"Caso Master é de esquerda e de direita, porque está em todo lugar, com agentes de todos os lados”Andreazza fala sobre a ação da PF, a nona fase da Operação Compliance Zero que teve como alvo principal de busca e apreensão o senador Jaques Wagner (PT). Crédito: EstadãoGerando resumoO fundo Eagle Eye Investments, que está inserido na teia de fundos de investimento ligados ao banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, informou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ter uma participação acionária avaliada em R$ 113,7 milhões na FRBS Participações S.A., empresa que detém o licenciamento da marca Forbes no Brasil.PUBLICIDADEProcurada, a FRBS se manifestou por meio de Katarina Camarotti, diretora-executiva da Forbes Brasil e filha de Antonio Camarotti, CEO e publisher da revista. Por meio de nota, ela afirmou que “a FRBS/Forbes BR não tem nem nunca teve qualquer sócio/acionista para além de Antonio Camarotti e Katarina Camarotti. Tampouco há qualquer pessoa ou entidade com direito a deter participação na nossa empresa”.Katarina acrescentou ao jornal Folha de S.Paulo, que publicou inicialmente a notícia, que desconhece os documentos registrados pelo fundo na CVM. “Não temos conhecimento do porquê isso aconteceu. O que posso afirmar novamente é que isso que foi reportado está errado”, disse ela.PublicidadeVorcaro definiu Wagner, Costa e Silveira como ala do governo a favor da compra do Master pelo BRBBanqueiro preso pelo PF apostava em apoio de governistas para aprovar operação. Crédito: Alvaro GribelA defesa de Vorcaro optou por não se posicionar e disse que se manifestará no momento oportuno.Como o Estadão mostrou nos últimos meses, Vorcaro, seu entorno e o Master mantiveram relações societárias, financeiras ou parcerias com uma série de veículos de imprensa nos últimos anos. A lista inclui os sites PlatôBR e Brazil Journal, a revista Isto É e os portais Metrópoles e Léo Dias (leia mais abaixo).O Eagle Eye está na carteira do fundo Astralo 95. Em março, a Justiça de São Paulo determinou o protesto contra a venda de diversos bens relacionados de alguma forma a Vorcaro e ao Master. O Astralo 95 estava entre eles.PublicidadeA decisão ocorreu após um pedido do liquidante do banco. O objetivo foi impedir que o patrimônio da instituição evapore, garantindo que os bens possam ser utilizados para ressarcir os credores do Master que foram prejudicados pelas supostas fraudes financeiras.A administradora do Eagle Eye é a Reag Investimentos, que foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central no início do ano. A empresa é alvo da Polícia Federal, que investiga se fundos geridos por ela foram usados em fraudes junto ao Master.Fundos de investimento são obrigados a prestar periodicamente informações sobre suas aplicações à CVM. Em novembro de 2024, a Reag Investimentos enviou à autarquia uma demonstração financeira do Eagle Eye – relatório contábil em que detalha todos os ativos e passivos do fundo.PublicidadeLogo no início do documento, a Reag afirma que as demonstrações em questão não foram auditadas porque a auditoria não é obrigatória para fundos em funcionamento há menos de 90 dias, conforme regras da própria CVM.A demonstração abrange o período de 10 de outubro de 2024, quando o Eagle Eye iniciou suas atividades, a 30 de novembro de 2024. Não há demonstrações financeiras posteriores a essa data.No documento, a Reag informou que o Eagle Eye detinha 100% das ações, um total de 225.349 unidades, da FRBS Participações. A participação foi avaliada pela administradora em R$ 113,7 milhões.PublicidadeAs ações, segundo o documento, foram adquiridas por meio de um contrato de mútuo, uma espécie de empréstimo que, em vez de dinheiro, é pago em ações da própria empresa.Trecho da demonstração financeira em que a Reag informa que o Eagle Eye detém 100% das ações da FRBS, adquiridas por meio de mútuo conversível Foto: Reprodução/CVMO Estadão questionou Karina Camarotti especificamente sobre o mútuo do Eagle Eye com a Forbes Brasil, mas não houve menção à operação financeira na nota enviada à reportagem. À Folha, ela afirmou que “nunca foi contabilizado qualquer mútuo dessa dimensão na Forbes Brasil, nem houve conversão em ações”. Também disse que Daniel Vorcaro e o Master não têm participação na empresa e nem “qualquer direito de vir a deter participação na FRBS no futuro”.PublicidadeO sistema da CVM informa que o Eagle Eye também tem em sua carteira R$ 100 milhões em um contrato de mútuo conversível em ações. Não é detalhado de qual empresa seriam essas ações. O campo destinado a essa informação foi preenchido como “outros”. Além disso, o contrato está associado a um CNPJ inexistente, conforme consulta feita pela reportagem à base de dados da Receita Federal.Composição da carteira do Eagle Eye em novembro de 2024; ações da Forbes Brasil e mútuo de R$ 100 milhões com empresa não identificada Foto: Reprodução/CVMA demonstração financeira enviada à CVM menciona outro acordo, este para que Antonio Camarotti, descrito como controlador