Tendências gerais conhecidas, possíveis efeitos de políticas públicas, e artifícios um tanto suspeitos em algumas redes estaduais explicam queda de reprovação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Colégio estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, passou a se chamar Colégio Senor Abravanel, em homenagem a Silvio Santos, mas projeto de lei que retomar o antigo nome — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo, 14-07-2015 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 28/06/2026 - 19:42 Queda nas Reprovações no Brasil: Desafios de Aprendizagem Persistem A recente queda nas taxas de reprovação e abandono escolar no Brasil, destacada pelo MEC, reflete um aumento na aprovação, especialmente no ensino médio. Enquanto políticas públicas como a expansão do tempo integral são promovidas, a real eficácia carece de estudos mais profundos. Além disso, flexibilizações nas regras de transição, como no Rio de Janeiro, levantam questionamentos sobre a verdadeira qualidade da aprendizagem, já que a aprovação não necessariamente indica melhoria educacional. A discussão destaca que, embora a redução da reprovação seja positiva, os desafios na aprendizagem permanecem, exigindo soluções mais abrangentes para superar as deficiências educacionais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Redução no abandono e na reprovação, combinada com aumento da aprovação, especialmente no ensino médio. Todas essas são notícias positivas, reveladas na semana passada pelo MEC. Suas causas misturam tendências gerais conhecidas, possíveis efeitos de políticas públicas, e artifícios um tanto suspeitos em algumas redes estaduais. Não é possível ainda mensurar o peso de cada uma, mas identificá-las é importante para melhor compreender o fenômeno. A melhoria do fluxo escolar vem acontecendo desde a década de 90. Até o final do século passado, o percentual de alunos que abandonavam a escola ou repetiam de série e ficavam atrasados era absurdamente alto até para padrões de países em desenvolvimento. O avanço nesses indicadores de acesso e permanência, portanto, era o mínimo que o sistema precisava entregar, e o processo segue em curso. O governo federal bateu bumbo para suas políticas, como a expansão do tempo integral e o Pé-de-Meia. Nada de novo, sobretudo em ano eleitoral. Mas o real impacto desses programas carece de estudos mais precisos, pois a simples comparação dos indicadores antes ou depois comprova no máximo correlação, mas não necessariamente causalidade. E, mesmo que tenham alguma eficácia atestada, é preciso também avaliar se as ações são eficientes, considerando seus resultados e os recursos envolvidos. Daí vamos ao terceiro fator: movimentos atípicos de algumas redes estaduais. Reportagem de Bruno Alfano no GLOBO mostrou que o aumento da aprovação no ensino médio foi maior em estados que flexibilizaram regras de transição. Foi o caso do Rio de Janeiro, que passou a permitir que o aluno passasse de ano mesmo reprovado em seis disciplinas. Como esse é um dos dados que compõe o Ideb, muito provavelmente veremos um avanço no indicador dessas redes, mesmo sem melhoria na aprendizagem. O crescimento acentuado e súbito — de um ano para o outro — nas taxas de aprovação em algumas redes soa mesmo como um truque para aparecer bem no Ideb. Mas esse é um tema a ser debatido com profundidade. Apesar de causar muita controvérsia, há sólida literatura acadêmica comprovando que a reprovação é péssima estratégia pedagógica, pois, salvo casos específicos, não leva a mais aprendizagem, e ainda aumenta as chances de evasão. O Brasil abusou da repetência no passado, e isso não resultou em qualidade. Imagine um paciente com uma grave doença, sendo tratado com um medicamento comprovadamente ineficaz, com efeitos colaterais. Se deixar de tomar o remédio, esses efeitos colaterais tendem a desaparecer, o que é positivo, mas a doença continuará lá. O Brasil tem um grave problema de aprendizagem, que não vai desaparecer apenas com políticas de melhoria da aprovação, mesmo que elas reduzam a evasão. E nossos patamares de desempenho são tão baixos que é possível até diminuir a reprovação sem que isso tenha tanto impacto na aprendizagem, caminho já percorrido por algumas redes. Só que o problema no ensino médio brasileiro é tão grave que mesmo os estados que lideram rankings apresentam resultados insatisfatórios. Não há rede pública onde o percentual de estudantes com aprendizagem adequada supere os 50% em língua portuguesa ou 10% em matemática. Até mesmo a rede privada aqui deixa a desejar, considerando que atendem famílias de maior renda, mas têm apenas 31% dos alunos com aprendizagem adequada em matemática e 67% em língua portuguesa. Termos mais jovens permanecendo e concluindo a educação básica é um feito digno de nota, mas celebrações mais efusivas só se justificam quando avançarmos para valer também na aprendizagem.