A disputa pelo Conselho de Administração da mineradora Vale já começou com tons elevados, após a Previ, fundação de Previdência dos funcionários do Banco do Brasil (BB) e principal acionista da companhia, pedir a destituição do presidente do colegiado, Daniel Stieler. Em reação, Stieler acusou a entidade previdenciária de “falsidade ideológica administrativa” e “abuso do direito de voto”, durante a reunião do Conselho na última sexta-feira, conforme a ata completa do encontro, divulgada ao mercado na manhã desta terça-feira. A Previ, por sua vez, dobrou a aposta na sua posição nesta terça-feira, ao divulgar um comunicado reafirmando que a substituição de Stieler como membro do Conselho da Vale “se insere em um processo natural de renovação e no contexto de evolução das demandas do mercado por maior independência e robustez institucional”. Para reforçar essa posição, a Previ também informa que “não tem a intenção de indicar presidentes do Conselho e apoiará candidatos independentes” na assembleia ordinária da acionistas (AGO) prevista para abril de 2027, que deverá tratar da renovação de todas as vagas do colegiado, como adiantou a ao GLOBO a diretora de Participações da Previ, Adriana Chagastelles. As mudanças pedidas A Previ pediu a convocação de uma assembleia extraordinária de acionistas (AGE) para deliberar a destituição de Stieler numa carta enviada à Vale no último dia 11. Como Stieler preside o Conselho, a destituição implica mais duas decisões: sua substituição como conselheiro e a eleição de um novo presidente. Para a vaga, a Previ indicou José Mauricio Pereira Coelho — presidente da entidade de 2018 a 2021, entre os governos Michel Temer e Bolsonaro, e que já estve no Conselho da Vale. Para a presidência, declarou apoio à candidatura do conselheiro independente (que não tem vínculo com nenhum acionista) Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie. Só que, na reunião de sexta, o Conselho decidiu recomendar aos acionistas que Stieler siga no cargo. E, caso a AGE decida pela destituição, o Conselho aceitou a indicação de Coelho para a vaga, mas, ao mesmo tempo, acrescentou como indicada o nome de Ieda Gomes Yell para disputar com o indicado da Previ. E declarou apoio ao conselheiro Marcelo Gasparino, atual vice-presidente do colegiado, para o cargo de presidente. A reação de Stieler A ata completa da reunião de sexta revela a disputa acirrada entre os conselheiros — que agora deverá ser decidida no voto pelos acionistas, na AGE marcada para 22 de julho. A reação de Stieler, que presidiu a reunião encerrada já no início da noite, pouco antes da partida entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo, veio logo no início. Após as leituras da carta da Previ com o pedido de destituição e do parecer do Comitê de Indicação e Governança (CIG) sobre as indicações feitas, o atual presidente do Conselho leu um discurso de defesa. No texto, publicado em anexo à ata, Stieler diz que as “justificativas específicas” apresentadas pela Previ para pedir a destituição “podem ser confrontadas pelos indicadores positivos, ausência de processos e boa relação com o board (Conselho), de forma que a justificativa oficial torna-se uma falsidade ideológica administrativa”. Ainda segundo Stieler, “a companhia apresentou evolução consistente em eficiência operacional, disciplina de capital, retorno aos acionistas e avanços relevantes em sustentabilidade e segurança”. E, embora “sempre existem oportunidades de melhoria”, “a questão central é avaliar se uma mudança de liderança neste momento agrega valor superior ao risco inerente de uma transição em um ciclo operacional e estratégico favorável”. “Destituir um gestor eficiente sob falsos pretextos pode ser interpretado como um ato que visa atender a interesses particulares do acionista em detrimentos do interesse da companhia, resta configurado o abuso do direito de voto”, diz a carta de defesa de Stieler. Previ nega interferência política Os “interesses particulares” da Previ são frequentemente associados à interferência política do governo federal. Como a fundação de Previdência tem o comando compartilhado entre o BB e os funcionários do banco estatal, a entidade acaba sendo vista como via dos interesses do Planalto nas companhias em que investe. O fato de que, assim como os demais membros do Conselho, o mandato de Stieler como conselheiro está perto de terminar, em abril de 2027, alimenta questionamentos sobre os motivos por trás do movimento da Previ. Ao GLOBO, a diretora Adriana negou ingerência política e disse que a Previ já planejava a saída de Stieler desde a virada do ano, para refutar quaisquer suspeitas sobre o momento de pedir a troca. Assim como no comunicado desta terça-feira, Adriana reafirmou a intenção de aumentar a independência da governança da Vale.