A colunista Mariana Clark responde leitora que tem se desgastado com a relação familiar por conta de problemas na organização Trabalho na empresa da minha família e, por mais que eu ame o que a gente construiu, os conflitos internos têm me desgastado muito. As decisões quase nunca são só profissionais, sempre atravessam relações pessoais, antigas mágoas e expectativas que ninguém verbaliza claramente. Meu pai é meu superior direto e muitas vezes discordamos sobre estratégias, mas qualquer divergência vira algo maior, como se eu estivesse questionando ele como pessoa, não só como gestor. Se eu me posiciono, pareço “ingrata” ou “difícil”, e se eu me silencio, fico frustrada e desmotivada. Até que ponto é possível separar família e trabalho de forma saudável dentro de uma mesma empresa?Coordenadora de operações, 34 anos Conflitos fazem parte de qualquer organização. Em empresas familiares, porém, é ainda mais comum que eles não fiquem restritos ao negócio. Uma divergência sobre estratégia, por exemplo, pode carregar décadas de expectativas, mágoas, disputas por reconhecimento e crenças familiares. Por isso, trabalhar nesse tipo de organização exige muito mais do que competência técnica ou visão de negócio. É quase uma pós-graduação involuntária nas complexidades da psicologia familiar. Separar o profissional do pessoal parece óbvio, mas não é nada fácil diante da sobreposição de papéis. O desacordo deixa de ser sobre o problema e passa a ser sobre quem tem razão, quem tem reconhecimento ou quem tem voz. Muitas crises aparentam ser de gestão quando, na verdade, surgem do emaranhado entre relações mal estruturadas. Quando não amadurecida, a liderança e a sucessão tendem a concentrar inseguranças, disputas de poder e expectativas acumuladas ao longo de décadas. Segundo a McKinsey, há queda de receita, de retorno para acionistas e de lucro nos cinco anos seguintes a uma transição de liderança. O motivo não é a falta de competência dos herdeiros, mas a dificuldade do líder anterior em passar o bastão. Afinal, há mais do que se imagina em jogo, como a capacidade dele de reinvenção pessoal. É nesse contexto que a governança deixa de ser protocolo para se tornar proteção. Estruturas claras de decisão, definição de papéis, critérios transparentes e fóruns adequados para discussão ajudam a reduzir o espaço ocupado por interpretações, ressentimentos e disputas de poder. Não eliminam os conflitos, mas impedem que uma divergência se transforme em pauta do almoço de domingo. Quando não amadurecida, a liderança e a sucessão tendem a concentrar inseguranças, disputas de poder e expectativas acumuladas ao longo de décadas. — Foto: Freepik Em alguns casos, um mediador externo pode ser um investimento valioso, justamente por enxergar dinâmicas que quem está emocionalmente envolvido não consegue perceber. Essas soluções, entendo, podem não estar em suas mãos, o que reforça a necessidade de um trabalho individual. Como em qualquer empresa, cada profissional deve assumir responsabilidade pela própria identidade profissional, sem depender exclusivamente do sobrenome ou da aprovação dos pais. Desenvolver a regulação emocional ajuda a diferenciar o que pertence ao negócio e o que pertence à história familiar. É assim que se descobre quais emoções devem ser descartadas, quais estão sendo utilizadas para conduzir uma decisão e quais devem ser elaboradas e incorporadas. E se, em algum momento, você perceber que essa dinâmica está sacrificando a sua saúde mental, os seus vínculos familiares ou o seu projeto de carreira, talvez seja a hora de considerar uma pergunta difícil: permanecer na empresa é um projeto de futuro ou uma tentativa de preservar o passado? Porque preservar a si e à família pode exigir, em alguns casos, deixar de trabalhar com ela. Mariana Clark é psicóloga, especialista em saúde mental, perdas e luto no contexto organizacional e escolar Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.
Como separar o profissional do pessoal na empresa da família?
A colunista Mariana Clark responde leitora que tem se desgastado com a relação familiar por conta de problemas na organização












