Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. "Como falar sobre o luto com crianças pequenas? Meu filho de 8 anos perdeu um animal de estimação e parece não entender que ele não vai voltar. Fico me perguntando como agir quando uma pessoa próxima morrer... " Eu fui uma criança exposta ao luto muito cedo: minha mãe morreu quando eu tinha apenas 7 anos. Tenho lembranças pouco claras sobre aquele momento, mas uma memória ficou: eu não entendi, de imediato, que minha mãe não iria voltar. Sei que meu pai e meus familiares mais próximos fizeram tudo que podiam para me explicar o que estava acontecendo, enquanto atravessavam aquele momento. Mas sinto, até hoje, que muitas cicatrizes ficaram abertas por muito tempo, porque eu não fui devidamente acompanhada naquele processo. Nesta semana, especialistas explicam como conversar sobre a morte com crianças pequenas e por que o uso de metáforas pouco claras nem sempre é a melhor forma de abordar o assunto. Palavra das especialistas 👩🏫👨🏫 Cristiane Assumpção - Psicóloga, especialista em luto e autora do livro-caixinha 'Luto da Criança' (Matrix Editora) 🐾 Quando uma criança passa por uma perda, no caso dele, do animalzinho de estimação, pode sentir tristeza, raiva, medo e culpa. Por isso, uma das atitudes mais importantes é não ter medo de falar sobre o que aconteceu. 💬 Na tentativa de proteger a criança do sofrimento, muitos adultos evitam o assunto ou usam explicações mais suaves, como "ele foi dormir", "foi viajar" ou "virou uma estrelinha". Embora essas frases sejam ditas com amor, elas podem gerar confusão, especialmente para as crianças menores. Sempre que possível, procure responder com honestidade e simplicidade, respeitando a idade da criança e aquilo que ela deseja saber naquele momento. 🗣️ Não é necessário dar mais informações do que ela pediu, mas é importante responder ao que foi perguntado. Você pode dizer algo como: "Ele estava doente, o veterinário tentou ajudá-lo, mas o corpinho dele parou de funcionar e ele morreu". 🧠 Por volta dos 7 anos, as crianças começam a compreender que a morte é irreversível, ou seja, que quem morreu não vai voltar, embora isso também dependa do desenvolvimento cognitivo de cada uma. Ainda assim, é comum que façam as mesmas perguntas repetidamente ou pareçam não entender completamente. Isso não significa falta de compreensão. Significa que estão tentando absorver uma informação difícil. 🎈 Também é importante compreender como as crianças vivem o luto. Elas entram e saem da dor. Podem chorar porque sentem falta do animalzinho e, pouco tempo depois, estarem brincando ou assistindo a um desenho. Muitos pais se assustam com isso, mas esse “vai e vem” costuma ser saudável. 🤝 Outra dúvida frequente é: "O que eu faço para meu filho não sofrer?". O objetivo não é impedir que a criança sofra, mas ajudá-la a não sofrer sozinha. Isso significa abrir espaço para perguntas, acolher emoções e mostrar que tristeza, saudade, raiva ou confusão são reações naturais quando perdemos alguém ou algo que amamos. 🎨 Também pode ser muito valioso criar pequenos rituais de despedida. Algumas crianças gostam de fazer desenhos, escrever cartas, olhar fotografias ou compartilhar histórias sobre o animal de estimação. Outras conseguem falar melhor sobre seus sentimentos quando utilizam livros, histórias ou recursos que ajudam a transformar emoções em palavras. Essas atividades não têm como objetivo apagar a dor, mas ajudá-la a encontrar um lugar na história da criança. ❤️ Ao longo dos anos acompanhando crianças e famílias enlutadas, percebi que aquilo que mais ajuda não são as respostas perfeitas, mas a presença. Uma conversa. Uma história compartilhada. Um desenho guardado com carinho. Um álbum de memórias construído juntos. São nesses pequenos gestos que as crianças descobrem que o amor não termina com a despedida e que é possível continuar lembrando de quem se foi sem deixar de viver. 