Novos itens nos menus vão de bebidas proteicas a pratos menores, com composição mais saudável, e até pizza de só 18 cm Camila Miglhorini, da Mr. Fit: frequência de compra e tíquete médio subiram — Foto: Claudio Gatti/Divulgação O avanço das chamadas canetas emagrecedoras já tem reflexos em bares, restaurantes e praças de alimentação. Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 61% dos estabelecimentos identificam mudanças no comportamento dos consumidores, enquanto dados da IQVIA, consultoria global especializada em inteligência de mercado para os setores farmacêutico e de saúde, indicam que 22% dos brasileiros fazem ou já fizeram uso dos medicamentos da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Diante desse cenário, redes de diferentes segmentos aceleram adaptações em cardápios, formatos de produtos e estratégias de comunicação para atender clientes que passaram a fazer escolhas mais criteriosas. As mudanças aparecem em diferentes frentes. Segundo a Abrasel, 64% dos estabelecimentos registraram aumento nos pedidos de miniporções, mais de 70% perceberam crescimento da procura por refeições consideradas mais leves e 65% identificaram redução no consumo de doces. O movimento reforça uma transformação que já vinha ganhando espaço no mercado, impulsionada pela busca por bem-estar, alimentação equilibrada e maior atenção à composição nutricional dos alimentos. Embora as franquias de alimentação saudável estejam entre as mais bem posicionadas para capturar essa demanda, a entidade não vê uma divisão clara entre vencedores e perdedores. Para Bruno Gorodicht, coordenador da comissão de food service da Associação Brasileira de Franchising (ABF), a capacidade de ajuste será mais determinante do que o segmento de atuação. “O consumidor continua buscando prazer, indulgência e experiências gastronômicas. A adaptação da oferta pode ser mais importante do que uma mudança radical no modelo de negócio”, diz. Levantamento da consultoria Galunion com 1.020 consumidores reforça essa percepção. Segundo a pesquisa, 91% dos usuários ou ex-usuários de medicamentos à base de GLP-1 relatam mudanças nos hábitos de alimentação fora do lar. Entre elas estão a preferência por porções menores, a redução de pedidos de entradas, sobremesas e bebidas e a busca por refeições mais ricas em proteínas. “O consumidor continua querendo pizza, hambúrguer, massas e sobremesas. O que muda é que ele passa a buscar uma porção mais adequada que entregue mais satisfação com menos excesso”, afirma Simone Galante, fundadora e CEO da Galunion. Algumas redes já observam impactos concretos nos indicadores de consumo. Na Mr. Fit, que possui mais de 880 unidades no Brasil e no exterior, um levantamento realizado com clientes e franqueados apontou aumento de aproximadamente 30% na frequência de compra entre consumidores que utilizam medicamentos da classe GLP-1. O tíquete médio desse público também cresceu cerca de 12%. O cliente está mais consciente e seletivo em suas decisões” Segundo a fundadora e CEO da rede, Camila Miglhorini, o movimento reflete uma mudança na forma como esse cliente se relaciona com a alimentação. “Esse consumidor passou a comer em menor quantidade, mas priorizando a qualidade nutricional, o que o conecta diretamente à nossa proposta de valor”, afirma. A percepção levou a empresa a desenvolver o Combo Leveza, composto por prato principal “low carb” de 300 gramas, sobremesa proteica e bebida funcional. A proposta é oferecer uma refeição com alta densidade nutricional em um volume mais adequado para consumidores que relatam redução do apetite após o uso dos medicamentos. Segundo a empresária, a expectativa é ampliar a identificação desse público com a marca e consolidar uma demanda que vem crescendo nas unidades da rede. O Rei do Mate também acelerou investimentos em categorias associadas à funcionalidade e à saciedade. Com mais de 350 unidades e faturamento superior a R$ 410 milhões, a rede ampliou a oferta de bebidas proteicas à base de “whey protein” e colágeno, incorporou produtos com “matcha” ao portfólio e reforçou as opções de café da manhã com omeletes e preparações à base de ovos. Segundo o CEO da rede, Antonio Carlos Nasraui, as bebidas proteicas vêm apresentando boa aceitação, enquanto o café da manhã e os produtos à base de matcha registram desempenho acima das expectativas. Ele afirma que a aposta busca ampliar as ocasiões de consumo de refeições rápidas e saudáveis em uma operação que já comercializa mais de 500 mil cafés e outros 500 mil cappuccinos por mês. “Nossa estratégia não foi reagir a uma tendência específica, mas preparar a marca para uma transformação mais ampla dos hábitos de consumo”, afirma. Na Puro.Açaí, com mais de 80 unidades no país, os reflexos das canetas emagrecedoras aparecem na maior procura por ingredientes naturais. Segundo Fernando Horácio, diretor-executivo da marca, os medicamentos não afetaram o interesse dos consumidores por experiências gastronômicas, mas alteraram os critérios de escolha. “Percebemos redução no volume consumido e uma preocupação maior com a composição dos produtos. O cliente está mais consciente e seletivo em suas decisões”, afirma. As adaptações não estão restritas às marcas posicionadas no território da saudabilidade. Em julho, a Água Doce Sabores do Brasil, rede de casual dining com mais de 60 unidades, vai lançar novo cardápio com foco em porções menores e maior presença de proteínas e espera impulsionar as vendas em 10% no segundo semestre. “O consumidor que usa esses medicamentos não para de comer. Ele passa a comer com mais intenção. Quem consome menos quer que cada garfada valha mais”, afirma Julio Bertolucci, diretor de franquias da rede. A mudança também chegou ao segmento de pizzarias. Na Di Blasi Pizzas, rede com 50 unidades em funcionamento no país, formatos menores entraram no radar da companhia, que avalia versões de 25 cm e até 18 cm para atender consumidores que passaram a comer pizza com menor frequência. “Não acreditamos que o consumo de pizza vá desaparecer. Esse consumidor continua disposto a pagar por qualidade, mas agora quer outra experiência”, diz o CEO da rede, Arnaldo Di Blasi. Para Galunion, a discussão não se resume à oposição entre alimentação saudável e indulgência. “As canetas emagrecedoras vão demandar das redes de franquia uma nova equação entre prazer, suficiência, composição e valor percebido”, afirma.