Nos jogos de futebol do colégio Padre Antônio Vieira, eu sempre tentei fazer o que o Zico fazia: jogar centralizado, procurando o passe final para o "Nunes" da turma ou arrancando em direção ao gol. Muitas crianças faziam isso, Brasil afora. Hoje, sinto falta do Zico. No Flamengo e na seleção. Mas não é apenas do Zico que sinto falta. Sinto falta também do tipo de jogador que ele era.
Durante décadas, o futebol brasileiro produziu pontas de lança. Não eram meias nem atacantes. Jogavam entre essas duas zonas. Recuavam para organizar, tabelavam e arrancavam em direção ao gol, davam o passe decisivo e faziam gols. Pelé, Tostão, Zico e Sócrates.
Hoje em dia, o ponta de lança é um jogador em extinção. As equipes ficaram mais compactas, os espaços entre o meio-campo e a defesa diminuíram e quase todos passaram a ter obrigações sem a bola. O antigo ponta de lança podia economizar energia na marcação porque sua missão principal era inventar e concluir.
Hoje, quem ocupa a mesma faixa do campo precisa pressionar volantes, fechar linhas de passe, recompor e participar de uma organização defensiva muito mais rigorosa.
Muita gente pensa que isso é culpa exclusiva dos treinadores e de seus intensos sistemas de marcação. Mas isso é apenas parte da história. Os treinadores não eliminaram os pontas de lança por maquiavelismo. Foi por conta da evolução do preparo físico no esporte.Na correria de hoje em dia, não sobra tempo para pensar, sobretudo para quem joga no meio, a área mais congestionada do campo. Uma coisa é receber a bola na ponta, outra é receber a bola centralizado, cercado por uma legião de Usain Bolts famintos de bola, tendo uma fração de segundo para matar, limpar o lance e partir com a bola para cima da defesa.