🌱 Essas orientações valem tanto para a perda de um animal de estimação quanto para outras situações, como a morte de um familiar, o divórcio dos pais ou outras perdas importantes. 🌻 As perdas fazem parte da vida e, embora sejam dolorosas, também podem ensinar sobre amor, despedidas e adaptação. O mais importante é que a criança se sinta incluída, informada e autorizada a expressar o que sente. Isso contribui para a construção de recursos emocionais para lidar com os desafios ao longo da vida. 🌙 É esperado que, após uma perda, a criança fique mais sensível, apresente alterações temporárias no sono, no apetite, maior necessidade de proximidade dos pais ou até alguma queda no rendimento escolar. 🩺 Na maioria das vezes, essas reações fazem parte do processo de luto. O acompanhamento profissional pode ser importante quando o sofrimento permanece intenso por um período prolongado, interfere significativamente na rotina ou quando surgem sinais como isolamento persistente, ansiedade elevada ou agressividade. 💖 Por fim, seu filho não precisa deixar de sentir saudade para ficar bem. A saudade é uma expressão do amor. O que ele precisa aprender é que não é errado sofrer quando perdemos algo ou alguém importante e que é possível sentir saudade e continuar vivendo, brincando, aprendendo e construindo novas memórias. ✨ Essa é uma das lições mais valiosas que podemos oferecer às crianças, a de que o amor continua existindo, mesmo quando a presença física já não está mais aqui. Criar pequenos rituais de despedida é importante: fazer desenhos, escrever cartas e olhar fotografias são alguns exemplos — Foto: Magnific Daiane Sá - Psicóloga do CEI (Centro Educacional Espaço Integrado), especialista em Neuropsicologia e Neuromodulação Cerebral 🧠 Por volta dos 8 anos de idade, a criança está em fase de transição na compreensão da morte. O córtex pré-frontal, região cerebral responsável pelo raciocínio lógico e pela compreensão de causa e efeito, está em pleno desenvolvimento. A criança está começando a entender que a morte é irreversível. No entanto, o cérebro ainda recorre a mecanismos de defesa, como a negação e o pensamento mágico, típicos dos 5 ou 6 anos, para se proteger da dor. 🐾 Por isso, em alguns momentos, ela ainda pode oscilar e enxergar a morte como algo reversível, de forma semelhante ao que acontece em desenhos animados, quando o personagem é esmagado e volta ao normal. Dessa forma, perder um animal de estimação é um momento que não pode ser minimizado, pois pode ser a base de como seu filho irá lidar com perdas futuras. 💬 Dizer que o pet "foi viajar" ou "foi dormir" pode gerar uma falsa expectativa na criança. Diga a verdade com clareza, doçura e acolhimento. Valide os sentimentos e não se espante com as reações. 🌊 O luto infantil costuma ocorrer em doses. Isso acontece porque o cérebro infantil ainda não tem maturidade para processar grandes cargas de estresse emocional por períodos prolongados, precisando de pausas. 🤝 Ajude-a nomeando os sentimentos: "Tudo bem ficar triste. Eu também estou". Ver os adultos expressando a dor de forma saudável ensina que a tristeza faz parte da vida. 🎨 Também é fundamental criar um ritual de despedida, como fazer um desenho, plantar uma flor. Os rituais ajudam o cérebro a processar a concretização da perda, facilitando o encerramento do ciclo. ❤️ No caso de perda de uma pessoa próxima, é importante que os pilares da verdade e do acolhimento se mantenham. A notícia deve ser dada por alguém que represente segurança, de forma simples, direta e com poucas palavras, permitindo que o cérebro dela processe e compreenda a informação. 🕊️ A participação em velórios ou enterros é indicada, desde que a criança seja preparada previamente sobre o que irá encontrar e expressar o desejo de ir. 