Alívio a microempreendedor com dívidas se soma ao custo já intolerável do afã eleitoreiro do Planalto 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente Lula no lançamento do novo Desenrola — Foto: Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil/04/05/2026 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encontra limites na distribuição de “bondades” de olho nos dividendos eleitorais. A próxima na lista promete ser o afago aos microempreendedores individuais (MEIs). O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, disse em entrevista ao GLOBO que o Planalto prepara um desdobramento do programa Desenrola para regularizar a situação dos MEIs endividados. As condições são para lá de camaradas: desconto de até 70% e parcelamento de débitos em até 12 anos. Segundo Pereira, as transações serão limitadas a R$ 20 mil em dívidas e à prestação mínima de R$ 25 — hoje o prazo é de até dois anos, com parcela mínima de R$ 50. Pelos cálculos do governo, a iniciativa beneficiará até 4 milhões de MEIs — ou 4 milhões de eleitores. Sem medida de compensação. Trata-se de mais um item na lista de “bondades” sem fim: isenção do Imposto de Renda, ampliação do Minha Casa, Minha Vida para a classe média, fim da “taxa das blusinhas”, financiamento para carros de taxistas e motoristas de aplicativo, subsídios a combustíveis… e sabe-se lá mais o quê. Como acontece com o endividamento das famílias, não há garantia de que o socorro resolverá o problema dos MEIs. Em 2023, cumprindo promessa de campanha, Lula lançou o Desenrola Brasil. Foi importante para tirar famílias do sufoco, mas o alívio durou pouco. O endividamento voltou a crescer e, menos de três anos depois, o governo criou uma nova edição do programa. Não surpreende. Tais programas atacam as consequências, não as causas do problema. Enquanto o governo gastar sem freios e precisar tomar dinheiro emprestado pagando juros cada vez mais altos, não haverá solução. O desequilíbrio fiscal é o principal motivo para as taxas altíssimas cobradas nos empréstimos, com consequente inadimplência e demanda por sucessivos Desenrolas. Pior: ao aliviar os juros para um grupo específico, o governo cria uma distorção que obriga o Banco Central a aumentá-los ainda mais para manter a inflação sob controle. A sucessão de Desenrolas agrava as causas do problema, em vez de resolvê-las. Como se não bastasse, o governo pretende enviar ao Congresso um projeto para elevar o teto de faturamento dos MEIs para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. Um equívoco. O próprio Pereira reconhece que o impacto será de R$ 4 bilhões até 2028. O programa, criado para estimular a formalização de empreendedores de baixa renda, se afastou de seus objetivos. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostrou que ele beneficia não cidadãos da base da pirâmide social, mas profissionais com formação e renda incompatíveis com o alvo inicial. A despeito dos benefícios, o MEI é um programa caro para a sociedade. Por isso, antes de qualquer ampliação, seria fundamental uma avaliação criteriosa, de modo a calibrá-lo para atender a quem realmente precisa. Toda bondade do governo tem custo. Como mostrou reportagem do GLOBO, os programas generosos lançados por Lula em ano eleitoral já somam R$ 215 bilhões, ou 1,6% do PIB. Lamentavelmente, só R$ 9 bilhões, ou 4%, entram nas regras do arcabouço fiscal. Sem falar nas medidas que tramitam no Legislativo, com impacto previsto de R$ 217 bilhões, caso aprovadas. As “bondades” cairão como uma bomba no colo do próximo presidente.