O setor de telecomunicações vive uma transição marcada pela necessidade de monetização do ciclo de investimentos recente em 5G, o foco na ampliação de margem e novas demandas trazidas pela inteligência artificial (IA). Esse cenário direciona os esforços do setor para o segmento corporativo (B2B), com serviços de ponta a ponta além da conectividade. Internamente, as iniciativas miram eficiência operacional, enquanto a IA surge como nova fronteira tanto como suporte às operações quanto para novas ofertas de alto valor. Os movimentos são globais e acompanhados pelo Brasil. “A transformação estrutural do setor é impulsionada por expansão do 5G, interiorização da fibra óptica, avanço da conectividade em áreas remotas e digitalização acelerada da economia”, avalia o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho. Ele observa a convergência entre telecomunicações, inovação e inclusão digital - enquanto o 5G abre espaço para internet das coisas (IoT), cidades inteligentes, automação industrial e agricultura de precisão, a fibra fortalece a competitividade regional e a qualidade do acesso. Dados do Banco Central analisados pelo ministério indicam que o setor registrou avanço de 20% na atração de capital estrangeiro no ano passado, cerca de US$ 7,4 bilhões, recursos de grupos econômicos e fundos internacionais direcionados à expansão da infraestrutura de conectividade - com destaque para fibra -, implantação do 5G, construção de data centers, serviços de nuvem e infraestrutura neutra. Pesquisa da consultoria IDC com 300 executivos em todo o mundo, 20 deles no Brasil, mostra as prioridades de investimentos do setor. Por aqui, as principais são digitalização e modernização de tecnologia da informação (TI) (56,2%) e IA e cibersegurança (50%), ambas acima da média mundial. Os dados refletem uma nova onda de exigências dos investidores, focada em margem. “Os drivers de investimentos para 2026 a 2028 serão eficiência e automação”, diz Luciano Saboia, diretor de telecomunicações para a América Latina da IDC. Rede como serviço (NaaS) e virtualização são prioridades tecnológicas” Isso envolve, por exemplo, sistemas de suporte a operações (OSS) e a negócios (BSS), apontados pela consultoria como o principal gargalo de transformação das teles brasileiras e essenciais para monetização via serviços dinâmicos que podem ser aplicados sobre as capacidades do 5G (a exemplo de segmentação ou garantia de velocidade), IA e interfaces (APIs) para integrar softwares diretamente às redes das operadoras e permitir acesso a dados como localização em tempo real. Entre as operadoras locais, 43,8% planejam investimentos na área este ano, enquanto apenas 12,5% listam a evolução do 5G e 6,2%, a fibra óptica, entre as três principais tecnologias para a transformação digital, ante a necessidade de consolidação e extração de valor das redes já implantadas. A pesquisa mostrou que as operadoras brasileiras avançam em áreas como serviços de API, oferecidos por 37,5%, e internet das coisas industrial (IIoT) - área de domínio do 5G -, já oferecida por 31,2% e com 25% planejando lançamento em 12 meses. “As prioridades tecnológicas no Brasil são rede como serviço [NaaS], virtualização e infraestrutura definida por software, e os vetores de novas receitas são os serviços B2B”, diz Saboia. Isso inclui segurança cibernética, principal prioridade de automação das redes das operadoras brasileiras em 2026 - o que reflete tanto demanda própria quanto oportunidade de negócios com oferta de serviços integrados à conectividade, posicionando a rede como camada de defesa ativa. O levantamento da IDC apontou que 75% das operadoras locais registraram crescimento no ano passado, 20% delas acima de 10%. No recorte da Conexis, representante das cinco principais operadoras do país (Vivo, Tim, Claro, Algar e Sercomtel), o setor fechou 2025 com R$ 338 bilhões de receita bruta, 1,8% acima do ano anterior. Entre os componentes de receita, a indústria (B2B) cresceu 51%, enquanto o segmento móvel teve alta de 3,9%. Os investimentos alcançaram R$ 36,3 bilhões (praticamente estáveis sobre o ano anterior), direcionados principalmente para aumento de cobertura 5G e expansão de fibra para banda larga fixa. Ao longo de 2025, foram ativados 18,2 milhões de novos acessos 5G. Ao todo, dos 178,6 milhões de acessos no país, 58,2 milhões são 5G, com presença em 1.420 municípios, onde está 76% da população. Enquanto o 5G abre espaço para IoT e automação, a fibra amplia o acesso, diz Siqueira Filho “As empresas estão mudando o perfil de investimento, buscando novas tecnologias, como IA e nuvem, para oferecer serviços fim a fim”, diz Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis. Ele lembra que a associação de IA a telecomunicações é global e perpassa várias instâncias. Uma delas é a reconfiguração das demandas de rede, tradicionalmente montadas com mais foco em recebimento (downlink) do que envio (uplink) de sinais pelos usuários - com o avanço de tecnologias como IA generativa e agêntica, a tendência é que a relação se inverta. Outro ponto é a capacidade da própria IA otimizar recursos de rede e apoiar a criação de novos serviços. O desafio é o equacionamento dos investimentos ante a demanda explosiva decorrente do uso da IA. “Estão em debate divisão do capex e regulação que equilibrem obrigações das telcos e das plataformas que usam a rede”, afirma Ferrari. Ante as demandas, o interesse das empresas do setor na próxima geração tecnológica minguou. Ferrari defende que leilões de frequências para suportar o 6G, por exemplo, só ocorram depois de finalizado o ciclo de investimento previsto para o 5G, em 2029. “Apesar da implantação comercial global prevista para 2030, o Brasil não está olhando para o 6G”, confirma José Marcos Câmara Brito, pró-diretor de pós-graduação e pesquisa do Inatel, que promove pesquisas na área. Um dos desafios é a dificuldade de monetização do 5G. O relatório “Monetização do 5G”, da entidade global voltada a comunicações móveis (GSMA), aponta o serviço de internet fixa sobre a rede móvel (FWA) como o principal sucesso do 5G até agora, já que os negócios B2B enfrentam desafios como concretização mais lenta do que o esperado em áreas como redes privadas e IoT, cuja contribuição para a receita mundial do setor não alcança 3%. Outros modelos bem-sucedidos incluem tarifas baseadas em velocidade, como oferecido pela finlandesa Elisa, garantia de latência e velocidade (como a da AIS, na Tailândia) e venda de conectividade com serviços de terceiros, como streaming ou jogos, um dos modelos adotados no Brasil. “Negócios baseados em ecossistema evitam necessidade de novos investimentos em infraestrutura, desde serviços integrados de internet ou conteúdo até portfólio diversificado de dispositivos conectados em lojas”, diz Ricardo Queiroz, sócio e líder de tecnologia, mídia e telecomunicações da PwC Brasil.
Indústria de telecomunicações foca em serviços B2B
Busca por eficiência e monetização das redes impulsiona mudança estratégica das operadoras, com ofertas em cibersegurança, automação e IA











