As coisas que uma mãe tem de ouvir por vezes até lhe retiram o ar, colocam-na em apneia sob o mesmo tecto da cria, seja pela injustiça das afirmações que nos entram pelos ouvidos ou porque, de alguma forma, ressoam na campainha da consciência e não param de retinir na memória durante dias. Há tempos a minha filha, do alto do poleiro das certezas dos adolescentes, vira-se para mim e diz:— Tu só fazes as coisas assim para ficares bem com a tua consciência, para mostrares aos outros que és boa mãe.Perturbada com a injustiça da afirmação, perguntei-lhe a que se referia, a que coisas, e logo enumerou o telemóvel, mais propriamente as restrições de acesso ao aparelho, como tinha acontecido horas antes. Disse que não era por lhe ser prejudicial que eu o proibia, mas porque queria mostrar que apenas agia segundo os parâmetros que considerava serem os de uma boa mãe, para mostrar a mim própria e aos outros que sabia sê-lo. Perguntei-lhe se estava mais alguém em casa connosco naquele momento ou na ocasião em que eu lhe reduzira o acesso ao dito aparelho.Não sei se não percebeu ou se fingiu não perceber a pergunta, por isso tive de lhe explicar, com a calma possível das mães saturadas dos sacrifícios em prol de filhos ingratos, quase à beira de um colapso nervoso, que, se não estava ninguém a assistir, para que plateia o faria? Que a minha intenção era preservar-lhe o cérebro ainda em desenvolvimento — esse órgão que lhe seria primordial para a vida inteira. Respondeu que não sabia explicar, mas que tinha noção daquilo que sentia.E eu fiquei a pensar que ser mãe de uma adolescente é uma prova de argumentação diária, uma tese inglória de mestrado cujo tema muda constantemente, tornando muitas vezes ininteligível o passar dos dias. Ainda se pode escrever "arre"? Arre, as coisas que uma mãe tem de ouvir.