Tentativa de interferência do governo federal? Mudanças no comando da Previ? Avanço na governança? Antecipação de uma briga que já ocorreria mesmo na próxima assembleia ordinária de acionistas (AGO), em abril de 2027? Cobiça pelos cargos de conselheiros? Ou todas as alternativas anteriores? Até observadores que veem a troca na vaga de Stieler no Conselho como natural — afinal, ele chegou lá pela mão da Previ, quando era presidente da fundação, deixou essa posição em 2023, com a volta do PT ao Palácio do Planalto, mas seguiu na Vale — apontam a estranheza com o momento. Via de regra, as boas práticas recomendam que uma troca de conselheiro do tipo seja feita ao término do mandato, disse uma fonte que pediu anonimato. O de Stieler terminará em abril próximo, assim como o de todos os conselheiros da Vale. Como a fundação de Previdência tem o comando compartilhado entre o BB e os funcionários do banco estatal, a entidade acaba sendo vista como via dos interesses do Planalto nas companhias em que investe. Daniel Stieler, presidente da Vale, discursa durante o Conselho Consultivo Internacional de Líderes Empresariais (IBLAC), em Xangai, na China — Foto: Qilai Shen/Bloomberg Na quarta-feira passada, o colunista do GLOBO Lauro Jardim revelou que, na reunião em que o Conselho convocou uma assembleia extraordinária (AGE) para tratar do pedido da Previ, no último dia 19, o vice-presidente do órgão, Marcelo Gasparino, afirmou que Stieler informou os demais membros do colegiado sobre “fatos graves que tomou conhecimento nos últimos anos”. E listou tentativas de interferência do governo e decisões do Conselho com potencial conflito de interesses. A lista não estava no voto em separado de Gasparino divulgado ao mercado com a ata completa da reunião. O conselheiro citou esse ponto em sua fala, mas não escreveu no voto, segundo outra fonte que acompanha os bastidores da Vale e também pediu anonimato. Previ diz querer mais independência A revelação foi tratada em outra reunião do Conselho, na semana passada, disse a fonte. O presidente da Previ, Márcio Chiumento, que é conselheiro, foi cobrado por declarações da diretora de Participações da entidade, Adriana Chagastelles. Na noite da própria quarta, a Vale publicou um comunicado reafirmando o caráter técnico de decisões sobre os fatos citados por Gasparino. Ao justificar publicamente o pedido de destituição, a Previ argumenta que é uma medida para reforçar o caráter independente dos membros do Conselho da Vale. Ter conselheiros independentes em relação aos acionistas, que ajudam a supervisionar a administração conforme os interesses apenas da companhia, é considera uma boa prática nas companhias sem controle definido, como é a mineradora. E argumenta que os nomes indicados por ela para a vaga de Stieler — José Mauricio Pereira Coelho, presidente da Previ de 2018 a 2021 — e para a presidência do Conselho — Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, executivo com décadas de carreira na mineração, que é conselheiro da empresa desde 2021 — seriam acima de qualquer suspeita. Sem vinculações políticas, não atuariam nos “fatos graves” mencionados por Gasparino na reunião do último dia 19. Para reforçar essa posição, a Previ informou, em comunicado da semana passada, que “não tem a intenção de indicar presidentes do Conselho e apoiará candidatos independentes” na AGO de 2027, que tratará da renovação de todas as vagas do colegiado. Por isso, o pedido de destituição de Stieler antes do fim do mandato pode ser uma estratégia da Previ de antecipar a disputa do ano que vem, disse uma das fontes ouvidas pelo GLOBO. Em companhias sem controle definido, as boas práticas de governança incluem a apresentação, pela administração da empresa, de uma “chapa” de indicados ao Conselho, para serem escolhidos em votação nas AGOs. Qualquer acionista pode indicar outros nomes, mas é comum a maioria seguir a recomendação. E o presidente do Conselho exerce grande influência na formação das chapas. Stieler teria melhores condições, portanto, de trabalhar por sua permanência na alta administração da Vale. O capital pulverizado incentiva que conselheiros profissionais amealhem apoio entre acionistas minoritários para conseguirem votos suficientes para ocupar o cargo, em busca de poder e salários. O presidente do Conselho da Vale tem remuneração anual de R$ 3,3 milhões, lembrou uma das fontes.