Vivemos numa sociedade paranoica. Evidente platitude essa afirmação. Nelson Rodrigues diria "óbvio ululante!", mas a questão é: por quê? Nunca houve uma resposta tão fácil para uma questão tão complexa.

O tipo de paranoia que assola a sociedade em que vivemos advém da própria modernização tecnológica, produtora de conhecimento e informação em larga escala, e destruidora dos costumes.

Antes que alguém me acuse de ludista, não acho que antes era melhor. Nunca foi melhor. Nunca prestou. E nunca será melhor. Quem assim o nega, e "luta por um mundo melhor", normalmente não passa de um vaidoso ou vítima da vaidade alheia.

Mas, evidentemente, há males hoje que não existiam "antes das máquinas", como, aparentemente, pensava Ned Ludd quando, supostamente, quebrou teares no final do século 18 na Inglaterra e virou símbolo dos chamados ludistas, que décadas depois transformaram este gesto num protesto contra a revolução industrial. A moda hoje é dizer que quem teme a IA é um neoludista. As modas do pensamento são como um fungo que se espalha pelo mundo, assim como a banalidade do mal.

O temor de Ned Ludd, como símbolo de um olhar sobre a modernização industrial, pode ser visto tanto como uma crítica social e política ao futuro esmagamento do trabalhador pelo capital industrial, como também pode ser visto como um gesto romântico de nostalgia de um mundo ainda não devastado pela lógica furiosa do sucesso material, do "achievement" –realização, desempenho–, do dinheiro, do crescimento desenfreado do progresso.