Quanto vale a memória histórica e política de uma cidade? Até que ponto ela deve ser preservada em face da “­necessidade­” de adaptação aos tempos modernos? No Rio de Janeiro, essa discussão ganhou corpo no fim de maio, quando a 14ª Vara de Fazenda Pública derrubou a liminar que embargava a construção de um prédio residencial no Buraco do Lume, no Castelo, espaço pulsante do centro da cidade e ponto de encontro da esquerda carioca desde o início do processo de redemocratização do Brasil, nos anos 1980.

Hoje, o Rio sofre uma dupla pressão exercida, de um lado, pela gentrificação que expulsa os cariocas para as periferias e, de outro, pela política municipal que aposta na transformação da capital em mero balneário dedicado ao turismo. A construção de um edifício de 20 andares e 624 apartamentos na Praça Mário Lago, onde está localizado o Buraco do Lume, prevê ainda a supressão de 58 das 71 árvores existentes no local. Considerado uma das joias da coroa do projeto “Reviver Centro”, o prédio já nascerá com a vocação de servir a aluguéis por temporada, necessidade fundamental na Las Vegas tropical idealizada pelos Eduardos (Paes e ­Cavalieri­) à frente da prefeitura nos últimos anos.

“O projeto de cidade da prefeitura está alinhado aos interesses da especulação imobiliária há tempos”, lamenta o deputado federal Chico Alencar, do PSOL, autor da ação que resultou na suspensão da obra no Lume. Ele cita como exemplos a Zona Portuária e a região da Praça Mauá, que continuam com poucos moradores. O mercado imobiliário, diz o parlamentar, está mais interessado em vender estúdios. “É um eufemismo para o que se conhecia como quitinete. São apartamentos minúsculos, que não servem para moradia de uma família. Esse tipo de imóvel se presta mais a aluguel por temporada. Com o surgimento do Airbnb, esse filão do mercado cresceu. Enquanto isso, o Rio segue sem planejamento para enfrentar seu déficit habitacional”, diz.