Tenho três filhos: uma menina de dez anos e um casal de gêmeos de nove. Faltam pouco mais de três anos para que entrem na adolescência, e escrevo este artigo com o relógio correndo na cabeça.

Adolescentes hoje fazem perguntas a uma inteligência artificial que talvez jamais fariam aos pais. Identidade, sexualidade, saúde mental, religião e propósito —para citar apenas alguns temas.

Em milhões de casas brasileiras, a primeira presença a receber a confissão íntima de um jovem já não é mais humana. Não tem corpo. Não envelhece junto. Foi otimizada para que a conversa não termine.

Não se trata apenas de tempo de tela nem de mais um pânico tecnológico recauchutado. É algo categoricamente novo na história da espécie. Pela primeira vez, o interlocutor primário durante a formação da identidade pode não ser humano.

A psicologia do desenvolvimento sustenta, há mais de um século, que identidade não é algo simplesmente descoberto —é algo negociado.