da FRBS, venda parte de suas ações diretamente ao Eagle Eye. PublicidadeNão está claro como isso aconteceria, pois o próprio documento informa na mesma página que o fundo já detinha 100% das ações da Forbes Brasil.Em registros da Junta Comercial de São Paulo consultados pelo Estadão, apenas Antônio e Katarina aparecem como detentores de ações da Forbes Brasil ao longo dos últimos anos. Não há menção ao Eagle Eye.A empresa é uma sociedade anônima, o que significa que nem todos os acionistas precisam aparecer nos documentos protocolados na Junta Comercial. Normalmente, a lista completa consta em registros que ficam sob a guarda da própria empresa.PublicidadeTrecho da demonstração financeira enviada à CVM pela Reag informa acordo para que o Eagle Eye (Investidor) compre ações de titularidade de Antonio Camarotti na Forbes Brasil (Companhia) Foto: Reprodução/CVMKatarina disse à Folha que “a ausência de qualquer referência em Junta Comercial, atas de assembleias etc. confirma que não há acionistas para além dos dois já citados, Antonio e Katarina Camarotti”.A FRBS aprovou em dezembro de 2025 a distribuição de R$ 16 milhões em dividendos aos acionistas, que não são discriminados. Antonio aparece como presidente e Katarina, secretária, da Assembleia Geral Extraordinária que tomou a decisão.Vorcaro tinha preocupação em controlar noticiário sobre ele e o MasterMensagens obtidas pela Polícia Federal demonstram preocupação do ex-banqueiro em controlar o noticiário sobre ele em meio às dificuldades enfrentadas pelo Master. Paralelamente, ele estreitou relações com uma série de veículos de imprensa, inclusive por meio de pagamentos diretos ou indiretamente por meio de pessoas de seu entorno.PublicidadeVorcaro orientou, por exemplo, respostas da Rioprevidência a perguntas enviadas pelo Estadão a respeito dos aportes do fundo de pensão dos servidores do Rio de Janeiro em letras financeiras. Ele também reclamou em uma conversa com o empresário Thiago Miranda, então sócio do Portal Leo Dias, de uma notícia publicada pelo site do jornalista sobre o filme Dark Horse. A obra conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e teve o ex-banqueiro como financiador. A notícia foi apagada após a reclamação de Vorcaro. O caso foi revelado pelo portal The Intercept. Segundo a Polícia Federal, o site O Bastidor e seu diretor, o jornalista Diego Escosteguy,teriam recebido dinheiro de Vorcaro para publicar informações de interesse do ex-dono do Master.PublicidadeÀ época, Escosteguy negou a informação e disse que sua relação com Vorcaro “foi estritamente profissional, no âmbito da atividade jornalística, caracterizando-se como relação de fonte — prática legítima, comum e indispensável ao exercício da imprensa".Cunhado e operador financeiro de Vorcaro, Fabiano Zettel está por trás de uma cadeia de fundos que foi sócia da Foone Serviços, empresa que criou o site PlatôBR e que manteve sociedade com o Brazil Journal, veículo que cobre o noticiário econômico e a Faria Lima. Quando a notícia foi publicada em março pelo Estadão, o PlatôBR negou que tenha havido interferência editorial de Vorcaro ou Zettel, enquanto o Brazil Journal não se posicionou.O Estadão também revelou que uma empresa do jornalista Leo Dias, que publica notícias e fofocas sobre famosos, recebeu ao menos R$ 9,9 milhões diretamente do Banco Master.PublicidadeLeo Dias afirmou que os pagamentos são relativos a um contrato de publicidade com o Will Bank, que fazia parte do conglomerado do Master e também foi liquidado pelo Banco Central.Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou que o Master repassou R$ 27,2 milhões, entre 2024 e 2025, ao Metrópoles, site de notícias comandado pelo ex-senador Luiz Estevão. O relatório registra os pagamentos como suspeitos ao apontar que o veículo fez “débito imediato” de valores recebidos do Master em direção a outras empresas da família de Estevão, o que “pode configurar possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.O ex-senador afirmou ao Estadão que os pagamentos diziam respeito a duas coisas: patrocínio do Will Bank à transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2025, feita pelo Metrópoles, e venda dos naming rights da competição. Em relação às transferências para empresas da família, ele disse que pode dar a destinação que quiser ao dinheiro recebido.A revista Isto É também tem conexões com o caso Master. A EntrePay, dona do veículo, teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, o que resultou no bloqueio das contas do grupo, atraso de salários e greve de funcionários no mês passado. O site da revista chegou a ficar alguns dias fora do ar.A Polícia Federal investiga a possibilidade de que Daniel Vorcaro seja “dono oculto” da EntrePay, que oficialmente tem como principal sócio o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior.Mais recentemente, a Entre Investimento, também de Freixo, passou a ser investigada por ter repassado dinheiro do Master para a produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL).