Alvo de operação da Polícia Federal (PF) na semana passada, o senador Jaques Wagner (PT) afirmou na quinta-feira que reclamou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da atuação da corporação. A declaração ocorreu em entrevista à Folha de S. Paulo. Um dos motivos de crítica citados pelo parlamentar foi a divulgação da imagem de um montante de US$ 49 mil (o equivalente a R$ 253 mil na cotação atual) em espécie em um quarto do hotel Brasília Palace, onde o senador costuma ficar quando está em Brasília. — Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF? Esse processo era comum na Lava-Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta — disse Wagner. Wagner, que é pré-candidato ao Senado, deixou a liderança do governo Lula na Casa nesta semana após ser alvo de investigações sobre a suposta atuação do parlamentar a favor do Banco Master em troca de “vantagens indevidas”. Na entrevista, o senador admite relação com Augusto Lima, que foi sócio do Master, mas nega ter sido favorecido comercialmente. — O presidente várias vezes me perguntou, e eu continuo afirmando para ele: não tem nenhuma relação comercial entre mim e Augusto Lima, muito menos com o Master. Conheci Augusto Lima no processo de privatização (do Cesta do Povo). Criou-se uma relação. Sei que muita gente tem consultorias espalhadas pelo país. Eu poderia ter uma consultoria, não poderia? Não tenho. A Polícia Federal está construindo uma tese de que essa empresa da minha nora na verdade foi construída para me servir. Não tenho nada a ver com a empresa. Wagner também afirma acreditar que os desdobramentos do caso não terão impacto sobre Lula. — Quem está sendo atacado? Eu, não o Lula. Amanhã eu vou para a rua. Estou dando entrevista pra você, mas a minha melhor entrevista é quando eu for para a rua. Vamos ver. Pressão crescente A costura política até o desfecho de Wagner fora do cargo envolveu integrantes do Palácio do Planalto, como o ministro Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social), e aliados de Lula no Congresso. Os defensores da troca temiam ver esvaziado um discurso crítico às fraudes do Master usado para atacar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula. Governistas apontaram o “constrangimento” com o cumprimento de mandados de busca e apreensão, o que incluiu a divulgação de uma foto de US$ 49 mil em espécie encontrados no quarto de hotel em que Wagner costuma ficar em Brasília. Ao todo, levando-se em conta também o montante em dólares e euros encontrados em um endereço do senador em Salvador, os agentes da PF recolherem o equivalente a R$ 482 mil, de acordo com a cotação atual. Wagner resistiu por dias a sair do posto, mas a pressão aumentou junto com a avaliação de que as explicações apresentadas por ele foram insuficientes. No Planalto, a permanência dele era considerada insustentável. A situação foi discutida em uma reunião do núcleo de campanha na segunda-feira. A avaliação feita foi de que o PT deve manter apoio irrestrito às investigações da fraude bancária do Master “alcance quem alcançar”. Aliados também apontam que o fato de Wagner ter dito diversas vezes que não havia possibilidade de vir à tona relações suas com o Banco Master o enfraqueceram no posto. Até mesmo entorno do senador considerou desastrosa a entrevista de Wagner no dia da operação da PF. À Band News, ele afirmou que iria continuar no cargo de líder do governo até decisão contrária de Lula. O parlamentar também disse que o presidente falou com ele para prestar solidariedade. Para governistas, havia necessidade de troca na liderança para que fosse possível “mudar de assunto”. Lula tem até 4 de julho para participar de inaugurações — depois disso, a lei eleitoral veda iniciativas do tipo. O presidente planeja idas a Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, onde perdeu para Jair Bolsonaro em 2022, e uma passagem pela Bahia. Lula irá ao estado de Wagner participar das comemorações do 2 de Julho, data da Independência da Bahia. Também está prevista a inauguração de um hospital em Alagoinhas, a reinauguração do Teatro Castro Alves, na capital, e o lançamento do canteiro de obras da ponte que vai ligar Salvador à Ilha de Itaparica. Relação estremecida Wagner também foi perdendo força na bancada do PT no Senado. Petistas abriram conversas sobre a substituição, e a senadora Teresa Leitão (PT-PE) foi a escolhida. A PF afirmou que Wagner manteve interlocução com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, durante a tramitação de propostas no Congresso sobre crédito consignado e o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e ainda durante a fiscalização parlamentar sobre a compra do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). A Polícia Federal aponta uma correlação entre tais atuações e supostas “vantagens econômicas indevidamente” recebidas pelo parlamentar, como o uso gratuito de aeronaves de Augusto Lima e do Banco Master; o recebimento de ingressos de alto valor para shows no exterior; a compra de um apartamento; e pagamentos à empresa vinculada a seu núcleo familiar. Investigação Segundo a corporação, a atuação de Wagner na pauta do crédito consignado, por exemplo, em 2022, ocorreu em “contexto temporal próximo” ao início de relações contratuais entre o Master e uma empresa da família do senador. Já durante a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição ligada ao FGC, a Polícia Federal identificou uma sequência de contatos entre o enteado do senador, Vorcaro, o chefe de gabinete do parlamentar e Augusto Lima. Os investigadores dizem que em agosto de 2024, no dia em que uma emenda foi incluída na PEC, Lima ligou para Jaques e, em seguida, encaminhou ao parlamentar o link do texto. A defesa de Wagner recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para anular a decisão que autorizou a busca e apreensão contra o parlamentar na semana passada. Em nota, o advogado Pablo Domingues diz que apresentou recurso e busca a anulação “apontando erros graves que comprometem a medida”. O texto diz ainda que há equívocos na decisão porque o parlamentar “jamais atuou no Congresso para favorecer” a instituição financeira. Domingues reforça que o dinheiro encontrado em endereços ligados ao parlamentar têm “origem lícita e comprovada”.