Petroquímica recorre à Justiça após tentativa de renegociação fracassar. Credores classificaram proposta como ‘totalmente insatisfatória’ e fizeram exigências que a companhia considerou ‘inaceitáveis’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Dois meses após a chegada da IG4, nova controladora, Braskem busca medidas judiciais e extrajudiciais para se proteger — Foto: Edílson Dantas/Arquivo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/06/2026 - 22:29 Braskem Busca Proteção Judicial Após Fracasso em Renegociar Dívida A Braskem enfrenta uma crise financeira agravada por uma tentativa fracassada de renegociação de dívida, levando a empresa a recorrer à Justiça para se proteger contra cobranças antecipadas. A proposta de reestruturação da dívida foi considerada insatisfatória pelos credores, que exigiram condições inaceitáveis para a companhia. Com uma dívida líquida de US$ 8,483 bilhões, a Braskem busca medidas judiciais para evitar um possível pedido de recuperação judicial. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Dois meses após conseguir um novo sócio controlador, a IG4 Capital, a gigante da indústria petroquímica Braskem anunciou ontem que tomou medidas judiciais e extrajudiciais para se proteger da cobrança antecipada de dívidas por parte de seus credores, após o fracasso de uma primeira rodada de negociação para reduzir o endividamento. Como reação, as ações da Braskem tombaram 10,5% ontem, a R$ 6,82, a maior queda do Ibovespa, o principal índice da B3. No ano passado, a Braskem registrou prejuízo líquido de R$ 11 bilhões. A dívida líquida encerrou o primeiro trimestre em US$ 8,483 bilhões (R$ 44 bilhões), 16,8 vezes a geração de caixa recorrente anual. Se nada for feito, a projeção é encerrar o ano com caixa negativo em US$ 821 milhões (R$ 4,2 bilhões), segundo o plano de reestruturação apresentado aos credores pela nova administração da companhia. Para 2027, o quadro é ainda mais difícil: rombo de US$ 1,981 bilhão (R$ 10,3 bilhões). A tempestade perfeita da Braskem inclui, além do endividamento excessivo, a novela em torno da venda de seu controle pela Novonor — novo nome do Grupo Odebrecht —; gastos e baixas contábeis associados ao desastre ambiental em antigas minas em Maceió (AL); e uma falta de competitividade crônica, num ciclo de baixa da indústria petroquímica global, que pode ter uma reviravolta com a guerra no Oriente Médio. A novela da Novonor foi desatada em abril, com o anúncio do acordo para a gestora IG4 Capital, especializada na aquisição de empresas em dificuldades, ficar com o controle. Valores não foram oficialmente revelados, mas o negócio envolveria R$ 20 bilhões, segundo vinha sendo comentado desde o fim de 2025. A operação teve o aval da Petrobras — a estatal é sócia minoritária da petroquímica, com participação relevante, e principal fornecedora de matérias-primas. ‘Dúvida sobre seriedade’ A IG4 Capital assumiu o comando tendo a renegociação da dívida como medida mais urgente. O caminho escolhido foi a recuperação extrajudicial — nesse processo, a companhia endividada negocia um acordo com os credores e depois homologa tudo em contratos. As negociações começaram no início do mês, envolvendo R$ 50 bilhões em dívidas, segundo o jornal Valor. O grupo dos credores foi reforçado neste mês pelas gestoras americanas Elliott Investment Management e Strategic Value Partners, gigantes especializadas em investir em títulos de dívida de empresas em dificuldades, que compraram partes da dívida, como revelou a agência Bloomberg. As negociações corriam sob um acordo de confidencialidade, mas o contrato previa que a petroquímica deveria divulgar tudo — o que foi feito ontem, em comunicados. Os documentos relatam que representantes da Braskem tiveram uma reunião com o comitê de credores no dia 11, para apresentar sua proposta de reestruturação. O plano previa, entre outros itens, dilatar em cinco anos os prazos de vencimento dos títulos de dívida, incluindo um alívio no pagamento de juros e uma redução de 2 pontos percentuais nas taxas de todos os papéis, com a recuperação extrajudicial ainda este mês. Os credores não gostaram nada. Segundo resposta publicada junto dos documentos de ontem, “a proposta apresentada pela companhia foi totalmente insatisfatória”. “A inclusão do conceito de redução do cupom de juros — algo praticamente inédito em uma reestruturação de dívida corporativa — levanta dúvidas sobre a seriedade com que a companhia conduziu sua abordagem de negociação, especialmente considerando a participação de tantas partes sofisticadas e experientes na elaboração dessa proposta”, diz a resposta do comitê de credores. Uma contraproposta exigiu proteções adicionais, como mais garantias, reembolso de gastos com viagens dos representantes dos credores e até a exigência de participação “direta e de boa-fé” de representantes da Petrobras — a estatal informou ao GLOBO que não comentaria. A tréplica da Braskem foi negativa. Segundo o comunicado, os termos da contraproposta são “inaceitáveis”, o que fez a companhia indicar que “não concordaria com a Proposta do Investidor”. Diante do impasse, a proteção contra os credores financeiros se tornou necessária. De um lado, a Braskem iniciou um processo de mediação perante a Câmara Wind de Mediação. De outro, protocolou pedido de Tutela de Urgência Cautelar perante a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), pedindo a suspensão de cobranças. “As medidas envolvem apenas os credores financeiros”, frisa o comunicado da Braskem. Se o impasse resultar num pedido de recuperação judicial, e receber aval do Judiciário, todas as cobranças contra a Braskem seriam suspensas, inclusive com fornecedores e empregados. Procurada, a Braskem informou que não faria comentários adicionais ao que foi divulgado ao mercado. Colaborou Paulo Renato Nepomuceno