A questão que tem dominado as discussões ao redor do mundo é se a IA substituirá o trabalho humano. Para muitas pessoas essa resposta é clara e objetiva: sim, muitos empregos serão perdidos. No entanto, essa situação não é linear e, portanto, as respostas não são tão simples. O melhor é recolocar a questão com maior profundidade: quando conhecimento, memória, cálculo e execução deixarem de ser escassos, qual será o novo fator de produção da economia? A economia sempre girou em torno de recursos escassos — justamente porque a humanidade tem demandas ilimitadas. Talvez este seja o primeiro momento da história em que robôs com IA incorporada deixam de competir com pessoas Foto: Pedro Pardo/AFPPUBLICIDADEAo longo dos tempos, a riqueza mudou de dono conforme mudava o recurso mais raro. Num primeiro momento a terra era escassa, assim quem a possuía controlava riqueza e poder. No século 19 o capital físico tornou-se o recurso decisivo. Máquinas, fábricas e ferrovias passaram a determinar quem produzia mais. No século 20, o conhecimento tornou-se o fator de vantagem competitiva. O diploma passou a ser um ativo econômico. Agora com a IA o conhecimento está cada vez menos escasso. Ela não “sabe” como um humano sabe, mas consegue produzir algo economicamente equivalente em milhares de situações. Interessante notar que, quando algo deixa de ser escasso, deixa de gerar renda extraordinária. O caso chinês pode ser visto como um laboratório.PublicidadeDurante décadas, a China construiu sua riqueza com abundância de trabalhadores. Agora ocorre exatamente o contrário — menos jovens, mais idosos, portanto, menos trabalhadores. A grande fábrica do mundo passa a sofrer falta de mão de obra por envelhecimento populacional. Talvez este seja o primeiro momento da história em que robôs com IA incorporada deixam de competir com pessoas. Eles não substituem o trabalho humano, passam a substituir pessoas inexistentes. A lógica é alterada: se os robôs executam, se a IA produz conhecimento. Qual passa a ser o trabalho propriamente humano? Aquilo que nos diferencia de tudo mais: a nossa capacidade de julgamento, assumir responsabilidade, de colocarmos as coisas em perspectivas, na confiança no outro, e principalmente discernimento. Durante muito tempo acreditamos que conhecimento era o recurso mais valioso da economia. A inteligência artificial promete tornar conhecimento e execução abundantes. Assim, o verdadeiro ativo escasso do século 21 é o bom senso. Não o bom senso como opinião ou instinto, mas como entendia Aristóteles — a capacidade de julgar bem diante da incerteza, de escolher entre alternativas imperfeitas e de assumir responsabilidade pelas consequências. A IA poderá produzir respostas melhores do que nós, mas continuará sendo tarefa humana decidir qual delas merece ser seguida.Publicidade
A vantagem competitiva no século 20 era o conhecimento; agora, com a IA, é o bom senso
A inteligência artificial poderá produzir respostas melhores do que nós, mas continuará sendo tarefa humana decidir qual delas merece ser seguida
IA torna conhecimento abundante; o novo ativo escasso é o bom senso — capacidade de julgar sob incerteza. Para CTOs e managers, o valor humano agora é decidir qual resposta da IA merece ser seguida e assumir responsabilidade.











