Reduzir as emissões de metano são hoje o ponto mais rápido e acessível de intervenção climática Emissão de metano em aterros — Foto: Gabriela Biló/Folhapress O planeta está aquecendo mais rápido do que jamais previmos e seguimos respondendo mais devagar do que podemos. Desde a Rio-92, quando o mundo firmou seu primeiro compromisso global para enfrentar a crise climática, a velocidade do aquecimento dobrou. Não é retórica: é física. Estamos acelerando em direção a limites que podem redefinir as condições de vida na Terra. O teto de 1,5ºC, consagrado no Acordo de Paris, deixou de ser uma ambição distante. É uma linha que estamos prestes a cruzar. A de 2ºC, antes tratada como cenário extremo, já entra no horizonte de poucas décadas. Entre esses dois marcos há uma janela perigosamente estreita, pouco mais de uma década, para evitar mudanças irreversíveis. Não se trata de projeções abstratas, mas de riscos concretos: o colapso da Amazônia, o derretimento acelerado da Groenlândia e a desorganização de correntes oceânicas que regulam o clima global. Ultrapassá-los não significa apenas mais calor, mas um planeta estruturalmente mais instável, com impactos em cadeia sobre água, alimentos, economia e segurança. O curto prazo já deixou de ser alerta para se tornar evidência. Ondas de calor extremo tornaram-se recorrentes. O “super” El Niño, já observado em diferentes regiões do mundo, pode amplificar ainda mais essa instabilidade. Ao mesmo tempo, o próprio sistema climático começa a trabalhar contra nós: partes da Amazônia já emitem mais carbono do que absorvem. A natureza, silenciosamente, está mudando de lado. Diante disso, a resposta global segue presa a promessas graduais, metas distantes e compromissos voluntários que não refletem a urgência do problema. O mundo conhece as soluções, mas ainda hesita em adotá-las na escala e na velocidade necessárias. A mais evidente delas é também a mais negligenciada: os superpoluentes climáticos. Quase metade do aquecimento atual não vem do dióxido de carbono, mas de poluentes como metano, hidrofluorcarbonos, carbono negro e ozônio troposférico. São dezenas, centenas ou até milhares de vezes mais potentes que o CO2 e permanecem menos tempo na atmosfera. Isso muda tudo. Reduzi-los não é apenas eficaz; é imediato. Cortá-los agora pode evitar muito mais aquecimento nas próximas décadas do que a descarbonização isolada. Não se trata de uma aposta. É uma estratégia comprovada. O Protocolo de Montreal permanece como o acordo ambiental mais eficaz da história justamente por ser vinculante, com metas claras e implementação real. A lição é inequívoca: quando os países assumem obrigações concretas, os resultados aparecem. Quando ficam no voluntarismo, não. É exatamente aí que falhamos com o metano, hoje o ponto mais rápido e acessível de intervenção. A tecnologia existe, o custo é baixo e os ganhos são imediatos. Continuar tratando esse tema como opcional deixou de ser prudência. É omissão. A mensagem começa a mudar. Não por acaso, durante a Semana de Ação Climática de Londres, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou um apelo global à ação sobre o metano e afirmou que “a poluição por metano deve ser a próxima a ser eliminada”, defendendo um novo padrão global de “emissões de metano próximas de zero em toda a cadeia de valor". Para ele, a era das ações voluntárias acabou. A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley fala em “um novo momento camada de ozônio”. Ambos têm razão. O Brasil, que ajudou a inaugurar o multilateralismo climático, tem a chance de liderar novamente. Mas o tempo para passos graduais acabou. A física não negocia. Cada fração de grau importa. Cada ano perdido estreita o caminho. Não estamos mais escolhendo entre agir depois ou agora, mas entre agir rápido ou reagir tarde demais. Ainda temos as ferramentas e o conhecimento para evitar o pior. O que falta é decisão. E, neste ponto da história, decidir devagar já é decidir perder. Durwood Zaelke é fundador e presidente do Instituto para Governança e Desenvolvimento Sustentável (IGSD), com sede em Washington e Paris, onde se concentra em estratégias de mitigação rápida para proteger o clima, incluindo a redução de poluentes climáticos de vida curta (principalmente HFCs e metano). Madelyn Zuckerman, assistente de pesquisa do IGSD, também prestou auxílio neste texto.
O mundo acelera rumo ao colapso e ainda escolhe ir devagar
Reduzir as emissões de metano são hoje o ponto mais rápido e acessível de intervenção climática










