Em boa parte dos dias, o trabalhador brasileiro acorda antes do sol nascer e já sente um grande peso no próprio peito. Antes mesmo do café, em muitos casos acompanhado de um singelo pão francês com manteiga, e antes mesmo de a rua encher, vem uma sensação estranha, junto com a dúvida sobre quanta força ainda cabe dentro de uma vida.

A pessoa trabalha, corre, aceita serviço debaixo de chuva, agradece a oportunidade, engole o cansaço, engole o choro e tenta sorrir para a desilusão não contaminar mais um dia. Por fora, procura seguir em frente. Por dentro, vai juntando uma mágoa difícil de nomear.

Porém, é muito mais do que uma mágoa. Existe uma dor espalhada nas ruas. É a dor de quem trabalha muito e, mesmo assim, sente que não sai do mesmo lugar. Acorda cedo, pega condução, sua, faz bico, conta o dinheiro e, no fim do dia, descobre que todo aquele esforço não consegue entregar quase nenhuma segurança.

E existe uma cena muito brasileira: um trabalhador parado na avenida Paulista, cercado por prédios altos, olhando para cima como quem olha para outro planeta. Ali está um antigo centro financeiro, o vidro brilhando, algumas fachadas e o dinheiro circulando em andares onde quase ninguém da rua entra.