Um desastre natural nunca vem sozinho. Além de resgatar vítimas do dano material e físico, as autoridades devem lidar com o fracasso e com a fragilidade de seus sistemas de resgate —como é o caso agora com a Venezuela. Os dias e semanas depois dessas tragédias trazem outros problemas, os políticos, e estes podem abalar governos.

Na própria Venezuela, um terremoto em 1812 atingiu Caracas em pleno processo de independência. Os líderes monarquistas e parte do clero interpretaram a tragédia como um castigo divino pela rebelião contra a Coroa espanhola. A resposta dos independentistas liderados por Simón Bolívar foi transformar o desastre em símbolo de resistência, rejeitando a leitura religiosa e incorporando o episódio ao discurso da emancipação.

Outro exemplo é o terremoto que atingiu a Nicarágua em 1972 e que contribuiu para desmoralizar a ditadura dos Somoza e acelerar o avanço da Frente Sandinista. O terremoto destruiu o centro de Manágua.

A ajuda internacional foi enorme, mas grande parte dos recursos foi desviada pela família Somoza. As denúncias de corrupção provocaram indignação entre empresários, setores da Igreja, parte da classe média e da elite econômica, grupos que até então sustentavam a ditadura. Muitos desses apoios migraram para a oposição, e diversos historiadores consideram que a tragédia acelerou o processo que culminaria com a queda da dinastia Somoza.