A gestão ativa da saúde com a criação de estruturas de atenção primária (APS) é uma das tendências que vêm se consolidando no mundo corporativo: prevenir é melhor do que remediar O aumento do nível de emprego no país amplia o desafio das empresas de oferecer benefícios que fortaleçam a atração e retenção de profissionais e equilibrem a complexa equação dos custos de assistência à saúde. Os planos de saúde são o benefício mais valorizado entre os oferecidos pelas empresas, mas vêm mantendo os índices de reajuste acima de dois dígitos desde o fim da pandemia de covid-19, em 2022. Para essa equação fechar, muitas empresas vêm migrando de um modelo reativo, centrado no tratamento da doença, para a gestão longitudinal da saúde, com ênfase em prevenção e monitoramento. De acordo com a 32ª Pesquisa de Benefícios Corporativos da consultoria Mercer Marsh Benefícios, 66% das mais de mil grandes e médias empresas consultadas fizeram mudanças em seus planos de saúde em 2024 e 81% planejavam adotar novas soluções. — Foto: Arte/Valor Os empregadores destinaram, em média, R$ 409,69 por funcionário em iniciativas de promoção da qualidade de vida e bem-estar em 2024, 11% mais do que em 2023. “A pesquisa revela investimento crescente, com as empresas se apropriando mais da gestão de saúde de sua população, em vez de deixar a responsabilidade somente nas mãos da seguradora”, diz Marcelo Borges, diretor-executivo da Mercer Marsh Benefícios. A gestão ativa da saúde com a criação de estruturas de atenção primária (APS) é uma das tendências que vêm ganhando corpo. O objetivo, ao assumir a coordenação do cuidado e a navegação assistencial acompanhando e orientando a jornada do paciente, é reduzir as idas ao pronto-socorro e a realização de exames redundantes e evitar consultas com especialistas e internações desnecessárias. Marcelo Borges, diretor-executivo da Mercer Marsh Benefícios: As empresas estão se apropriando mais da gestão de saúde de seus colaboradores — Foto: Foto: Divulgação Com 86 mil participantes em seu plano de saúde, entre funcionários e dependentes, a Vivo lançou no fim do ano passado o Hospital Púrpura, um serviço digital de saúde para atendimento dos beneficiários em todo o país. O primeiro contato é feito por um enfermeiro via WhatsApp. Ele faz o acolhimento e direciona o paciente para o atendimento médico virtual. Se houver necessidade, é feito o encaminhamento para o pronto atendimento ou para a realização de exames de diagnóstico presenciais em hospitais conveniados. “Nossa estratégia considera a diversidade geográfica e de perfis da nossa população com um modelo que combina plano de saúde e uso intensivo de soluções digitais para ampliar o acesso e padronizar a experiência, além de uma estrutura de benefícios flexíveis e um ecossistema integrado, que inclui atenção primária, programas de bem-estar e soluções assistenciais coordenadas”, diz Fernando Luciano, vice-presidente de pessoas da Vivo. As operadoras de planos de saúde, consultorias e hospitais disponibilizam o atendimento primário com diferentes formatos. Na Bradesco Saúde, a atenção primária é oferecida por uma rede de 35 clínicas com a marca Doutor Novamed localizadas em sete Estados, que fazem atendimento presencial e por telemedicina. Pioneiro na adoção do modelo de saúde baseado em prevenção, com a criação de unidades exclusivas de checkup para clientes corporativos há mais de duas décadas, o Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, ampliou os serviços de gestão de saúde para empresas com a oferta de telemedicina e programa de saúde mental. Para enfrentar a reação natural a mudanças, é crucial adotar medidas de engajamento de funcionários e dependentes. O endosso da alta gestão, campanhas internas e, principalmente, incentivos são aspectos indispensáveis. Na atenção primária, o maior incentivo é a isenção da coparticipação para quem acessa o benefício de saúde por essas unidades. Não há cobrança, mesmo que o paciente precise usar o pronto-atendimento, realizar exames ou consulta com um especialista. “A comunicação e o incentivo são fundamentais em um modelo como esse; sem ela e sem o engajamento da alta direção, a chance de dar certo é muito menor”, diz Borges, da Mercer Marsh. Soluções baseadas em navegação digital, uso intensivo de dados e inteligência artificial possibilitam acompanhar os indicadores de forma contínua e eficaz, orientar a jornada do paciente e aumentar a resolutividade dos tratamentos. A gestão baseada em dados viabiliza a criação de benefícios segmentados adequados ao perfil de uso e de custos de cada empresa. As medidas para equilibrar custos, que incluem regras de reembolso mais rígidas, cobrança de coparticipação e redução da rede credenciada, têm gerado resultados. Os números da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram tendência de desaceleração no reajuste médio dos contratos coletivos de assistência médico-hospitalar. A taxa de sinistralidade das operadoras médico-hospitalares (relação entre despesas assistenciais e receitas de mensalidades), uma das principais métricas para o cálculo dos reajustes, caiu para 81,7% em 2025, 2,1 pontos percentuais abaixo do ano anterior. Os especialistas ponderam que ainda são necessárias mudanças estruturais para que o equilíbrio entre custos e benefícios se consolide de forma sustentável. Marco Túlio de Carvalho, chief medical officer da consultoria BenCorp, alerta para a necessidade de corrigir alguns vícios do atual sistema de saúde, entre eles a substituição da remuneração de prestadores de serviço por volume de atendimentos para modelos baseados em valor. “O modelo de remuneração por resultados incentiva maior qualidade dos serviços e resolutividade nos tratamentos”, explica.