e monitoramento para mitigar riscos emergentes. Para Mendes, se as operadoras não avançarem na oferta de serviços, integradores e provedores podem capturar esse mercado. A Fortinet estruturou uma diretoria, com equipes dedicadas para cada uma das teles e atende também provedores regionais (ISPs). “Nosso diferencial em relação ao integrador tradicional é que chegamos com a conectividade já estabelecida. Somos a porta de entrada natural para o cliente corporativo. Isso nos permite oferecer segurança como uma camada integrada à infraestrutura, não como um projeto isolado”, diz Karina Baccaro, diretora de marketing e operações da Vivo. A operadora desenvolveu serviços próprios, investiu em startups e fez aquisições estratégicas. O movimento mais recente foi a compra da divisão de cibersegurança da Telefónica Tech no Brasil — que é o braço global de tecnologia e serviços digitais da matriz espanhola do grupo. Com o negócio, a Vivo integrou mais de 300 especialistas e centralizou as soluções de segurança corporativa sob a sua estrutura nacional. “Ampliamos nosso portfólio, aceleramos o lançamento de produtos e ganhamos ainda mais eficiência no mercado B2B”, relata Baccaro. A receita de serviços digitais B2B (engloba cloud, cibersegurança, big data, IoT, mensageria e serviços de TI) da operadora teve crescimento de 23,8% nos últimos 12 meses. No mesmo período, somente os serviços de cibersegurança cresceram 19%, contribuindo com mais de R$ 300 milhões na receita de serviços digitais da Vivo. Na Claro, os produtos de segurança eram mais voltados para links, firewalls e SD-Wan. Com parcerias e investimentos de mais de R$ 200 milhões nos últimos anos, a operadora passou a oferecer serviços gerenciados de cibersegurança. Na prática, isso significa que a Claro deixou de vender apenas ferramentas isoladas e passou a gerenciar, monitorar e defender toda a estrutura digital das empresas em tempo integral. A operadora treinou uma equipe de mais de 250 profissionais, instalou dois centros de operações de segurança, um no Rio de Janeiro e o outro em São Paulo, para ofertar serviços avançados. Segundo Mário Rachid, diretor-executivo de soluções digitais da Claro Empresas, os negócios com cibersegurança respondem por 15% a 20% do faturamento de sua área. Além de grandes empresas, a Claro oferta os serviços para pequenas e médias e para os clientes residenciais. Na TIM, a segurança digital é hoje um dos pilares centrais da estratégia corporativa, segundo Fábio Costa, vice-presidente de B2B da operadora. “Evoluímos de uma visão pontual de segurança para a ciberresiliência: integramos rede, cloud e segurança em soluções fim a fim, com mais capacidade de prevenção e resposta em ambientes híbridos e multinuvem”, diz.