Estádio de Houston lotado para partida entre Portugal e Uzbequistão: megaeventos esportivos geram visibilidade global e oferecem narrativas de liderança — Foto: Karen Warren/AP A história recente por trás de um dos esportes mais populares do mundo tem mostrado que, diferentemente do que creem as torcidas, futebol e política se misturam. As Copas do Mundo de 2018 e 2022, na Rússia e no Catar, respectivamente, foram consideradas por analistas exemplos de como o futebol pode ser instrumentalizado para melhorar a imagem de países vistos como autoritários - uma prática conhecida como “sportswashing”. Há oito anos, Moscou buscou projetar a imagem de um país moderno, aberto ao turismo e integrado à comunidade internacional ao receber o evento esportivo em um momento de isolamento diplomático após a anexação da Crimeia, em 2014, e das críticas relativas às leis anti-LGBTQIA+ do país, bem como ao uso de trabalho forçado de norte-coreanos na construção de arenas para o torneio. Já Doha, quatro anos depois, investiu bilhões de dólares para se consolidar como um polo global de negócios, tecnologia, turismo e diplomacia no Golfo Pérsico aos olhos do mundo durante o torneio - em meio a críticas sobre a exploração de trabalhadores imigrantes, restrições a direitos civis e controvérsias ligadas ao processo de escolha do país como sede, que foram intensificadas pelos desdobramentos do Fifagate. A China já havia utilizado ferramentas de sportswashing nos Jogos Olímpicos de 2008, quando converteu o evento em uma vitrine para projetar a imagem de potência moderna, próspera e plenamente integrada à ordem global - em uma tentativa de suavizar a percepção externa sobre questões como restrições às liberdades civis, censura e violações de direitos humanos. A discussão sobre se o fenômeno do sportswashing existe ou não na Copa de 2026 - que, além dos EUA, tem Canadá e México como anfitriões -, por outro lado, divide analistas ouvidos pelo Valor no que diz respeito à projeção de poder de Washington EUA sob Donald Trump. Minky Worden, especialista em esportes e direitos humanos da Human Rights Watch, define sportswashing como uma forma ação política cujo objetivo é acobertar abusos que prejudicam a reputação de um país no exterior. Nesse contexto, ela avalia que Trump teria muito a ocultar, incluindo violações de direitos humanos em meio à repressão contra a imigração, que já ocasionou a morte de dois manifestantes em Minneapolis por agentes federais, e os conflitos envolvendo Venezuela e Irã, que foram iniciados apesar da promessa do presidente de evitar novas guerras em seu novo mandato. “A Copa de 2026 deveria ser a primeira regida por um marco de proteção aos direitos humanos”, diz Worden. “Mas, em razão das políticas do governo Trump, acabará sendo, em grande medida, uma grande operação de sportswashing destinada a beneficiar Trump”, acrescenta. Em contraposição, Simon Kuper, colunista do Financial Times e autor de “World Cup Fever: A Footballing Journey in Nine Tournaments” (Febre da Copa do Mundo: Uma jornada pelo futebol em nove torneios, em tradução livre), descarta a tese de que a edição de 2026 do Mundial se encaixe no caso de sportswashing. “Sportswashing é o que a Rússia fez. É o que o Catar fez. Trata-se de usar o esporte para apresentar seu país como mais acolhedor, mais simpático e dotado de excelente infraestrutura”, analisa. “O sportswashing procura mostrar um país melhor do que ele realmente é. Trump não faz isso de forma alguma, porque não tenta parecer simpático nem acolhedor. Pelo contrário, Trump não liga para isso: ele gosta de exibir o sadismo, de promover a xenofobia.” No mesmo sentido, o historiador Alan McDougall, da Universidade de Guelph, no Canadá, afirma que o governo Trump não demonstra interesse em usar a Copa como instrumento para reforçar a imagem internacional dos EUA, o que, para ele, “torna a edição de 2026 um caso atípico na história do esporte”. Ao comparar o torneio deste ano com o de 1994, que foi o primeira sediado pelo país, ele destaca que, há 32 anos, a Casa Branca era comandada pelo democrata Bill Clinton, descrito como um presidente “carismático”, interessado em construir pontes diplomáticas e fortalecer relações com outros países - características opostas às de Trump. “Em 2026, o governo Trump passou a semana anterior à Copa do Mundo impondo novas restrições de vistos de viagem a árbitros, jogadores e autoridades de diversos países, como Iraque, Irã e Somália, por exemplo”, diz. “O atual governo americano parece estar mais preocupado em provocar do que em construir pontes com outras nações ao redor do mundo”, completa. Emanuel Leite Junior, doutor em políticas públicas pela Universidade de Aveiro, em Portugal, e pesquisador associado da Tongji University, em Xangai, na China, adota uma perspectiva diferente da de Worden e de Kuper ao defender que a Copa de 2026 certamente pode funcionar como instrumento de “soft power” para os EUA, mas não necessariamente de sportswashing, “independentemente de Trump ter ou não uma estratégia explícita de reconstrução da imagem internacional do país”. Fifa tem se mostrado disposta a ser complacente com políticas arbitrárias de Trump” Leite explica que o conceito de soft power, formulado por Joseph Nye, em 1990, surgiu da tentativa de explicar como os americanos poderiam preservar sua posição hegemônica no pós-Guerra Fria não apenas por meio do poder militar e econômico, conhecidos como “hard power”, mas também pela capacidade de atrair e influenciar outros países por meio da cultura, dos valores e das instituições. Já a