Há 57 anos, em 28 de junho de 1969, a história do movimento LGBTQIAPN+ mudou de rumo em um bar de Nova York. O episódio, que ficou conhecido como a Revolta de Stonewall, tornou-se um marco na luta por direitos civis, encabeçada por figuras como a ativista negra e transgênero Marsha P. Johnson. O que começou como um levante contra a violência policial rapidamente ganhou o mundo e foi ressignificado para muito além de uma história de dor. Desde então, a lembrança daquela madrugada reverbera e transforma o Dia do Orgulho em um manifesto que celebra, no Brasil e no mundo, o direito inegociável de existir em plenitude. Imagem da "rebelião Stonewall", em Nova York, em 1969 — Foto: Divulgação — Orgulho é resistência, é honra. É estar presente. É levantar sua bandeira e mostrar: “Estou aqui. Vou ocupar esse espaço, vou pisar aqui. Sou um ser humano e mereço ser tratado com respeito” — defende a drag queen Miami Pink, idealizadora do Drag Star, evento que agita o Teatro Rival Petrobras, no Centro, mensalmente. O Rio não fica de fora da luta, nem da festa. Durante todo o ano, a bandeira do movimento colore a cidade, mas, nesta semana, a programação se intensifica, com peças, espetáculos, paradas, shows e mostras de cinema que celebram a riqueza e a diversidade da cultura LGBTQIAPN+. Peças Edwin Luisi em "Eu sou minha própria mulher' — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo Uma travesti na Alemanha nazista, uma lésbica na Bahia durante a Inquisição portuguesa, um garoto de programa, um professor universitário gay. Esses são alguns dos personagens que ocupam os palcos cariocas neste Mês do Orgulho. Mais do que figuras isoladas, eles funcionam como motores de narrativas LGBTQIAPN+ que atravessam tempo e espaço. Em “Eu sou minha própria mulher” (Teatro Vannucci, Shopping da Gávea; sáb, às 20h30; dom, às 19h30; R$ 150; 14 anos; até dia 28), Edwin Luisi interpreta Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002), mulher trans que sobreviveu ao regime de Hitler vivendo sob constante perseguição. Para o ator, que retorna ao papel 18 anos após a primeira montagem, a história segue atual: — Quando a Alemanha se divide, ela fica do lado comunista e constrói um museu que existe até hoje. Ela sobreviveu aos dois regimes mais repressivos do mundo ocidental, sempre marginalizada. A coragem de escolher ser quem se é, contra tudo e todos, é inacreditável. O desejo de ser autêntico acaba sendo maior do que o perigo que se enfrenta. No solo “Filipa” (Centro Cultural da Justiça Federal, Cinelândia; sex e sáb, às 19h; dom, às 18h; R$ 50; 16 anos; até dia 28), Waleska Arêas coloca o público diante do julgamento de Filipa de Sousa (1556-1600), acusada de “práticas nefandas” e condenada pela Inquisição portuguesa em 1592 por amar outras mulheres. Considerada uma das primeiras vítimas de homofobia no Brasil, sua história atravessa séculos como denúncia e memória. Mas a violência não ficou no passado. Outras peças em cartaz tratam de experiências contemporâneas de preconceito e repressão. Em “Hétero sigilo” (Teatro Municipal Ziembinski, Tijuca; sex e sáb, às 20h; dom, às 19h; R$ 70; 18 anos; até dia 28), o autor parte de um episódio de homofobia vivido com o namorado durante uma missa. Já o monólogo “Selva: solidão” (Teatro Gláucio Gill, Copacabana; qui e sex, às 20h; R$ 30; 16 anos; até dia 26), de Vinícius Teixeira e Jefferson Almeida, acompanha três homens gays cujas trajetórias se cruzam na solitude. Espetáculos Drag Star agita noites no Teatro Rival Petrobras, no Centro — Foto: Divulgação A história LGBTQIAPN+ não se resume à luta; ela também se faz na celebração. As performances de ballroom, os espetáculos de cabaré e os shows drags dão uma pista dessa potência. Com o bom humor a tiracolo, essas expressões típicas da