👀 Por fim, vale lembrar que o luto infantil se manifesta de maneira mais comportamental do que verbal. Fique atento às mudanças no sono, no apetite, no rendimento escolar e nos movimentos de introspecção ou isolamento social. 🩺 Se os sinais persistirem ou causarem sofrimento extremo, o suporte de um profissional de psicologia pode ser de grande ajuda. Patrícia Camps - Doutoranda e mestra em Psicologia Clínica e coorganizadora do livro 'Lutos não reconhecidos na infância e na adolescência' (Summus Editorial) 🌿 O luto é uma resposta natural e esperada frente a uma perda significativa. Trata-se de um processo que mobiliza emoções, desafia nossa capacidade de adaptação e nos convida a construir novos sentidos e formas de viver diante da ausência. 🧒 Quando falamos em luto na infância, é importante lembrar que as crianças também sentem e sofrem diante das perdas. Desde muito pequenas, elas percebem ausências, mudanças na rotina e transformações nas relações que organizam seu cotidiano. 🔄 Separações, mudanças de escola ou de cidade, adoecimentos, perdas de animais de estimação e outras rupturas podem convocar importantes processos de adaptação. Embora distintas em sua natureza e impacto, essas experiências compartilham o desafio de reorganizar a vida diante de algo ou alguém que deixa de estar disponível da mesma maneira. 🎈 Os lutos vividos na infância não são menores nem menos intensos do que os vividos pelos adultos, mas costumam ser expressados de formas diferentes, muitas vezes por meio do brincar, de perguntas repetidas, de mudanças de comportamento ou de oscilações entre momentos de tristeza e atividades cotidianas. 🧠 Também é importante considerar que, à medida que amplia seus recursos cognitivos e afetivos, a criança pode revisitar a perda e construir novos significados para esta experiência. 🐾 Ao perder um animal de estimação, a criança perde muito mais do que um bichinho. Perde uma presença cotidiana, um companheiro de brincadeiras e alguém que ocupava um lugar importante em sua vida afetiva. Nessa idade, muitas crianças já sabem que quem morreu não vai voltar — o mais difícil não é compreender a morte, mas aprender a viver com a saudade e a ausência. ❤️ Diante dessa dor, é natural que pais e cuidadores queiram protegê-la do sofrimento. Embora não possamos evitar que as crianças enfrentem perdas ao longo da vida, podemos acompanhá-las nessas travessias. Nesses momentos, vale conversar de forma clara, acolhedora e adequada à idade, evitando metáforas que possam gerar confusão e abrindo espaço para perguntas, emoções e dúvidas. Mais importante do que encontrar explicações perfeitas é oferecer presença, escuta e acolhimento. NO RADAR 👀 Entendendo e explicando o luto, por Bianca Oigman, do Instituto Entrelaços O conceito de morte é construído pela criança ao longo do seu desenvolvimento cognitivo e emocional. Esse processo também é influenciado pelo contexto social e ambiental, especialmente se ela já passou por alguma perda significativa. Todos esses fatores contribuem para a compreensão da morte. Existem três pilares que são adquiridos ao longo desse desenvolvimento cognitivo: A irreversibilidade, que é a compreensão de que quem morre não volta à vida A não funcionalidade, que é o entendimento de que todas as funções biológicas e vitais cessam com a morte A universalidade, que é a noção de que todos os seres vivos morrem, sendo a morte um processo inevitável Falar sobre a natureza é uma forma de ajudar a criança a compreender o conceito de morte e o ciclo da vida. Ao observar que tudo o que nasce também morre e que cada etapa tem uma função, ela consegue entender esse processo de maneira mais concreta. Um exemplo é a sementinha, que brota, cresce, dá folhas e frutos. Depois, as folhas caem, morrem e voltam à terra, dando continuidade ao ciclo da vida.
O luto e as primeiras perdas do seu filho. Como lidar?
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