Não conheço antídoto melhor contra o cinismo e o autoengano, pragas gêmeas que corroem os cérebros da nossa espécie neste século, do que a ficção científica da americana Ursula K. Le Guin, que nos deixou em 2018. Ao ler nesta semana declarações de poderosos brasileiros sobre petróleo que só posso classificar como obscenas, o que me veio à cabeça é um diálogo do romance "Os Despossuídos", publicado pela autora em 1974.
No trecho do livro a que me refiro, dois físicos, membros de sociedades muito diferentes, estão discutindo geopolítica. Um deles, Demaere, proclama ser um realista: "Tanto o político quanto o físico lidam com as coisas tais como elas são, com forças reais, as leis básicas do mundo", diz ele. O outro, Shevek, responde com justificada ferocidade a essa conversinha mole:
"Você coloca as suas ‘leis’ mesquinhas e miseráveis, feitas para proteger a riqueza, as suas ‘forças’ compostas por armas e bombas, no mesmo nível que a lei da entropia e a força da gravidade? Sua mente caiu no meu conceito, Demaere!"
Diz o livro que Demaere passou o resto da vida recordando com vergonha o episódio. No mundo real, não tenho esperanças de que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o presidente da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Luiz Cesio Caetano, em algum momento sintam vergonha das patacoadas que proferiram sobre combustíveis fósseis. Aliás, Chambriard se declarou sem-vergonha, no sentido estrito do termo.







