Milhares de pessoas juntaram-se este sábado, em Lisboa, numa marcha pelos direitos LGBTI+, contra o risco de retrocessos. Com o lema "Nem Silêncio, Nem Medo: Existimos e Resistimos", a 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero, Intersexo e outras identidades) começou no Marquês de Pombal, em Lisboa, pelas 17h.Ao som dos tambores, os manifestantes começaram a descida da avenida enquanto agitavam bandeiras não só com as cores do arco-íris, mas também várias outras combinações que representam as comunidades. Liam-se cartazes como "ideologia é revogar leis de 2018 contra todos os pareceres científicos", "em cada rosto, igualdade" e "o amor das minhas mães merece ser celebrado, não explicado".A Comissão Organizadora da marcha lembrou, em comunicado, que "a nova conjuntura política" a que se assiste "volta a colocar as pessoas e famílias LGBTQI+ em perigo, com sinais de que as conquistas das últimas décadas estão hoje em risco de retrocessos"."Num ano em que as pessoas LGBTQIA+, especialmente as pessoas trans e de género diverso, têm sido atacadas sem qualquer pudor, com tentativas de reversão de direitos adquiridos, no que seria o primeiro retrocesso a nível de Direitos Humanos desde o 25 de Abril, e em que, pela primeira vez, ao fim de décadas, Lisboa não terá o Arraial Pride em Junho, a importância desta manifestação é incontestável e símbolo de orgulho e de luta da comunidade, das suas famílias e pessoas aliadas", lê-se na nota.Helder Bértolo, da Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho, deu exemplos do que considera como risco de reversão de direitos. "Tivemos uma tentativa no Parlamento de revogar a Lei 38 de 2018", que é a lei que estabelece o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género. "Espero que isso não se concretize, mas é importante as pessoas estarem aqui a falar, a celebrar e também a reivindicar."Hugo Silva, médico que se juntou à marcha, considerou que, este ano, "com a ascensão da extrema-direita e com o discurso de ódio, mais importante que nunca é estar aqui a marcar posição, até por todos os outros que também não podem cá estar e que não podem falar".Já Mert Yilmaz, guia turístico turco, contou à Lusa que esta foi a primeira vez que se juntou à marcha em Portugal, mas que já tinha participado em eventos semelhantes noutros países. E lembrou que "ainda há pessoas que foram mortas ou acusadas por causa da sua sexualidade, por causa da sua identidade". "Estamos aqui porque estamos a lutar por amor e direitos iguais, não mais, não menos", defendeu.Sandra Cardoso, gerente comercial, também já tinha participado em marchas no Brasil. Agora que veio morar para Portugal decidiu juntar-se ao evento, em nome de um "mundo mais aberto".Enquanto acompanhava os milhares de manifestantes, muitos com leques coloridos que também serviam como "instrumento" de som para acompanhar a música, o professor universitário João Oliveira disse à Lusa que tem marcado presença em todas as marchas de orgulho LGBTQI+ e que tem notado que o número de pessoas tem aumentado ano após ano. "Quando há partidos com ideologias fascistas presentes na esfera da democracia, é natural que estes números aumentem precisamente para reivindicar mais espaços de democracia."Paulo Muacho, deputado do Livre, também esteve presente. "Este ano é mais importante do que nunca marcar presença nesta marcha e em todas as marchas pelo país, porque neste momento temos uma direita ainda mais radicalizada, uma direita que escolheu as pessoas LGBT como o seu alvo de ataque e que está a querer retirar direitos."Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda, sinalizou, por seu lado, ser com tristeza que vê que "esta é a primeira marcha em muitos anos num contexto de recuo de direitos, com um Governo que tem uma agenda conservadora, que entendeu fazer uma guerra aos direitos, a todos os direitos sociais"."Isso vê-se nos direitos das mulheres no pacote laboral, vê-se no recuo dos direitos dos trabalhadores, vê-se na proibição de bandeiras, na forma como os direitos dos jovens LGBT estão a recuar nas escolas, mas também no ataque aos direitos", argumentou, reiterando que os manifestantes vieram à marcha para dizer que resistem juntos.A marcha contou com a participação de 17 associações e colectivos com intervenção política na área LGBTI+, feminista e antirracista.
Milhares de pessoas marcharam em Lisboa pelos direitos LGBTI+ e contra retrocessos
Manifestantes desceram Avenida da Liberdade enquanto agitavam bandeiras. Liam-se cartazes como “ideologia é revogar leis de 2018”.