literatura sobre sportswashing, diz, foi difundida inicialmente na mídia ocidental e incorporada para descrever o uso do esporte por países considerados autoritários. “O problema é que essa categoria quase sempre foi aplicada seletivamente a países como China, Rússia, Catar, Arábia Saudita ou Emirados Árabes Unidos, enquanto práticas semelhantes realizadas por potências ocidentais raramente receberam o mesmo enquadramento", pontua. “Trata-se, portanto, de um conceito profundamente marcado pela hegemonia ideológica do Ocidente”. “Nesse sentido, prefiro compreender a Copa do Mundo como um instrumento de soft power e de disputa hegemônica, algo que faz parte da política internacional contemporânea. Os Estados sempre buscaram utilizar grandes eventos esportivos para produzir prestígio, reconhecimento, legitimidade e influência. Isso não é uma exceção; é a regra”, prossegue. Além disso, Leite afirma que o possível uso de soft power no torneio não significa, necessariamente, que Trump esteja preocupado em “limpar sua imagem”, visto que o presidente é conhecido por adotar uma retórica “confrontacional”. “Megaeventos esportivos geram visibilidade global, atraem turistas, projetam símbolos nacionais, fortalecem narrativas de liderança e oferecem oportunidades para associar o país anfitrião a valores positivos como celebração, integração e cooperação internacional. Esses benefícios existem independentemente da intenção explícita dos governantes”, explica. O pesquisador ressalta, entretanto, que a Copa já pode estar produzindo um fenômeno distinto: o chamado “soft disempowerment”. Segundo Leite, esse conceito descreve como iniciativas criadas para ampliar a influência e a atratividade internacional podem, simultânea e paradoxalmente, gerar o efeito contrário - que dialoga com os argumentos trazidos por Kuper e McDougall, inclusive. “Em vez de fortalecer automaticamente a imagem do país, os holofotes globais voltados para o Mundial têm ampliado a visibilidade de contradições políticas, práticas autoritárias e ações que reforçam percepções negativas sobre os EUA. A Copa está funcionando não apenas como uma vitrine para o país, mas também como um poderoso mecanismo de escrutínio internacional”, esclarece. Como exemplo mais emblemático, o especialista cita a contradição “significativa e ilustrativa” do governo Trump em comparação com o México, que tem buscado se apresentar como acolhedor. No fim de maio, por exemplo, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum anunciou que seu governo concordou em hospedar a seleção iraniana em Tijuana após os EUA terem recusado receber a delegação do país persa, com quem travavam uma guerra há meses. Um ponto de convergência entre os analistas, por sua vez, é a constatação de que Gianni Infantino, presidente da Fifa, tem adotado uma mudança de postura política no campeonato de 2026, principalmente, em relação aos EUA. Nesse sentido, McDougall avalia que a entidade “tem se mostrado mais do que disposta a ser complacente e cúmplice das políticas bastante arbitrárias do governo Trump”. Para o canadense, a cumplicidade entre a Fifa e o atual governo americano, que se tornou ainda mais evidente quando Infantino concedeu a Trump o primeiro Prêmio da Paz da entidade em dezembro de 2025, estava “afastando muitas pessoas que amam o futebol do torneio antes mesmo de ele começar”. Leite também destaca que chama a atenção a inconsistência dos critérios adotados pela Fifa a depender da nação com quem tem que lidar. Ele lembra que, em 2023, a entidade chegou a retirar da Indonésia o direito de sediar a Copa do Mundo Sub-20 em meio à recusa de autoridades locais para a entrada da seleção de Israel no país, descartando o argumento de que a decisão fazia parte da soberania nacional do país anfitrião. Todavia, na preparação para a Copa de 2026, a federação assumiu um discurso mais cauteloso diante de controvérsias envolvendo restrições migratórias, concessão de vistos, tratamento diferenciado a determinadas nacionalidades e a revogação de ingressos de torcedores iranianos nos EUA, alegando que não pode intervir em políticas domésticas. “A Copa de 2026 talvez seja menos uma competição sobre futebol e mais um laboratório para observar as contradições da ordem internacional contemporânea. Ela colocará à prova não apenas a capacidade organizacional dos anfitriões, mas também a coerência da Fifa, os limites da chamada neutralidade esportiva e a forma como esporte, poder e geopolítica continuam profundamente entrelaçados no século 21”, constata. McDougall, em compensação, diz acreditar que Trump e a Fifa de Infantino não serão capazes de arruinar a capacidade da Copa de funcionar como uma espécie de “ritual de globalização”. “Conheceremos [no torneio] diferentes países, novos jogadores, veremos antigos jogadores produzirem momentos de brilhantismo. Haverá drama, haverá controvérsias, e, parte da política que vimos antes do torneio, parte dessas controvérsias políticas, ficará para trás”. Na mesma linha, Leite afirma que a composição cada vez mais diversa das seleções nacionais ajuda a evidenciar como a dimensão globalizada é preservada pela Copa. “Em muitos casos, atletas representam os países para os quais seus pais ou avós migraram. Em outros, representam a terra natal de seus ascendentes. Essas trajetórias são produtos diretos da globalização contemporânea”, exemplifica. “Talvez não mais como símbolo de uma globalização liberal triunfante, típica dos anos 1990 e início dos anos 2000”, pondera, “mas certamente como expressão de um mundo profundamente interconectado”.