O perfil químico mais detalhado já feito sobre a água do Tietê revelou que em quase todo o rio são encontrados poluentes que ainda não são monitorados pelas autoridades ambientais. Entre os compostos achados estão cocaína, microplásticos, 25 tipos diferentes de agrotóxicos e diversos fármacos. A análise foi encontrada ao longo de uma expedição de cinco dias que a ONG SOS Mata Atlântica realizou no ano passado em parceria com quatro centros de pesquisa. Foram colhidas amostras em 14 pontos diferentes da nascente à foz, indo da região serrana de Salesópolis até o Tietê desaguar no rio Paraná, em Itapura. Participaram do projeto cientistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Federal do ABC (UFABC) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). O trabalho revelou que, apesar de em alguns trechos do Tietê a água ainda ter qualidade que pode ser considerada "ótima", em nenhum dos pontos de coleta o rio estava totalmente livre de traços de interferência humana. Até mesmo na cabeceira do rio, dentro de um parque estadual, foi detectada a presença de alguns agrotóxicos e de cafeína, uma substância que revela o contato da água com esgoto, pois é eliminada junto com fezes humanas. — Isso surpreendeu muito, porque o parque Nascentes do Tietê é um lugar alto, com floresta exuberante, que não tem quase interferência humana. Ainda assim foram achados ali traços dessas substâncias, mesmo que em quantidades pequenas — conta o geógrafo Gustavo Veronesi, da SOS Mata Atlântica, coordenador do projeto. Os agrotóxicos encontrados na região da cabeceira do Tietê, diz, provavelmente são fruto de pulverização que ocorrem em lavouras vizinhas e são levado por vento ao rio e seus afluentes. Cortando a metrópole O Tietê é um rio com um curso um pouco incomum. Apesar de nascer a poucos quilômetros do Oceano Atlântico, como ele surge na encosta interna da Serra do Mar, ele corre para interior do país até desaguar na fronteira com Mato Grosso do Sul. É logo após sair da região serrana que o rio passa pelo trecho de poluição mais intensa: a área metropolitana da capital paulista, onde o contato com esgoto não tratado ou 'mal tratado' o torna mais sujo. No ponto de coleta em Osasco, na saída da cidade, já era possível encontrar na água do Rio um coquetel de traços de medicamentos que incluía drogas relaxantes musculares, analgésicas, psicoativas, diuréticas e anticoagulantes, que podem afetar a biologia de peixes até em concentrações pequenas rio adiante. Esses fármacos foram escolhidos como alvo do monitoramento por serem substâncias persistentes, que são bons marcadores do contato do rio com efluentes domésticos urbanos. Na Grande São Paulo, a presença desses compostes estava em maior concentração na área classificada como qualidade da água "péssima". No estudo, a presença de cocaína foi detectada sobretudo de forma indireta, pela presença da benzoilecgonina, um metabólito (subproduto da droga) que é formado dentro do organismo de quem a consome. Essa é a molécula analisada, por exemplo, em exames antidoping nos esportes. — O que chama atenção no metabólito da cocaína é que ele foi a sexta substância mais encontrada, à frente do diclofenaco, um anti-inflamatório que é muito usado, e de vários outros remédios bastantes comuns — diz o biólogo Camilo Seabra, da Unifesp, que participou da expedição. — Para além da poluição do rio, isso é sinal de que existe um consumo bem grande de cocaína naquela área. Cruzando canaviais Quando o Tietê deixa a região metropolitana, à medida que ele encontra seus rios afluentes, os poluentes vão se diluindo. Na altura da cidade de Salto, a qualidade da água volta a melhorar bastante. Basta entrar na região de presença maior da agropecuária, porém, para que entrem em cena os outros vilões: os agrotóxicos. O Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena) analisou esse problema durante a expedição e encontrou 26 de 46 compostos diferentes para os quais a água foi testada, entre inseticidas, herbicidas e fungicidas. A região mais contaminada foi aquela entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita, onde a água que entra como tendo qualidade "ótima" e sai classificada depois como "regular". "Os resultados reforçam que o uso e manejo de agrotóxicos é outro importante fator que exerce pressão sobre a qualidade das águas do Tietê, evidenciando a necessidade de ampliar o monitoramento, melhorar a gestão da bacia hidrográfica e incentivar práticas agrícolas mais sustentáveis" escreveram os cientistas Kassio Mendes e Nicoli de Moraes, autores dessa análise. Rumo à foz Depois de sair do núcleo que mais concentra agronegócio no estado (sobretudo a cana-de-açúcar), a água segue aumentando de volume e, por diluição dos poluentes, volta a melhorar. Mesmo no fim do rio, porém, diversos marcadores de poluição urbana e rural ainda são detectáveis. — A principal mensagem que a expedição deixa, porém, não é que o Tietê está poluído. Isso a gente já sabia — diz Seabra, da Unifesp, — O importante é entender que os projetos de mitigação e recuperação ambiental do rio precisam olhar para além dos contaminantes que hoje são legislados. A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), por exemplo, coleta regularmente uma série de micro-organismos e analisa o grau de oxigenação da água para medir a saúde do rio. A complexidade do impacto ambiental da urbanização e da agropecuária paulista, porém, requer que um trabalho mais detalhado seja feito, diz o cientista. Para Veronesi, da SOS Mata Atlântica, o problema da poluição do Tietê revela que, apesar de volumes vultosos de recursos terem sido investidos na recuperação do rio, pouca melhoria se viu nos últimos 30 anos. — O governo do estado tem agora o projeto Integra Tietê para tentar avançar nisso, mas a gente vê que ele tem algumas lacunas — diz o pesquisador. — Ele faz algumas ações no alto Tietê, faz algumas ações no baixo Tietê, mas esquece de fazer ações no médio Tietê. Ele não integra de fato as ações em relação ao rio. Outro lado Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), o governo tem conseguido avanços "expressivos" no combate à poluição do Tietê, e lista alguns números, como a realização de mais de 1,5 milhão de ligações domiciliares de esgoto na região metropolitana. "A Semil entende que o estudo apresentado evidencia a complexidade histórica de uma bacia hidrográfica que concentra cerca de 28 milhões de habitantes, aproximadamente 60% da população paulista, além de intensa atividade industrial, agrícola e urbana", afirmou o órgão em nota, comentando o estudo da SOS Mata Atlântica. "A carga de poluição transportada pelo Rio Tietê foi reduzida em 21%, passando de 219 para 173 toneladas por dia, uma queda equivalente a 46 toneladas diárias." A secretaria afirma que também avançou na agenda de monitoramento para atacar o problema desde 2023. "A Cetesb realizou 527 ações de fiscalização, sendo 396 em sistemas de saneamento e recursos hídricos, incluindo estações de tratamento de esgoto, estações elevatórias de esgoto, emissários e unidades de recuperação da qualidade das águas, além de 131 fiscalizações em empreendimentos industriais e agrícolas."
Cientistas acham traços de cocaína, microplásticos e 25 agrotóxicos na água do Tietê
Pesquisadores colheram amostras da nascente à foz do rio e identificaram diversos poluentes não monitorados por autoridades ambientais; nenhum trecho está 100% limpo









