Presidente do partido diz que tentará convencer ex-primeira-dama sobre importância da aliança com Ciro Gomes, na disputa no Ceará Valdemar: presidente do PL citou apoio a Moro, sem questionamentos de Michelle, para realçar importância do pragmatismo — Foto: Beto Barata Diante da crise interna no PL, provocada pelo vídeo em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tornou públicas as desavenças com o enteado mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), que é o presidenciável do PL, a expectativa para os próximos dias é de uma conciliação, ou pelo menos, uma trégua entre ambos. É com esse objetivo que o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, se reunirá com Michelle na terça-feira (30). Leia mais: Ao Valor, Valdemar disse que o papel de Michelle, que é presidente nacional do PL Mulher, nas eleições “é muito importante” para o partido e para a campanha presidencial de Flávio. Ele adiantou que tentará convencê-la de que a chapa da direita no Ceará, encabeçada pelo ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), é a opção mais competitiva para enfrentar a hegemonia local do PT. O Estado é governado pela centro-esquerda há mais de duas décadas, e uma chapa puro-sangue de direita, defendida por Michelle, seria pouco competitiva, na visão do dirigente. O vídeo de Michelle publicado em suas redes no dia 24, no qual acusou Flávio de maltratá-la e humilhá-la, caiu como uma bomba sobre a campanha do presidenciável. A repercussão nas redes sociais foi tão avassaladora que ofuscou a crise no comitê pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o afastamento do senador e amigo Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado, diante das acusações de envolvimento na crise do Banco Master. Circularam teorias de que Michelle tentaria puxar o tapete de Flávio, disputando com o enteado o posto de líder do bolsonarismo, e herdeira política direta do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas diversas lideranças do PL rechaçam essa hipótese. Uma fonte da sigla disse ao Valor que Bolsonaro já decidiu que seus sucessores são os filhos, e que Flávio é o protagonista deste processo na eleição de 2026. No vídeo em questão, Michelle reforçou sua insatisfação com a aliança do PL no Ceará, pela qual o partido apoiará a candidatura de Ciro Gomes ao governo. Conforme acordo que começou a ser costurado ainda na eleição municipal de 2024, o PL terá uma das vagas da chapa ao Senado. A outra vaga caberá ao presidente do União Brasil no Estado, o ex-deputado Capitão Wagner, e a vice será de Roberto Cláudio, aliado de Ciro, também do União. Na cota do PL, a vaga ao Senado coube ao deputado estadual e pastor Alcides Fernandes, que é pai do deputado federal André Fernandes, presidente da legenda no Ceará. Michelle alegou, no vídeo, que não concorda em apoiar Ciro Gomes porque, no passado, ele fez duras críticas a Bolsonaro, chamando o marido e os filhos dele de corruptos e bandidos. A chapa desejada por Michelle contempla o senador Eduardo Girão (Novo) para o governo, e as duas vagas ao Senado ficariam para o PL: uma para o pastor Alcides Fernandes, e a outra com a deputada federal Priscila Costa, que é sua aliada e vice-presidente do PL Mulher. No vídeo, ela argumentou que o apoio a Ciro Gomes poderia se dar na segunda fase. “Não estou exigindo que se desfaça nenhuma aliança no Ceará, mas que adiem para o segundo turno”, afirmou. “A coerência obriga que isso aconteça apenas no segundo turno. É preciso dar chance ao candidato que verdadeiramente se enquadra e defende os nossos valores”, sustentou. Ao Valor, Valdemar acrescentou que Michelle tem sido contemplada pelo PL em suas demandas e indicações em outros Estados. Citou como exemplo a escolha do nome da deputada federal Caroline de Toni (PL), que será candidata ao Senado em Santa Catarina, dividindo a chapa com o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL). Ao mesmo tempo, Valdemar observou que o PL terá o senador Sergio Moro como candidato ao governo do Paraná. Lembrou que Moro saiu rompido com Bolsonaro do governo quando deixou o Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Depois, contudo, eles se reconciliaram, e Moro declarou apoio à reeleição de Bolsonaro em 2022. Ponderou que, nesse caso, Michelle não questionou o nome de Moro. Valdemar teve de antecipar o retorno dos Estados Unidos, onde tiraria alguns dias de férias, para apagar o incêndio na família Bolsonaro. Não é a primeira vez. No começo de abril, ele foi obrigado a intervir no embate público entre o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), “influencer” e campeão de votos do partido, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, briga que também respingou na candidatura de Flávio. Mas Valdemar impôs sua autoridade, e logo organizou um ato, relativo ao lançamento da pré-candidatura ao Senado de Domingos Sávio (PL-MG), a fim de colocar Nikolas do lado de Flávio, reafirmando o apoio do parlamentar ao presidenciável. Michelle não poupou acusações a Flávio no vídeo. Alegou que ele “foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone”. Ela acrescentou que ele teria afirmando que ela deveria “ficar fora das decisões do partido”, e que ela “não entendia nada de política”. Diante dos ataques, e constrangido pela liderança de Michelle, que se tornou influente não apenas entre as mulheres, como também entre os evangélicos, Flávio teve de pedir desculpas à madrasta. Em vídeo, ele se disse de “coração aberto” e que não teve a intenção de ofendê-la. “Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil”, afirmou o presidenciável. Na sexta-feira (26), tratou o assunto como “página virada”. No sábado, em evento em Goiânia, Valdemar se esquivou de jornalistas e disse que o ex-presidente o havia “proibido de falar”.