comunidade combinam arte, música, comédia, lipsync, glamour e figurinos bafônicos para criar noites únicas. — O humor que aprendemos como ferramenta de sobrevivência serve para sairmos de situações delicadas com graça. Pegamos essa leveza que o humor traz, apimentamos, deixamos um pouco ácida e levamos para os palcos — explica Miami Pink, do Drag Star. Com uma edição especial de “Pride Show” no Dia do Orgulho, o concurso de drag queens (Teatro Rival Petrobras; dia 28, às 20h; R$ 60; 18 anos) reúne artistas de diferentes estilos, trajetórias e gerações, em uma noite de shows comandada por Ravena Creole e Miami. Renata Carvalho dirige "Cabaré Traviarcado" — Foto: Divulgação O palco também é lugar de reverência e memória. Com direção da dramaturga, cientista social e antropóloga trans Renata Carvalho, o “Cabaré traviarcado: uma ode às travestis” (Teatro Gláucio Gill, Copacabana; sex a dom, às 22h; R$ 5; 18 anos; até dia 28) reúne um elenco só com travestis em homenagem a precursoras como Rogéria, Divina Valéria e Eloína dos Leopardos. — A arte tem o poder de abrir mentes e corações e de jogar luz em assuntos ainda pouco debatidos em sociedade, e no palco podemos trazê-los de forma lúdica — defende Renata, que fez sucesso com o solo “Manifesto transpofágico”. Cinema Celebrando a diversidade em múltiplos formatos, com debates, festas e performances, a 4ª edição da mostra “Quem quer queer?” (Estação Rio e Estação Gávea; R$ 19; até 8 de julho) reúne mais de 40 longas, como “Tudo sobre minha mãe”, de Pedro Almodóvar, (sex, às 20h), e “Hairspray — E éramos todos jovens”, de John Waters (dom, às 14h50). Cecilia Roth interpreta Manuela em "Tudo sobre minha mãe" — Foto: Divulgação Já o 5º Festival Rio LGBTQIA+ ocupa CCBB (R$ 10), Instituto Cervantes e Instituto Italiano de Cultura (ambos com entrada gratuita) de 2 a 8 de julho com mais de 200 filmes de diversos países para refletir sobre juventude, desejo e sobrevivência na comunidade. Entre as produções nacionais, está “Trago seu amor” (dia 7, às 19h30, no Instituto Cervantes), comédia romântica de Claudia Castro com Giovanna Grigio. Eventos Cena do ballroom ferve na noite carioca — Foto: Juliana Bizzo Entre a festa e a memória, há muitas formas de celebrar. Uma delas é a cultura do ballroom, um símbolo da resistência LGBTQIAPN+ e negra nos EUA, que invadiu o Rio dando sotaque tropical aos famosos bailes cheios de vogue. Nesta quinta (25), às 20h, antes da exibição de “Madame Satã” (21h), de Karim Aïnouz, no Estação Rio, rola um Ballroom não-competitivo. Já nos Arcos da Lapa, o fervo é no “Ballroom do Orgulho” (dia 28, às 14h). O evento faz parte do Mercado Mundo LGBTQIA+ , que reúne, na praça dos Arcos, expositores, feira gastronômica e shows, como Ebony e Sapagode (grátis, com retirada de ingressos via Sympla). Também nos Arcos, acontece neste domingo a 4ª Parada LGBTQIAPN+ da Lapa (às 14h), com DJs, apresentações de ballroom, artistas trans e drags. À noite, shows da rapper Realleza (às 20h30) e de Jup do Bairro (às 21h). A programação começa antes, na Praça Paris, na Glória, com o piquenique “Máximo Barulho em Paris” (das 10h às 14h), que reúne, além de comidas compartilhadas, debates, homenagem à transformista Laura de Vison e roda de maracatu com o Baque Mulher. A data também tem eventos para apresentar o tema a crianças. No CCBB, a Cia. Costurando História apresenta “Minha família é onde cabe meu amor” (dia 28, às 16h, grátis), sobre respeito às diferenças e os muitos jeitos de formar uma família.
Dia do Orgulho: peças, espetáculos, shows e eventos para celebrar a cultura LGBTQIAPN+
Mais do que uma história de luta e dor, o movimento LGBTQIAPN+ traz ao Rio cultura rica que vai desde peças teatrais a competições de ballroom e shows de drag; confira roteiro








