A verdade e a percepção foram sempre irmãs desavindas. De vez em quando alinham e entendem-se, mas a maior parte das vezes cada uma anda para seu lado. Tendemos, individualmente e como sociedade, a enganar-nos e a iludir-nos. Apesar das evidências nos contrariarem, insistimos em estar errados sobre muita coisa.
A forma como percepcionamos o mundo é, muitas vezes, bastante distante do que mostram os fatos, os números, os estudos e os especialistas. Isso tem impactos enormes nas nossas vidas pessoais e também na vida coletiva. Grande parte do trabalho de comunicação dos políticos explora este hiato, seja para amplificar ilusões ou para tirar proveito delas.
No limite, esta dissonância vale ouro. "O sujeito ideal para um governo totalitário é indivíduo para quem a distinção entre fato e ficção e entre verdadeiro e falso deixou de existir", explicou Hannah Arendt em "As Origens do Totalitarismo".
Porque é que isto continua a acontecer, se o ser humano conseguiu ter tanta informação facilmente ao seu dispor? Vale a pena ir ao passado, à nossa natureza biológica, para entender as razões profundas do poder das percepções.
Como mamíferos, estamos desenhados com um lobo pré-frontal, o "diretor-executivo" da mente, pequeno, enquanto a glândula que segrega a adrenalina, o nosso sistema de alarme, é bastante grande. Os mecanismos de defesa primitivos foram vitais durante milênios para a reação de "luta ou fuga". Hoje continuam a ajudar-nos, claro, mas também nos causam problemas. Alimentam um sistema gerador de ilusões.







